Home / Colunas / Extras / 10 Filmes para ver e aproveitar o Dia do(a) Escritor(a)
As horas - Dia do escritor

10 Filmes para ver e aproveitar o Dia do(a) Escritor(a)

Por Thais Lourenço

O dia 25 de julho foi instituído em 1960, durante o I Festival do Escritor Brasileiro, como o Dia Nacional do Escritor, e para celebrar esta data resolvemos criar uma lista de filmes que, acreditamos, devem estar no seu rol de filmes essenciais sobre escritores e escritoras.

Ser escritor é brincar com as palavras e despertar sonhos (ou pesadelos) em seus leitores, é usar a linguagem como encantamento e feitiço, provocando as mais diversas sensações em quem está lendo. Não à toa, como irmãos, o cinema empresta essa característica e essa capacidade que tem a literatura, e adapta ao seu modo, essa magia da comunicação. Os filmes selecionados – a maioria deles efetivas adaptações – compõem um quadro imagético da grandeza de se trabalhar com e para as palavras.

Um feliz Dia do Escritor – e da Escritora – à todos (as).

“Quando os escritores morrem, eles se transformam nos seus livros. O que, pensando bem, não deixa de ser uma forma interessante de reencarnação.” (Jorge Luis Borges)

A Grande Beleza (2013)
Direção: Paolo Sorrentino

Jep Gambardella é um famoso escritor italiano conhecido por uma obra só, porém icônica no seu círculo de amizade. O filme trata da futilidade da vida na alta sociedade italiana, que busca se rodear de festas dionisíacas regadas à drogas e sexo para mascarar o vazio e a solidão, vivendo de aparências e arrogância. Jep, no auge dos seus sessenta anos, reflete sobre a vida que teve e a vida que poderia ter tido, sobre a morte e sobre os relacionamentos, levando uma vida boêmia, de aventuras amorosas e relações efêmeras, em busca de uma beleza indescritível, a fim de voltar a escrever. A fotografia e as locações remetem à grandiosidade invocada no título e uma trilha sonora ora extremamente dançante e barulhenta, ora clássica e introspectiva compõe a lírica perfeitamente.

Por que assistir?
O filme trata da expectativa em torno da produção e do “ser escritor”, tanto pessoal como coletiva, bem como faz refletir sobre a facilidade em tornar-se arrogante e fútil depois do sucesso alcançado. A Grande Beleza ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Meia-Noite em Paris (2011)
Direção: Woody Allen

O filme narra a história do jovem roteirista de Hollywood Gil Pender em sua saga por encontrar inspiração para escrever seu livro em Paris. Gil, que viaja de férias com sua noiva (e os pais dela), procura quebrar o bloqueio criativo em que se encontra e provar à eles – que duvidavam da possibilidade de sua profissão trazer algum retorno financeiro satisfatório – que pode tornar-se um escritor renomado. Gil, em suas caminhadas noturnas, entra numa fenda temporal e é transportado à épocas anteriores com que sonhava em viver (Paris dos anos 1920 de F. Scott Fiztgerald, Ernest Hemingway e Pablo Picasso, por exemplo), e acaba por encontrar seus grandes mestres e ver o tempo (presente) em que vive de forma diferente.

Por que assistir?
O filme traz um retrato do que é e era, através das décadas, o ambiente artístico de Paris. Há referências à inúmeros artistas consagrados e a fotografia e figurino são espetáculos à parte. É um filme bom para se pensar nas referências – e por que não dizer musas – de cada época e momento histórico. Ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Roteiro Original.

O Carteiro e o Poeta (1994)
Direção: Michael Radford

Pablo Neruda, em seu período de exílio do Chile, vive em uma pequena Ilha na Itália onde a maioria da população é analfabeta. Adorado como era, o poeta recebia dezenas de cartas por dia, o que fez com que o Correio local contratasse Mario, um carteiro que entregava apenas as suas correspondências. Os dois formam um vínculo baseado na confiança e na poesia: Neruda ensina à Mario como criar metáforas e Mario ensina à Neruda o valor da simplicidade e da amizade sincera e genuína.

Por que assistir?
Em um período de forte ebulição e perseguição política, o filme busca retratar o amor, na mais simples e pura forma. A mensagem é simples: ser escritor é aprender observar as coisas belas do mundo. A poesia não é privilégio dos eruditos, a poesia é o vento e as ondas do mar. O Carteiro e o Poeta ganhou o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original, para Luis Enríquez Bacalov e o BAFTA de Melhor Filme em Língua Não Inglesa.

O Iluminado (1980)
Direção: Stanley Kubrick

Jack Nicholson vive Jack Torrance neste thriller baseado no livro homônimo de Stephen King. Ao seu lado, estão Shelley Duvall, que dá vida à Wendy Torrance, mulher de Jack, e Danny Lloyd, interpretando Danny Torrance, seu filho na trama. Jack é um escritor que está passando por um período de bloqueio criativo, quando é convidado para ser caseiro de inverno do Hotel Overlook, nas montanhas do Colorado, e viaja até lá com a sua família. Instalados no hotel, Danny passa a ter visões frequentes e atormentadoras e Jack, que continua incapacitado de escrever, começa também a ter delírios. As coisas vão ficando cada vez mais tensas na convivência entre a família, e Jack, completamente perturbado, passa a ter atitudes psicopatas e aterrorizantes.

