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Tropico

Por Domitila Gonzalez

Nos últimos dois anos, a cantora Lana Del Rey arrebatou fãs de todo o mundo, explodindo na mídia com o single Blue Jeans e o álbum Born To Die. Pegando o embalo do sucesso musical, resolveu escrever um curta-metragem, no qual também atuaria.

Eis que surge Tropico – dirigido por Anthony Mandler.

O curta-metragem pode ser dividido em três atos, por assim dizer. Era uma vez Adão e Eva no Paraíso. Eva morde a maçã, cometendo um pecado, e é condenada a viver na Terra, junto com seu marido pecador, Adão. Ela vira uma prostituta, ele vira um balconista da gangue. Eles vivem em pecado até que Deus fica bravo e decide acabar com o mundo. Eles se arrependem, rezam, Deus concede o perdão a eles – que sobem aos Céus antes de tudo explodir. Fim.

Depois dessa magnífica sinopse bíblica do curta de Lana Del Rey, vamos aos detalhes.

Tropico é um banho de referências. Melhor: um caos de referências. Parece que a inexperiência de Lana como roteirista fez com que ela jogasse tudo num balaio gigante e tentasse produzir algo.

Não que o filme seja de todo ruim, não é isso. Só não tem nexo. É literal, óbvio e não deixa espaço para que o espectador preencha significados. Está tudo lá, batido, mastigado e carinhosamente regurgitado para que a mamãe passarinha alimente seus filhotes.

A coisa mais linda da produção é a própria Lana, que aparece como diva em todos os três clipes – sim, porque são clipes. Não têm significado nenhum se analisados como uma peça única, mas se vistos como três partes de uma coisa só, até que podemos tirar leite de pedra.

Tudo começa no Paraíso. E o que tem no paraíso? Adão e Eva (Lana e Shaun Ross)? Check. Jardim do Éden? Check. Cordeiro de Deus, pombinhas brancas, uma serpente e a macieira? Check.

Tem até um unicórnio – que não check, mas ok, porque representa a pureza e zás. Marilyn e Elvis também surgem, mas como referência à própria música Body Electric, que serve de plano de fundo para a primeira parte. Aliás, a música foi feita baseada no poema de Walt Withman, “I sing the body electric”, recitado pela cantora ao fim do capítulo Paraíso.

Confesso que, apesar de Lana ser maravilhosa, fiquei com um pouco de vergonha alheia dela rebolando com roupinha de Eva. Lembrei um pouco da cantora e dançarina Cora Corman, aquela loira mucho loca de Letra e Música (2007).

Então vem o trovão. Raios e trovões e a ira de Deus quando Eva morde a maçã. Gods & Monsters entra em ação, mostrando o caos, a inocência perdida e a degradação da sociedade humana.

Depois que pisca a imagem de Lana como prostituta no melhor estilo Jequiti de mensagem subliminar, somos mandados à Terra e encontramos a vida de pecado. Sexo, drogas, dinheiro, CocaCola, armas, jogo, gangues e a descrição de mulher como objeto. Mais do mesmo: símbolos já conhecidos da degradação da sociedade humana, da perda da fé.

Pra finalizar o capítulo, o poema Howl, de Allen Ginsberg. Lido de maneira sexy pela voz sussurrada de Lana, o primeiro verso diz: “Eu vi as melhores mentes da minha geração serem destruídas pela loucura”. Entende quando eu digo que é óbvio? Linka som e imagem, estamos vendo exatamente o que estamos ouvindo. Literal, raso. Não é impotente – é raso, mastigado.

Mais uma vez o raio, a ira suprema, e Lana linda vestida de Maria rezando para John Wayne (Deus, no caso), perdoar os pecados de seja lá quem for.

Pecados perdoados, Lana sai da água – um parto, o renascimento, o batismo. Embalada pelo poema “Porque eu amo a América”, de John Mitchum, temos a redenção e a ascensão de Adão e Eva, Lana e Ross ou a humanidade, se preferir.

Depois de 24 minutos de câmeras-lentas cansativas, Bel Air surge no melhor cenário, na melhor fotografia do curta, com o melhor visual de Lana da história dos videoclipes. Os protagonistas trocam a roupa preta pela branca – a redenção – e sobem aos céus, deixando os fãs malucos por tanta boniteza numa tela só.

Mesmo com a presença arrebatadora de Lana Del Rey e seu sorriso iluminado, o curta é fraquinho, fraquinho. Vale a pena ser visto como uma análise separada de três clipes distintos, mas não tem poder cinematográfico nenhum. O excesso de referências óbvias enfraquece o roteiro e cansa o espectador que procura algo além de três músicas cantadas lindamente por sua voz aveludada.

Assista o curta:

Sobre Domitila

Domitila Gonzalez é atriz e jornalista e dedica seu tempo livre a seus diretores favoritos. Adora clássicos, é fã incondicional de preto-e-branco, mas não abre mão das cores de Almodóvar.
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