Home / Críticas / A Pedra de Paciência
3414 001

A Pedra de Paciência

Por Sttela Vasco

Um filme narrado praticamente inteiro através de um monólogo. À primeira vista, a opção parece ter poucas chances de agradar ao espectador. No entanto, é possível dizer que Atiq Rahimi não poderia ter feito escolha mais certeira na hora de adaptar seu livro “A Pedra de Paciência” (The Patience Stone) para o filme homônimo. Lançado em 2012, o longa consegue equilibrar seu tom crítico à luta de uma mulher para reerguer sua vida.

Um herói de guerra (Hamidreza Javdan) no Afeganistão é abandonado por seus companheiros do Jihad e pela mãe e irmãos após levar um tiro no pescoço. Em estado vegetativo, ele fica sob os cuidados de sua esposa (Golshifteh Farahani) que vai, aos poucos, confessando seus segredos e impressões ao marido em coma, fazendo dele sua pedra de paciência e seu caminho para uma nova vida.

O filme se passa em um ambiente hostil, em meio à guerra, mas, apesar de algumas críticas de Rahimi serem contra o conflito, o cenário degradante é apenas pano de fundo para a história da mulher interpretada por Farahani. Graças a ele, ela se encontra em uma situação desesperadora, seu marido está em coma e sua casa beirando à miséria. Mas é graças a esse mesmo conflito que ela tem a oportunidade de finalmente desabafar e deixar uma série de mágoas e segredos serem revelados.

As confissões desta mulher, no entanto, são a maneira de Atiq conduzir a principal crítica do longa: o tratamento recebido pela mulher, principalmente em sua cultura. Isto é perceptível em cada situação vivida pela  personagem de Golshifteh, um dos momentos de maior evidência disso talvez seja a cena em que um general a julga  e condena por ela – supostamente – ser uma prostituta, mas não vê problema algum em aliciar jovens órfãos para seu exército. Ela é pecadora por vender seu corpo, ele é santo por lutar uma guerra.

Um fator curioso sobre o filme é que os personagens não têm nomes, fazendo com que qualquer um possa se identificar com a história, trazendo os dramas vivenciados por esta jovem para mais perto de nós. Não se trata de uma mulher afegã apenas, mas de uma mulher que tem direitos ignorados, é julgada por seus comportamentos e decisões e que precisa se resignar perante uma sociedade paternalista e com a qual qualquer mulher consegue se identificar. As questões levantadas pelo filme se focam de fato no mundo muçulmano, mas não se limitam a ele. É possível ajustar a própria cultura a diversas situações vivenciadas pela personagem de Farahani e é justamente isso que torna a obra tão interessante. Ela é regional, mas, ao mesmo tempo, universal.

O ritmo do roteiro se assemelha muito ao da leitura de um livro. Você se sente conduzido pela personagem e o acompanha com sagacidade durante sua jornada de auto descobrimento e libertação. A quase 1h40 de longa passa de uma maneira nem lenta e nem rápida, mas sim de uma forma que envolve quem está assistindo a ponto de se esquecer do tempo. O monólogo – predominante durante a narrativa – conduz bem a história e a torna mais crível. A fotografia complementa a narrativa e colabora com a desenvoltura do filme.

Golshifteh – que eu particularmente descobri após assistir ao Simplesmente uma Mulher, onde ela consegue ofuscar quase que por completo Sienna Miller – é um grato presente para obra. Forte, viva e com uma presença marcante, ela faz com que o espectador se envolva ainda mais pela história e consegue cumprir a complicada missão de conduzir o longa através da memórias e confissões de sua personagem. Destaque também para Hamidreza Javdan, que interpreta o marido, por conseguir transmitir em uma única cena todos os pensamentos e conclusões de seu personagem através do olhar.

A evolução dessa mulher, a maneira como ela encontra forças para superar seus problemas, cuidas de suas duas filhas e ainda exorcizar alguns demônios do passado são o grande trunfo da obra. Ela é uma personagem com sonhos, frustrações, desejos e vontades que foram reprimidas ao longo dos anos e que finalmente acharam uma válvula de escape e é impossível se manter indiferente ao desenvolvimento desse processo.

A Pedra de Paciência é um daqueles filmes que dão prazer em ver. Há uma reflexão importante a ser feita, mas há também uma bela história a ser contada. Existe o conflito de muitos, mas existe o conflito dessa mulher, que se vê passando pelas mais diferentes situações praticamente sozinha e aprende a lidar com cada uma delas, tendo sua “pedra de paciência” como ouvinte.

a pedra de paciencia posterA Pedra de Paciência (Syngué sabour, pierre de patience)

Ano: 2012

Direção: Atiq Rahimi

Roteiro: Atiq Rahimi, Jean-Claude Carrière

Elenco Principal: Golshifteh Farahani; Hamidreza Javdan; Hassina Burgan

Gênero: Drama

Nacionalidade: Afeganistão / Alemanha / França / Reino Unido

 

 

 

 

Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=WL8Pfo4P5OQ

Galeria de Fotos:

Por Sttela Vasco Um filme narrado praticamente inteiro através de um monólogo. À primeira vista, a opção parece ter poucas chances de agradar ao espectador. No entanto, é possível dizer que Atiq Rahimi não poderia ter feito escolha mais certeira na hora de adaptar seu livro "A Pedra de Paciência" (The Patience Stone) para o filme homônimo. Lançado em 2012, o longa consegue equilibrar seu tom crítico à luta de uma mulher para reerguer sua vida. Um herói de guerra (Hamidreza Javdan) no Afeganistão é abandonado por seus companheiros do Jihad e pela mãe e irmãos após levar um tiro…

Avaliação geral

Avaliação Geral

4,5

Sobre Sttela

Sttela, 22 anos e jornalista. Comecei a gostar de cinema ainda criança, quando ia com o meu avô nas sessões à tarde. Fã de romances com velhinhos, filmes sobre gastronomia e Charles Chaplin.
Comentários