Por que assistir?
O Iluminado é um clássico eterno, que nunca se torna cansativo de ser visto por ter o poder de ser cada vez mais interessante a cada vez que se assiste. O fato de a história se desenrolar em torno do fato de Jack ser escritor, é só um plus da trama, a máquina de escrever incessante é música para os ouvidos.

Memórias do Cárcere (1984)
Direção: Nelson Pereira dos Santos

Memórias do Cárcere é baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos (Vidas Secas) e narra a história do escritor no período em que esteve preso durante o período do Estado Novo no Brasil (1935). Graciliano, que então trabalhava no Palácio do Governo em Alagoas e já era um escritor conhecido, foi preso injustamente sob a acusação de ser comunista. Durante o período em que ficou preso, Ramos conviveu com todo tipo de gente – ladrões, militantes, assassinos, etc – que vão ajudando o escritor, com a intenção de serem imortalizados nas páginas do livro. Graciliano Ramos revela no livro as condições precárias e cruéis com que eram tratados os prisioneiros e com a ajuda da esposa e de amigos, consegue publicar seus escritos.

Por que assistir?
Memórias do Cárcere é um retrato do que era ser escritor em um período em que as liberdades individuais foram todas minadas por um Estado de exceção, e Nelson Pereira consegue com a produção, resgatar um Graciliano que vai além do Vidas Secas, ele resgata o que há de mais essencial no “ser-se escritor”: O fundamental compromisso com o marginal, o dar voz à quem não consegue ter voz sozinho, e através disso, promover pequenas mudanças no mundo e eternizar a história. Nelson Pereira dos Santos ganhou o Prêmio FIPRESCI do Festival de Cannes e o troféu APCA de melhor ator para Carlos Vereza e melhor filme.

Barton Fink: Delírios de Hollywood (1991)
Direção: Ethan Coen e Joel Coen

Barton é um reconhecido diretor e roteirista de peças de teatro com temáticas que giram em torno do homem comum, até que um dia recebe uma proposta de ir à Hollywood com seu empresário e roteirizar um filme B sobre luta romana. A partir daí, vemos um Barton em conflito sobre o que realmente quer: ganhar dinheiro e prestígio ou ater-se aos seus valores e continuar escrevendo sobre “homens comuns” e cotidiano. Ao longo desse bloqueio criativo, uma série de eventos um tanto quanto bizarros começam a tirar sua atenção, uma hora é o calor extremo, outra hora o vizinho barulhento. Quando Bart finalmente consegue escrever o que chama de “trabalho grandioso”, a trama se modifica.

Por que assistir?
Delirante e complexo, Barton Fink não é um filme fácil de ser digerido e nos mostra o mais profundo da consciência e da agonia do conflito entre o racional e o emocional do autor. Entre sucessos e fracassos, muito trabalho é envolvido e muitos nãos são ditos. Ganhou a Palma de Ouro de Melhor Direção e Melhor Ator para John Turturro no Festival de Cannes.

As Horas (2002)
Direção: Stephen Daldry

A autora britânica Virginia Woolf, em 1923, escreve o livro Mrs. Dalloway enquanto está internada sob tratamento psiquiátrico e sendo observada por médicos e seu marido. Laura Brown, em 1951, enquanto lê Mrs. Dalloway, está grávida e tenta ser uma esposa atenciosa e dona de casa típica do “Estilo de Vida Americano” durante meados do século XX. Clarissa Vaughn, em 2001, é uma editora lésbica e pretende fazer uma festa para seu amigo em comemoração a um prêmio importante por sua carreira como escritor. As vidas destas três mulheres de três décadas diferentes estão de alguma forma conectadas à história do livro Mrs. Dalloway e de suas personagens, entre escolhas e decisões tristes e felizes.

Por que assistir?
As Horas é um filme sensível, de reflexões complexas e dono de uma excelente trilha sonora que se funde perfeitamente ao filme. Presta, também, uma homenagem à grande escritora inglesa Virginia Woolf. A excelente atuação de Nicole Kidman vivendo a autora, emociona e mostra como eram sua criatividade, suas angústias e seu modo de pensar. As interpretações de Meryl Streep e Julianne Moore também não ficam atrás, suas personagens são carregadas de sensibilidade e questões perceptivas. Nicole Kidman ganhou o Oscar, o Globo de Ouro e o BAFTA de Melhor Atriz, o filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor filme de drama e o BAFTA de Melhor Trilha Sonora.

