Por Rafael Ferreira

A animação é uma ferramenta que lhe dá liberdade para ir além dos limites, podemos tanto visitar o passado quanto o futuro, podemos ir mais longe e reproduzir imagens que antes só existiam em nossas cabeças. Walt Disney o fez em Fantasia (1940), Dumbo (1941), com um toque de surrealismo, remetendo à amizade que ele tinha com o pintor surrealista Salvador Dalí. Mas nenhuma destas obras, ou qualquer outra, seja tão surrealista e estranha quanto à animação Planeta Fantástico.

O filme se passa no planeta Ygam, habitado por uma raça de seres azuis chamada Draags, que trata os minúsculos seres humanos (Oms) como animais selvagens que podem ser domesticados. Um bebê Om indefeso é acolhido por Tiwa, uma criança Draag, e cuidado até a adolescência, quando este se rebela e foge, levando consigo um equipamento capaz de expandir a inteligência de quem o usa. Inserido numa cultura primitiva, Terr compartilha do equipamento com seus semelhantes, dando início a uma revolução contra os opressores Draags.

O filme é uma adaptação de uma obra de Stefan Wul, Oms En Série, publicado na França em 1957 como uma edição da Fleuve Noir Anticipation, um selo da editora especializado em ficções científicas ou “Ópera Espacial”, como eles mesmo colocam – algo me diz que se George Lucas fosse francês, Star Wars chegaria a nós primeiramente como um livro (ou vários) desta editora –, ganhou uma tradução para inglês somente em 2010.

A adaptação para o cinema teve início em Praga, a história se encaixa como uma alegoria à invasão russa ao país, no final dos anos 1960. Por pressão política, o filme não pôde ser completamente produzido na Tchecoslováquia, assim, a produção migrou para Paris para evitar interferência de autoridades comunistas. Na França, René Laloux ficou responsável por dirigir a adaptação. Laloux é uma referência para animações experimentais, trabalhando no instituto psiquiátrico ele levou a técnica aos pacientes e dirigiu o curta Les dents du singe (1960), em colaboração com o estúdio de Paul Grimault, um importante animador francês. Outro grande colaborador de Laloux foi Roland Topor, – designer, pintor, autor (ele escreveu The Tenant, que mais tarde Roman Polanski transformou no filme O Inquilino), ator (interpretou Renfield no remake de Nosferatu de Werner Herzog), e compositor (de duas músicas), criador do movimento Pânico, com Alejandro Jodorowsky e Fernando Arrabal – com quem produziu os curtas Les Temps Morts (1965), Les Escargots (1966) e o longa Planeta Fantástico (1973).

A parceria entre os dois funcionava da seguinte forma: Topor era responsável pelos designs e Laloux dirigia. Eu até tenho medo de perguntar que tipo de drogas ele usava para criar as criaturas que vemos neste filme, algumas delas predatórias, que preencherão os pesadelos das mentes mais frágeis, outras benévolas, como aqueles bichinhos que produzem as roupas dos Oms. Algumas têm um design lógico, outras passam bem longe disso. A originalidade destes seres, e do ambiente em geral fazem com que o planeta Ygam seja um personagem à parte, para se ter uma ideia da estranheza, cristais brotam do chão como flores na primavera, e são destruídos ao som de assovios.

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Os Draags visitaram a Terra e a encontraram em ruínas, com vestígios de uma civilização há muito esquecida, convencidos de sua superioridade intelectual e tecnológica, tomaram os homens como uma cultura atrasada, sem inteligência, e os levaram para seu planeta. Parece familiar? Sim, é uma analogia à escravidão existente no nosso planeta Terra, povos africanos foram vistos como inferiores pelos europeus, e tratados de maneira cruel – pelo menos no Planeta Fantástico os opressores são de outro planeta, de outra espécie. Apesar de reconhecerem os homens como seres que se adaptam ao seu ambiente, não vêem isto como uma condição para inteligência.

