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Cinemascope - Protestos em cena quando cinema e política andam lado a lado

Protestos em cena: quando cinema e política andam lado a lado

Por Joyce Pais

Não é de hoje que profissionais do cinema usam de sua popularidade e da visibilidade que as grandes premiações trazem para levantar questões, protestar sua indignação e engrossar o coro de debates que, quase sempre, já estão em curso na sociedade como um todo. Ainda que em poucos minutos (segundos, ás vezes!), astros e estrelas dessa indústria, que produz ícones como ninguém, aproveitam seus momentos de brilho e o tornam em um ato, também, político.

O presidente Donald Trump mal chegou ao poder e muitos artistas, não só do cinema, já foram a público manifestar sua insatisfação e revolta com as medidas racistas, sexistas e xenófobas anunciadas por ele. Decisões que impactaram diretamente na edição do Oscar deste ano, por exemplo, quando a atriz Taraneh Alidoosti e o diretor Asghar Farhadi, do indicado a Melhor Filme Estrangeiro, O Apartamento, anunciaram que não iriam à premiação em protesto contra o presidente dos EUA e a ordem que proíbe a entrada de refugiados e suspense os vistos de cidadãos de alguns países árabes.

No Globo de Ouro, que geralmente atua como um bom termômetro pro Oscar, em forma de protesto-provocação ao conservadorismo, teve beijo entre Ryan Reynolds e Andrew Garfield, a atriz Lola Kirke usou um bottom rosa escrito”foda-se Paul Ryan” contra o deputado que falou em cortar fundos de uma organização não-governamental que atua no âmbito da saúde sexual e, assim, a expectativa para a maior festa da indústria cinematográfica só aumentou. Protestos contra o presidente foram vistos também nos palcos do SAG Awards e se até o tradicional evento pré-Oscar foi cancelado pela agência United Talent Agency que o promove anualmente, já que eles decidiram doar a verba para associações ligadas aos direitos civis.

Até quem não costuma dar muito as caras em premiações, se posicionou à sua maneira. O ator Shia Leabeauf criou uma plataforma de protesto contra Trum em Nova York chamada “He Will Not Divide Us”. A instalação, segundo o próprio criador, vai durar quatro anos  ou o tempo do mandato do controverso presidente.

Cada época tem sua demanda, seus conflitos, lutas e reivindicações. Por isso, reuni alguns dos momentos mais marcantes das cerimônias, em que artistas tiveram a coragem suficiente para manifestar-se contra algo, prestar apoio a minorias, ou até protagonizarem situações em que a política e o cinema mantiveram uma relação tão estreita, como no caso Elia Kazan e o comunismo. Quem não souber do que estou falando, pode dar uma sacada rápida nesse e nesse link.

Sem mais delongas, vamos lá!

 

Não precisa de muito comentário né. O vídeo fala por si só. Para mim, o momento mais emocionante do Globo de Ouro este ano. O discursou conseguiu condensar questões delicadíssimas e graves e conquistou a empatia não só de quem estava presente na cerimônia, mas do público, que o repercutiu nos dias seguintes.

No Oscar de 1973, Marlon Brando ganhou o prêmio de Melhor Ator pelo icônico papel de Vito Corleone, em O Poderoso Chefão, mas a estatueta foi recusada pelo ator, que enviou uma mulher indígena (depois foi descoberto que era a atriz Sacheen Littlefeather) para fazer um discurso em prol da inclusão de atores das comunidades tradicionais estadunidenses em papéis de destaque na TV e cinema do país.

 

O cineasta Elia Kazan recebeu um prêmio honorário por sua carreira no Oscar de 1999, não agradando muitos membros da academia, que não aplaudiram o artista por ter contribuído, no passado, com a delação de comunistas para a “Caça às Bruxas” durante o governo McCarthy, em plena Guerra Fria.

 

Em 1975, dessa vez por conta da Guerra do Vietnã (gente, é muita guerra, CREDO), Bert Schneider, que foi receber o prêmio por ter produzido o documentário vencedor, Corações e Mentes, leu um telegrama do governo vietnamita no palco com uma mensagem de paz.

 

A maravilhosa da Vanessa Redgrave, em 1977 (0s anos 70 foram um agito, não?) fez um discurso pró-palestina em ao ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por Julia, dirigido por por Fred Zinnemann.

 

O rei das polêmicas. Michael Moore, que é abertamente contrário a governos republicanos, usou seu discurso de vencedor em 2003 para dizer que as eleições que escolheram George W. Bush como presidente dos Estados Unidos foram fictícias, ganhando a nítida aprovação de alguns e as vaias de outros.

 

Como não compareceu à cerimônia, o diretor iraniano Asghar Farhadi, que já conta com duas estatuetas, uma por A Separação (2011) e outra por O Apartamento (2017),  enviou um recado, que pra mim foi o auge da cerimônia ontem, apenas sintam:

Sinto muito não poder estar aqui hoje à noite. Minha ausência se dá pelo respeito que tenho pelas pessoas de meu país e as outras nações prejudicadas pela lei que bloqueia entrada de imigrantes nos Estados Unidos. Dividir o mundo entre nós e os inimigos cria medo e justifica agressão e guerra. Essas guerras impedem o desenvolvimento da democracia. Os cineastas podem usar suas câmeras para mostrar qualidades humanas e romper estereótipos. Eles criam empatia entre nós e os outros, uma empatia que precisamos hoje em dia mais do que nunca”.

Que as lutas, sejam elas quais forem, não cessem, nas telas e, principalmente, fora delas.

Sobre Joyce

Fundadora e editora do Cinemascope, jornalista, paulistana, fotógrafa, apaixonada por David Lynch, Pedro Almodóvar, Marilyn Monroe e café.
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