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A Luta do Século

Por Felipe Mendes

O cinema contemporâneo inúmeras vezes apostou em criações de heróis comuns para estancar, de alguma forma, as dores proporcionadas pelas desventuras dos seres humanos na vida. O clássico pugilista Rocky, interpretado por Sylvester Stallone, é um grande exemplo de personagem que superou diversos problemas sociais, como a carência de uma educação digna e um emprego de qualidade, através do esporte. Em suma, o boxe é um dos desportos preferidos por autores para propagar tais mensagens de esperança. Contudo, as belas conquistas vistas na tela grande nem sempre simulam a dor e os desafios de um atleta profissional. Premiado no Festival do Rio deste ano, o documentário A Luta do Século, de Sérgio Machado, aborda uma das maiores rivalidades do pugilismo brasileiro, do auge aos dias atuais.

Em debate realizado na primeira projeção do filme na 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Machado revela que o projeto inicial seria realizar uma ficção sobre a intensa disputa protagonizada pelos boxeadores Luciano “Todo Duro” Torres e Reginaldo “Holyfield” Andrade durante suas carreiras. A intenção do cineasta, inclusive, era utilizar os renomados Lázaro Ramos e Wagner Moura nos papeis principais – os atores já rivalizaram na trama de Cidade Baixa, do mesmo diretor. Porém, conforme as pesquisas foram sendo aprofundadas, Machado apaixonou-se pela história dos lutadores e escolheu seguir pela realização documental. Em meio ao processo de gravação, Todo Duro e Holyfield, ambos na faixa etária dos 50 anos de idade, resolveram se confrontar pela última vez, naquela que foi nomeada “A Luta do Século”.

Durante as duas últimas décadas, a rivalidade dos boxeadores transcendeu os ringues e atingiu diretamente os Estados da Bahia e do Pernambuco. Os confrontos entre Todo Duro e Holyfield nos ginásios nordestinos foram cercados de hostilidade, com provocações de ambos lutadores; além de invasões, ameaças e arremessos de cadeiras por parte da torcida inflamada. Desde a primeira luta, realizada em 1993, até a produção do documentário, eles haviam se enfrentado em seis oportunidades; três vitórias para cada lado. A inimizade dos pugilistas no auge era tamanha que eles transformavam qualquer cenário em ringue; chegando as vias de fato após pesagens, em coletivas de imprensa e, até mesmo, no decorrer das participações televisivas. No bate-papo, o diretor confessou que, devido ao nervosismo nos dias de filmagens, sonhou diversas vezes que apanhava dos rivais.

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Lázaro Ramos, produtor de A Luta do Século, prestigia estreia do documentário na 40ª Mostra ao lado dos boxeadores Todo Duro e Holyfield (Foto: Marcos Ribas / Brazil News)

Os protagonistas desta história vivem longe dos holofotes, em condições modestas no nordeste brasileiro. Luciano Todo Duro, por exemplo, é pernambucano, neto de cangaceiro e trabalhou como jardineiro durante a adolescência. Aos 15 anos de idade, decidiu praticar capoeira. Desse esporte, descobriu que sua principal virtude para a luta estava nos braços potentes. Passou então a treinar boxe. O atleta logo se destacou pelo estilo arrojado e provocador, dentro e fora dos ringues. No ápice da carreira, enfrentou o fenômeno galês Joe Calzaghe. Todo Duro se orgulha pela fama de mulherengo conquistada em seus tempos áureos. Após a morte da mais velha das três esposas, concentra suas forças na filha Luana. Recentemente, participou do curta nomeado com um de seus bordões, Vou Estraçaiá, de Thiago Beltrão.

