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Couro de gato

Couro de Gato

Por Felipe Mendes

Certo tempo atrás, um grupo de jovens intelectuais apresentou uma proposta visando a renovação do cinema brasileiro. Devido à crise de grandes companhias cinematográficas no início dos anos 50, críticos e estudantes resolveram apostar em novas fórmulas para a realização de uma obra esteticamente mais verdadeira e desprovida de interesses industriais. O Cinema Novo apresentou o Brasil como ele realmente era, deflagrando os conflitos sociais e econômicos presentes na sociedade da época. O curta-metragem Couro de Gato é fruto da parceria entre dois grandes nomes da efervescência do movimento, o diretor Joaquim Pedro de Andrade e o fotógrafo Mário Carneiro.

Na trama, as lentes subjetivas do cineasta acompanham a trajetória de cinco meninos pelos caminhos tortuosos da favela carioca. Cercados pela vida miserável que os assolam, eles tentam arrecadar alguns trocados de diversas maneiras para sobreviver. Simultaneamente, Joaquim Pedro insere a grande festa do povo brasileiro na obra; sob um aspecto cruel, distante da folia que toma as ruas todos os anos. Às vésperas do carnaval, fabricantes de tamborins compram gatos para confeccionar o instrumento a partir do couro dos bichanos. Sabendo desta recompensa, os garotos articulam inúmeras tramoias para capturar os felinos e receber qualquer nota para bancar os próprios sustentos.

A bela fotografia de Mário Carneiro denota os opostos entre a vida sofrida dos meninos e a burguesia carioca. Com alto teor de realidade, Joaquim Pedro transcende os limites entre ficção e documentário. O cineasta mescla o elenco com atores profissionais e habitantes das comunidades do Cantagalo e Pavãozinho na obra; o resultado é fabuloso. Nos momentos derradeiros da trama, um dos garotos rouba o angará de uma madame e foge para o morro. No alto da favela, ele brinca com o gato, desfrutando o prazer de criança que o fora interditado. Após a admirável demonstração de afeto, o menino tem de renegar seus anseios e encarar o dilema sobre o destino do bichano.

Couro de Gato conquistou o seu lugar na história como uma das principais obras do Cinema Novo. O curta foi condecorado com importantes prêmios mundo afora, em países como Alemanha e Itália. Rodado em 1960, Couro de Gato precedeu, e inspirou, trabalhos de outros importantes cineastas do movimento. Posteriormente, a obra de Joaquim Pedro de Andrade foi incorporada ao longa Cinco Vezes Favela, uma compilação de curtas produzidos pelo Centro Popular de Cultura, da UNE. Com um enredo levemente semelhante a Rio, 40 Graus, filme de Nelson Pereira dos Santos, Couro de Gato caracteriza-se como uma obra-prima atemporal, já que passadas algumas décadas, a realidade apontada em cena não está muito distante da sociedade brasileira contemporânea.

Assista na íntegra:

Sobre Felipe Mendes

Carrega consigo a bonança do sertão nordestino e a loucura da metrópole paulistana. Gosta de acreditar que a felicidade é questão de querer. Admirador declarado das obras de Krzysztof Kieslowski e devoto dos iranianos Jafar Panahi e Majid Majidi. Imagina que o cinema representa a arte de apaixonar-se em movimento, 24 vezes por segundo. Prefere aqueles que se arriscam, que se emocionam, seja por amor ou pela dor. Sabe que a trajetória na terra não é como um filme de Frank Capra, mas acredita que o cinema é refúgio e inspiração para a vida.
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