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Cinemascope - Especial Chaplin Monsieur Verdoux 1

O Chaplin Que Ninguém Viu: uma viagem aos bastidores do mestre da comédia

Por Sttela Vasco

Em 1983, David Gill e Kevin Brownlow, realizaram um feito quase impossível: reuniram trechos de cenas deletadas, erros de gravação, bastidores e materiais inéditos de Charles Chaplin e colocaram em uma minissérie documental dividida em três episódios a ser veiculada na TV aberta dos Estados Unidos.

É esse material que, mais de 30 anos após ter ido ao ar, foi reunido e transformado em DVD pelo Obras Primas do Cinema. Intitulado O Chaplin Que Ninguém Viu (Unknown Chaplin), o documentário nos leva ao incrível – e raro de ser visto – mundo dos bastidores do trabalho do grande cineasta britânico. Assim como sua versão televisiva, O Chaplin Que Ninguém Viu é dividido em três episódios e vai, ao longo de sua narrativa, mostrando ao público o desenvolvimento e amadurecimento dele como diretor e também artista indo desde seu começo como estrela em ascensão da Mutual até a realização de grandes obras como Tempos Modernos (Modern Times) e O Grande Ditador (The Great Dictator), além de trazer sequências e curtas descartados, além do longa nunca lançado, O Professor (The Professor), de 1928. Trata-se de um mergulho ao passado e também à mente do criador do icônico Vagabundo e de tantas obras atemporais.

Luzes da Cidade é um dos longas mais analisados no episódio dois.

Luzes da Cidade é um dos longas mais analisados no episódio dois.

O primeiro episódio, Os Anos Mais Felizes, começa com um Chaplin recém contratado pela Mutual, onde ficaria responsável por produzir 12 comédias em um período de aproximadamente 17 meses. É lá que ele realiza obras como O Conde, Easy Street e O Imigrante. Somos apresentados a inúmeras sequências repetidas à exaustão e ainda assim descartadas pelo diretor (o que viria a ser uma de suas principais características), testes de elenco e sua tendência a utilizar diferentes atores em papeis chave até encontrar o certo e a dificuldade de entregar quantidade e qualidade em um curto espaço de tempo. Os Anos Mais Felizes mostram o entusiasmo de Chaplin ao participar de comédias realizadas por um estúdio maior, mas também revelam sua ansiedade por se libertar do contrato e alcançar uma posição de maior independência na produção de seus trabalhos.

O episódio 02, O Grande Ditador, mostra como, após o fim de seu contrato com a Mutual, em 1917, Chaplin inicia sua fase mais criativa e bem sucedida. É revelado como algumas de suas grandes obras, como O Garoto (The Kid), de 1920, Em Busca do Ouro (The Gold Rush), de 1925, e Luzes da Cidade (City Lights), de 1930, foram feitas. Temos a chance de ver como Chaplin resolvia problemas que surgiam durante as produções, o desafio que se tornava a gravação quando ele se encontrava em um bloqueio criativo e seu extremo perfeccionismo que o fazia rodar a mesma cena infinitas vezes ainda que isso atrasasse os projetos. Porém, mais do que apenas cenas de bastidores, esse episódio trás verdadeiras relíquias do cinema.

O documentário revela o homem além do personagem, o diretor.

O documentário revela o homem além do personagem, o diretor.

Assim como a maioria dos diretores de sua época, Chaplin queimava os negativos que não seriam aproveitados nos rolos finais, algo que já tornava a busca por cenas deletadas e inéditas algo muito difícil, porém, mais do que isso, Charlie não gostava de revelar seus métodos de trabalho – o que explica a escassez de material com o diretor por trás das câmeras -, logo,  O Chaplin Que Ninguém Viu consegue seu maior feito ao trazer para o espectador raras imagens dos ensaios de cena de Chaplin – conhecidos também como o momento em que ele dirigia a si mesmo – e cenas em que ele orienta seu elenco e equipe. É nesse episódio que mergulhamos a fundo em seu modus operandi e descobrimos como alguns clássicos chegaram a sua forma final. Tudo é permeado por relatos e entrevistas de pessoas que estiveram com Chaplin durante a produção de algumas de suas principais obras como seu filho Sydney Chaplin, sua ex-esposa e atriz, Lita Grey e a estrela de O Garoto, Jackie Coogan.

O terceiro e último episódio faz jus ao seu nome, Tesouro Escondido mostra sequências descartadas por Chaplin e também recursos utilizados em seus filmes como, por exemplo, colocar a câmera para rodar de trás para frente para obter um ritmo maior e intensificar determinada cena. São pequenos segredos do diretor que vão, pouco a pouco, sendo esmiuçados pelo documentário. Temos a possibilidade de ver como o diretor tentava recuperar piadas não utilizadas e também sua dificuldade em deixar uma sequência de lado, mesmo esta se provando muito difícil ou complexa. Para coroar, O Professor (The Professor), filme de 1923 no qual Charlie tentou se desvincular da imagem do Vagabundo, mas que nunca chegou a ser lançado, encerra a produção.

De bônus, temos uma entrevista com Kevin Brownlow, na qual ele relata de onde surgiu a ideia de se aprofundar no trabalho não visto de Chaplin, além de descrever as dificuldades em obter tais imagens. Brownlow conta que algumas negociações chegaram a durar 18 meses, que o próprio Charles, ainda vivo na época, foi procurado na tentativa de encontrar mais material e que foi preciso contar com o acervo de colecionadores para a criação da série. Ele ainda revela que, além dos problemas para conseguir os rolos com as cenas, teve de lidar com a desconfiança e relutância da emissora em aceitar um programa do tipo.

Reunido em DVD, o longa chega pela primeira vez ao Brasil em uma edição especial personalizada que conta com um pôster exclusivo e dois cards com imagens raras do diretor nos bastidores. Trata-se de Charlie em cena nas gravações de Tempos Modernos, em 1936, e junto a Thomas Edison, Mary Pickford e um de seus melhores amigos, Douglas Fairbanks, por trás das câmeras. chaplin final

Muito mais do que uma homenagem, O Chaplin Que Ninguém Viu é essencial para os cinéfilos em geral. Trata-se de mais do que uma coletânea de imagens raras, mas de uma verdadeira aula sobre cinema. Temos a chance de ver como problemas de produção, cenário, roteiro e continuidade eram resolvidos em uma época em que a tecnologia engatinhava e que a criatividade e o domínio da arte da improvisação eram fundamentais para que um filme fosse concluído, além de desvendarmos um pouco mais dos mistérios de um dos gênios dessa indústria. Não é apenas uma visita aos bastidores, mas um resgate da história desse grande mestre da comédia.

O Chaplin que ninguém viu é distribuído no Brasil pela Obras-Primas do Cinema e pode ser adquirido AQUI

Sobre Sttela

Sttela, 22 anos e jornalista. Comecei a gostar de cinema ainda criança, quando ia com o meu avô nas sessões à tarde. Fã de romances com velhinhos, filmes sobre gastronomia e Charles Chaplin.
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