A outra fera de A Luta do Século tem um perfil discreto, mas também não leva desaforo para casa. Reginaldo Holyfield é baiano, filho de lavadeira e foi criado com oito irmãos. Vive no bairro pobre de Massaranduba, em Salvador. No início dos anos 90, era um dos principais boxeadores brasileiros. Com a ascensão de Acelino “Popó” Freitas no esporte, Holyfield foi rebaixado a papel secundário entre os baianos. Em 2011, o pugilista teve cerca de 60% do corpo queimado ao salvar os dois sobrinhos que atearam fogo, acidentalmente, no sofá da casa. O ato heroico despertou a atenção do ex-campeão dos pesos pesados Evander Holyfield. Assim como o norte-americano, Todo Duro foi outro a ajudar no período de recuperação, este com o objetivo de aplicar uma última surra no baiano.

A partir de imagens de arquivo e acervos de jornais, o documentário apresenta o histórico de confrontos e provocações entre os pugilistas. Logo após a etapa inicial, a câmera adentra o cotidiano modesto dos personagens. A possibilidade de um novo acerto de contas entre a dupla renova o significado do longa. Apesar de aclamado no Festival do Rio, A Luta do Século transmite a impressão de ser um recorte impreciso sobre a vida dos lutadores. O desenvolvimento ágil e com locuções por vezes supérfluas denota certa falta de profundidade na obra. Sérgio Machado perde a chance de desenvolver uma crítica mais detalhada acerca da modalidade, quase inexpressiva ultimamente. Boa parte dos atletas são mal assessorados e perdem tudo o que conquistam após o término da carreira. Poucas produções retratam tão bem os períodos de glória e derrocada de um boxeador quanto Touro Indomável, de Martin Scorsese.

A direção de fotografia da dupla Breno Cesar e Jeronimo Soffer é um dos acertos do documentário. Durante a preparação para o confronto que nomeia a produção, a câmera a meia distância acompanha diligentemente os passos dos pugilistas, como se fosse um despretensioso espectador. Ambos, inclusive, demonstram bastante carisma em conversas com moradores das zonas periféricas onde moram. Contudo, o alto índice teatral de alguns personagens mais próximos aos lutadores, colocam em xeque o relato documental da obra. Para muitos, as provocações entre os protagonistas sempre foram vistas como jogo de cena. No fim, A Luta do Século atinge seu objetivo de resgate histórico dos atletas, mas 78 minutos parecem pouco para o potencial que o longa teria.

Crítica publicada como parte da cobertura da 40ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

capa

A Luta do Século

Ano: 2016

Direção: Sérgio Machado

Roteiro: Sérgio Machado, Eli Ramos

Elenco Principal: Luciano “Todo Duro” Torres e Reginaldo “Holyfield” Andrade

Gênero: Documentário

Nacionalidade: Brasil

 

Veja o trailer:

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Por Felipe Mendes O cinema contemporâneo inúmeras vezes apostou em criações de heróis comuns para estancar, de alguma forma, as dores proporcionadas pelas desventuras dos seres humanos na vida. O clássico pugilista Rocky, interpretado por Sylvester Stallone, é um grande exemplo de personagem que superou diversos problemas sociais, como a carência de uma educação digna e um emprego de qualidade, através do esporte. Em suma, o boxe é um dos desportos preferidos por autores para propagar tais mensagens de esperança. Contudo, as belas conquistas vistas na tela grande nem sempre simulam a dor e os desafios de um atleta profissional. Premiado no Festival…

Avaliação geral

Avaliação Geral

3,5

Sobre Felipe Mendes

Carrega consigo a bonança do sertão nordestino e a loucura da metrópole paulistana. Gosta de acreditar que a felicidade é questão de querer. Admirador declarado das obras de Krzysztof Kieslowski e devoto dos iranianos Jafar Panahi e Majid Majidi. Imagina que o cinema representa a arte de apaixonar-se em movimento, 24 vezes por segundo. Prefere aqueles que se arriscam, que se emocionam, seja por amor ou pela dor. Sabe que a trajetória na terra não é como um filme de Frank Capra, mas acredita que o cinema é refúgio e inspiração para a vida.
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