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Capitão Fantástico

Por Felipe Teixeira

O título de um longa-metragem iniciado com o termo “capitão” poderia indicar a existência de mais um blockbuster de super-heróis repleto de efeitos visuais e poderosos personagens, mas o indie e sensível Capitão Fantástico passa longe disso. E isso não quer dizer que seu protagonista não seja um homem de feitos heroicos, afinal Ben (Viggo Mortensen) é um pai de família que decidiu criar seus seis filhos longe da vida urbana e da tecnologia, ensinado-os a caçar animais, escalar montanhas e a ler livros dos mais variados gêneros para suas formações. E quando sua esposa e mãe das crianças morre após ficar doente, a família precisa voltar à vida na cidade e se confrontar com muitas diferenças para comparecer ao seu enterro.

Escrito e dirigido por Matt Ross (o hilário Gavin Belson, da série Sillicon Valley), o longa-metragem levanta, espertamente sem tomar lados, uma série de válidas perguntas sobre a forma como vivemos nossas vidas. Por mais que seja chocante assistir a crianças manuseando perigosas facas e degolando animais no meio do mato em busca de comida, o roteiro também valoriza a importância da união e do estímulo ao diálogo que Ben lhes proporciona, sem celulares, computadores, aplicativos e os exageros do mundo capitalista atual. Em uma determinada cena do filme, por exemplo, Ben pede que sua filha Kielyr (Samantha Isler) lhe fale o que achou do livro “Lolita”, de Vladimir Nabokov, e ela responde apenas com um “interessante”, o que logo gera uma gritaria de seus irmãos, delatando que ela havia dito uma palavra considerada proibida entre a família por ser tão genérica. Assim que ela então descreve com detalhes sua opinião sobre a obra, Ben, brilhantemente interpretado por Mortensen, demonstra um contida satisfação por saber que seu incentivo pela conversa e pela expressão de ideias é fundamental para a formação de seus filhos.

E é justamente o contraste entre os costumes do mundo urbano e da vida na selva que gera os melhores momentos de Capitão Fantástico. Trabalhados pontualmente pelo roteiro de Ross, que não tenta fazer humor por meio das diferenças entre os personagens a todo momento, as sequências em que os deslocados, porém inteligentes, filhos de Ben se deparam com videogames, outdoors e até mesmo pessoas do sexo oposto são as que podem levar o espectador a refletir sobre os prós e contras de uma vida isolada no campo. Os contrastes entre campo x cidade rendem sequências dramáticas, como a que um dos filhos de Ben sofre um acidente após uma perigosa escalada, algo certamente inapropriado para jovens; mas também momentos hilários, como quando Ben permite que seus filhos consumam bebidas alcoólicas diante de uma família mais tradicional. Dosando o drama e o humor com sabedoria, o longa tem ainda algumas inesperadas e plausíveis reviravoltas em sua narrativa que também contribuem para prender a atenção do espectador.

Outro aspecto que ressalta as inúmeras diferenças entre os personagens é o figurino, responsabilidade da experiente Courtney Hoffman (Django Livre, Sombras da Noite). Criando vestimentas simples, mas diversificadas e coloridas, as roupas dos personagens revelam-se, junto ao eficiente design de produção, como uma eficiente ferramental visual para destacar ainda mais o deslocamento da família. E se a fotografia de Stéphanie Fontaine preza por planos bem iluminados, exaltando as cores do campo e do figurino dos personagens, a belíssima trilha sonora de Alex Somers  (Compramos um Zoológico) também ajuda na construção da atmosfera tranquila do campo por meio de harmonias lentas e em baixo volume.

Contando com um entrosado elenco infantil, com destaque para os pequeníssimos Charlie Shotwell e Shee Cooks, Capitão Fantástico tem em seu clímax um momento musical que encerra com emoção na medida certa parte da história da descomunal família. Avessos à comida industrializada e ao sistema capitalista, Ben e seus filhos contam uma bela história de superação e pertencimento que demonstra que é possível haver vida longe da tecnologia.


capitaoposterCapitão Fantástico
(Captain Fantastic)

Ano: 2016

Direção: Matt Ross

Elenco: Viggo Mortensen, George Mackay, Frank Langella

Gênero: Drama

Nacionalidade: Estados Unidos

Assista ao trailer: 

Por Felipe Teixeira O título de um longa-metragem iniciado com o termo "capitão" poderia indicar a existência de mais um blockbuster de super-heróis repleto de efeitos visuais e poderosos personagens, mas o indie e sensível Capitão Fantástico passa longe disso. E isso não quer dizer que seu protagonista não seja um homem de feitos heroicos, afinal Ben (Viggo Mortensen) é um pai de família que decidiu criar seus seis filhos longe da vida urbana e da tecnologia, ensinado-os a caçar animais, escalar montanhas e a ler livros dos mais variados gêneros para suas formações. E quando sua esposa e mãe…

Avaliação geral

Avaliação Geral

4,5

Sobre Felipe

Jornalista e amante da cultura pop, principalmente quando o assunto é um anel do poder ou uma ilha misteriosa com uma fumaça preta. Curte muito o Cuarón, o Linklater, os Coen, o Fincher e o Scorcese.
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