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Em Ritmo de Fuga

Por Eduardo Ferrarini

Há uma “regra não escrita” no cinema onde se diz não fale, mostre, onde reconhece a natureza visual desta arte e que sua potência e capacidade de contar histórias vem das imagens em movimento e não dos diálogos, ao contrário do teatro, por exemplo, que necessita destes para mover sua narrativa, dada as limitações do palco. Mas infelizmente tem se tornado cada vez menos comum cineastas que sigam esse princípio, apostando em diálogos expositivos que mastigam as informações para os espectadores para se certificarem que eles entendam a premissa e subestimando a inteligência destes, algo cada vez mais corriqueiro em filmes de gênero, como comédia e ação, que apresentam inúmeras possibilidades de serem exploradas em sua linguagem. Na comédia ainda mais, pois boa parte do humor e das piadas dos filmes veem de falas e diálogos e não em ações ou imagens. Por isso, é gratificante ver um cineasta como Edgar Wright que parece saber exatamente toda a potência que o cinema pode atingir e que faz questão de explorá-la ao máximo, nos provando isso em sua Trilogia de Sangue e Sorvete (compostos por Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso, e Heróis de Ressaca) e no visionário Scott Pilgrim Contra o Mundo.

Tudo isso que acabei de citar pode ser facilmente comprovado já nas primeiras duas sequências de seu novo filme, Em Ritmo de Fuga: um plano do outro lado da rua de uma fachada de banco é acobertado por uma roda de carro. Nele, há três pessoas armadas que saem em direção ao banco, porém, a câmera se mantém no motorista Baby (Elgort), que com fones de ouvido, se movimenta e canta ao som de uma música, brincando ao usar uma garrafa d’água como microfone e até com o limpador de para-brisa, enquanto de longe, da distância de Baby, vemos a ação do assalto ocorrendo. Quando vê os assaltantes voltando, ele imediatamente assume uma postura séria, engata a marcha e inicia uma desenfreada e impressionante fuga, onde um dos muitos feitos do rapaz é desviar de um caminhão virando o carro, colocando em ré e voltando novamente para frente em pouquíssimos segundos. Despistado a polícia, o grupo de assaltantes adentra em um estacionamento e tranquilamente muda de carro até ir embora e a câmera desfocar.

A segunda sequência já se trata finalmente dos créditos iniciais, onde acompanhamos a caminhada de Baby na rua até uma cafeteria, no qual ele também está embalado ao som de uma música que ganha materializações visuais na cena, como as letras que trazem “hey hey” em postes, quando um solo de violão surge e há um homem tocando o instrumento ou no momento em que Baby “toca” saxofone, ao fazer o gesto de segurar o instrumento e coincidentemente há um saxofone exposto em uma loja bem atrás dele.

Esse início já é absolutamente promissor, esclarecedor e impecável ao revelar quem é o protagonista, qual a personalidade dele e seu “trabalho”, isso sem nenhum tipo de diálogo e de quebra nos fornecendo uma sequência de perseguição de tirar o fôlego e uma divertidíssima gag visual que Wright constrói nos créditos iniciais. Afinal, Em Ritmo de Fuga se trata de um filme de ação e visual sofisticado, cuja simplória história é mera desculpa para Wright criar momentos de pura adrenalina e de puro humor.

Na premissa, Baby é um rapaz que, ao sofrer um acidente que ocasionou na morte de seus pais, possui um problema auditivo onde ele ouve um zumbido constante, por isso ele sempre ouve músicas para abafar o incômodo barulho. Por ser um motorista absolutamente talentoso, graças a sincronização que ele faz das ações com a música que estiver ouvindo, ele é um empregado recorrente do chefe criminoso Doc (Spacey), embora esteja realizando o trabalho contra sua vontade. Seu anseio para sair da vida de crimes aumenta quando ele conhece a garçonete da cafeteria Debora (James) e os dois desenvolvem uma forte relação, porém, as habilidades especiais do rapaz no volante ainda serão requisitadas por Doc e seus comparsas (Hamm, González e Foxx).

Como em seus trabalhos anteriores, Wright mostra um controle absoluto na direção a todo momento e jamais permanecendo em uma zona de conforto, onde aqui ele mostra seus elegantes raccords visuais, como a transição de uma tampa de café com os dizeres “Baby” para um botão vermelho de elevador (também construindo uma óbvia simbologia de ação e violência, já que a cor se mostrará presente em vários momentos chaves do filme) ou quando a transição da cena se inicia no reflexo dos óculos escuros de Baby. Wright parece fazer questão de sempre construir tanto o plano quanto a lógica de suas cenas da maneira mais elegante e singular possível. E o faz nos presenteando com fantásticas e alucinantes sequências de perseguição de carro, que gradativamente ganham contornos mais insanos e complexos, sem jamais soar confuso ou preguiçoso, já que tais cenas mostram uma disciplina do diretor de sempre deixar claro geograficamente o que ocorre, em que lugar quem ou o que está e permitindo que os planos durem alguns segundos a mais, ao invés de incessantemente corta-los, seguindo mais a escola de George Miller e Mad Max: Estrada da Fúria do que Michael Bay e seus Transformers ou Joss Whedon com seu Os Vingadores.