Logo no início vemos o quão sádicos os Draags podem ser, crianças perseguindo uma Om com um bebê, atormentando-a até matá-la, uma cena que me faz lembrar da introdução de Meu Ódio Será Sua Herança (1969), na qual um bando de crianças ateia fogo em um formigueiro apenas por diversão. Em contraste com este sadismo está a família de Tiwa, filha de um dos líderes da sociedade Draag, ela cuida do bebê Om como a um bichinho de estimação, lhe coloca uma coleira, lhe dá banho, lhe veste roupas bizarras – pense nos poodles que você já viu usando roupinhas ou penteados estilosos –, no seu ponto de vista, isto é tratar com amor e carinho, mas pela reação do bebê, não há nada de agradável no jeito que ela o trata. E claro, isso é algo que nos faz pensar na maneira que tratamos os animais, por vezes os tirados do seu habitat natural. Tiwa não é a única Draag que domestica um Om, outras crianças o fazem, e às vezes os colocam para lutar entre si, até a morte – pensando bem, isso me faz lembrar de Pokémon, que são bichinhos, capturados, domesticados, treinados, colocados para lutar entre si pelos seus donos –, como se esta fosse a verdadeira função deles, afinal, são selvagens.

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Para os Draags, o conhecimento é adquirido de duas formas: 1) Através da meditação, onde o mesmo transcende seu corpo físico, e flutua numa bolha, às vezes essa meditação alcança outros corpos e encontra seus pares para uma dança; 2) Através do info, uma espécie de thiara que transmite informação para o cérebro daquele que o utiliza, eu diria que este objeto substitui a escola. Acidentalmente, Terr recebe algumas informações do info ao ficar no colo de Tiwa enquanto esta utiliza o equipamento. Quando Terr consegue fugir, ele o faz levando o objeto que lhe será útil para a sobrevivência neste mundo hostil, sendo capaz de identificar as armadilhas preparadas pelos Draags.

O conhecimento que Terr introduz aos Oms selvagens é o catalisador de muitas coisas, permite que ele seja aceito à tribo, identificar o conteúdo das caixas sem precisar abri-las, compartilhar o conhecimento, propor mais igualdade, dá início a uma revolução, e mais tarde permite avanços tecnológicos, o que antes era uma tribo primitiva, com seus rituais estranhos, lutas até a morte com monstros amarrados na barriga, e aversão a outras tribos selvagens, se torna uma sociedade evoluída vivendo em cidades anos luz à frente dos Draags. A mensagem é clara: o conhecimento é a chave para a evolução e sobrevivência.

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Outro aspecto do filme que merece ser mencionado é a sua trilha sonora, composta por Alain Goraguer. Visualmente, o filme captura o Zeitgeist, perfeito para a era dos hippies, e pra melhorar a experiência somente o uso de entorpecentes. A trilha sonora também traz esse tom psicodélico, remetendo a Pink Floyd anterior ao The Dark Side of the Moon.

O filme de Laloux venceu o prêmio especial do júri na 26ª edição do Festival de Cannes, a distribuição nos EUA aconteceu graças ao Roger Corman. Para quem não sabe, Corman é um produtor que impulsionou a carreira de vários diretores como Coppola, Scorsese, James Cameron, Jonathan Demme, e vários atores como Jack Nicholson, Dennis Hopper, De Niro, e David Carradine.

Este não é um filme para assistir simplesmente por prazer, é um filme que te leva a refletir sobre muitas coisas: escravidão; genocídio (a cena da deomização é uma clara alusão a isto); a sociedade e como ela se transforma; a forma como tratamos os animais; como a mente entra em colapso se seu corpo é danificado; nos faz pensar na seguinte questão “já que eu sou maior, e numa posição melhor, devo pisar nos outros que são menores e inferiores?”; guerra fria, pois o filme foi feito durante este período. Gosto de pensar que o filme mostra o quanto os homens são capazes de se adaptar, evoluir, a ponto de criarem um mundo, e finalmente viver em paz.

Planeta Fantástico é distribuído no Brasil pela Obras-Primas do Cinema e pode ser adquirido AQUI