Louca Obsessão (1990)
Direção: Rob Reiner

Paul Sheldon é um escritor conhecido por sua série de livros best-seller. Ao terminar seu último livro da série, ele segue viagem para Nova Iorque e sofre um acidente de carro. Depois de ter ficado inconsciente, Paul acorda dentro da casa de uma enfermeira – Annie Wilkes – que diz ser fã número um do autor e de seus livros. Com o escritor dentro de sua casa, ela tem acesso à primeira versão do último livro, ainda em formato de rascunho, e a trama e as reviravoltas da história não agradam a enfermeira. A partir disso, Annie se revolta e Paul começa a descobrir a verdadeira personalidade dela.

Por que assistir?
Louca Obsessão é baseado no livro homônimo “Misery – Louca Obsessão” (1987) de Stephen King e, como muitas das adaptações de suas histórias, trata-se de um suspense psicológico intenso e agoniante. Kathy Bates apresenta grande atuação como a enfermeira Annie Wilkes, tanto que recebeu importantes prêmios por sua interpretação como a vilã. E em homenagem ao Dia do Escritor, este filme foi selecionado também por ter uma visão (sobretudo ficcional, esperamos) diferente sobre o que o prestígio e a fama poderiam render ao escritor. Kathy Bates ganhou o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz.

Flores Raras (2013)
Direção: Bruno Barreto

A história de amor conturbada de Lota de Macedo Soares – arquiteta brasileira renomada – e Elizabeth Bishop – poetisa norte-americana – é narrada nesse filme de Bruno Barreto. A história acontece no Brasil dos anos 50 enquanto Elizabeth estava no Brasil, e é cheia de idas e vindas. O filme conta com uma riqueza impressionante de fotografia e de atuações – com destaque para Glória Pires que interpreta Lota. Com delicadeza, a narrativa nos leva a conhecer o apogeu da poesia de Elizabeth (que ganhou o prêmio Pulitzer pela obra que escreveu enquanto esteve no Brasil) e a construção de uma das obras mais notáveis de Lota, o Aterro do Flamengo.

Por que assistir?
Além de ser brasileiríssimo e de retratar a delicadeza e complexidade dos relacionamentos, o filme nos traz a versão cotidiana e introspectiva da mente de uma poetisa já renomada mundialmente. Vemos na tela o processo criativo e de escrita de uma das obras mais célebres de Bishop, e entendemos um pouco mais de suas inspirações e anseios. O filme ganhou Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de Melhor Atriz para Glória Pires, Melhor Direção para Bruno Barreto, de Melhor Direção de Arte para José Joaquim Salles e de Melhor Figurino para Marcelo Pies.

O Cidadão Ilustre (2016)
Direção: Gastón Duprat e Mariano Cohn

Oscar Martínez vive o escritor argentino Daniel Mantovani, personagem fictício vencedor do Nobel de literatura. A trama gira em torno do convite recebido por Daniel para voltar ao seu povoado na Argentina, de onde saiu há 40 anos e nunca mais voltou, para receber o prêmio de Cidadão Ilustre. Mantovani, apesar de não estar acostumado a aceitar esse tipo de premiação, aceita e resolve voltar à sua cidade natal, que serviu de inspiração para muitos de seus sucessos. Uma série de reviravoltas deixa a situação complicada para o escritor, que se torna um alvo para os moradores locais, retratados na sua obra.

Por que assistir?
O cinema argentino, não é segredo para ninguém, produz obras cinematográficas impressionantes e apaixonantes, O Cidadão Ilustre não é exceção. Além do ótimo roteiro e produção, o longa trata do problema do direito de imagem na produção pública e desvenda os bastidores de uma grande obra literária e de seu autor. O filme ganhou o Prêmio Goya de Melhor Filme Ibero-Americano.

Na Estrada (2010)
Direção: Sam Riley e Walter Salles

Na Estrada é baseado no romance On the Road de Jack Kerouac, escritor que lançou as bases da geração Beat, modelo literário norte-americano com origem nos anos 1950 como reação do modelo conservador em vigor na época. A história gira em torno de Sal Paradise, um jovem escritor de Nova Iorque que está passando por um período difícil, quando conhece Dean Moriarty, um garoto empolgante e animado, e sua namorada Marylou. Dean muda completamente o rumo da vida de Sal, apresentando um universo que ele antes não conhecia. Rapidamente tornam-se amigos e partem juntos para uma viagem cruzando os Estados Unidos, buscando romper com valores antiquados da sociedade estadunidense da década de 1940. Enquanto fazem suas descobertas, o grupo é embalado por drogas, sexo, jazz e pela tão sonhada liberdade.

Por que assistir?
Na Estrada é um retrato do comportamento da famosa Geração Beat, movimento sociocultural que influenciou muitos jovens na década de 40 e 50. As ideias e estilo de vida que vemos no filme buscam retratar as atitudes e os conceitos de muitos integrantes desta geração, como os escritores Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs.

Sobre Thaís Lourenço

25 anos, capricorniana de nascença, historiadora de formação e cinéfila por vocação. Adora Almodóvar, Wes Anderson, Kubrick e Georges Méliès.
Comentários