Wright até mesmo chega a repetir ações, como quando um carro tromba em um carrinho em que propositalmente faz derrubar um segurança, mostrando a mesma ação em dois planos de ângulos diferentes, destacando toda a coreografia estética e sonora do filme numa cadência muito bem realizada pela montagem. Não apenas isso, mas aqui também vemos seu virtuosismo em criar seu característico humor visual e que abraça sem timidez alguma o surreal, como quando vemos Debora chegando na cafeteria com suas roupas casuais e rapidamente sair do outro lado já uniformizada. Também, sabendo construir diálogos hilários e instigantes, como quando um dos capangas acaba comprando a máscara do Mike Myers errado ou quando Doc discursa longamente enquanto desenha no quadro um complexo plano e reconhece o feito em voz alta.

O roteiro escrito pelo próprio Wright, que embora traga apenas um fiapo de história, é preenchido com diálogos ágeis e divertidos e personagens únicos. O relacionamento de Baby com Debora se torna verossímil e agradável não apenas pela química que os dois exalam na tela, mas também em suas conversas irreverentes, como quando Debora reconhece que praticamente todas as músicas do mundo se tratam de Baby. Algo que torna a história do filme dentro da suspensão de descrença é que ele mesmo parece se reconhecer como absurdo e rudimentar, povoando o roteiro de personagens fantásticos e facilmente reconhecíveis visualmente: Bats (Foxx) tem tatuagens de morcegos em seu pescoço, Darling (González) traz brincos enormes com seu apelido, além de claro ser condizente com o absurdo da história ao trazer personagens com nomes simplórios como Baby, Doc, Darling, Bats, Griff… Até mesmo há sugestões de uma metalinguagem que comenta a própria natureza da narrativa de filmes de gêneros, ao trazer Doc intimidando Baby para que este continue trabalhando para ele, quando diz que “não preciso dar um discurso para você sobre o que acontecerá se você dizer não para mim e como poderei quebrar suas pernas e matar todo mundo que você ama, porque você já sabe disso, não sabe?”, algo recorrente e clichê em filmes do gênero.

Em parte, há uma impecável escolha de elenco onde todos parecem abraçar a natureza de seus personagens, começando com Ansel Elgort que faz de Baby um personagem que mistura doçura e ingenuidade com coragem e determinação, refletido não só em suas ações e falas como em seu visual, onde contrasta as cicatrizes de seu rosto juvenil com seus óculos escuros tortos no rosto. Lily James mostra carisma e presença com sua Debora, conseguindo fugir do rótulo de par romântico do protagonista, já Spacey, um ator cujo talento é inquestionável, nos brinda com seu poder absoluto de criar personagens ameaçadores e frios, aqui com um toque brilhante de humor (sua constatação envolvendo Baby e falas de Monstros S.A. é hilária). Hamm, González, Foxx e Bernthal mergulham de cabeça nas insanidades de seus implacáveis personagens, também sabendo representar perigo na trama e destoando da aparência dócil e inocente do protagonista.

Também como de costume nos filmes de Wright, o apuro técnico aqui é irretocável e impressionante. Sem nenhum compromisso com naturalismo, as cores, cenários e sons que habitam Em Ritmo de Fuga são correspondentes com a subjetividade de Baby, seja na sequência dos créditos iniciais já citada, na fotografia que não se constrange ao mergulhar, por exemplo, o personagem de Jon Hamm num vermelho assombrador e impossível de estar ali.

Os efeitos especiais são excelentes o suficiente para que nunca soem artificiais em suas perseguições de carro e, claro, o belíssimo e estonteante desenho de som, que usa de sons diegéticos de forma ritmada com a batida de alguma música e traduzindo de maneira que perscruta a subjetividade de Baby, já que este utiliza da música como válvula de escape em seu mundo, não apenas ao ouvir música o tempo todo, mas como ao criar remixes de diálogos que ouve na vida real. Tal subjetividade se mostra presente em vários momentos, como o zumbido que amedronta Baby nas cenas de mais tensão ou em instantes banais, como quando ele está ouvindo uma música nos fones, que protagoniza o desenho de som e não nos permite ouvir outros ruídos, e alguém os tira de seu ouvido, a música é diminuída e escutamos como se ele estivesse saindo de um fone longe de nós.

Inevitável falar também da acertada e perfeita escolha da trilha sonora, que mais importante do que em selecionar músicas e coloca-las em momentos aleatórios para soar cool (alô, Esquadrão Suicida), elas tem diferentes funções tanto de proporcionar tensão (como a desconcertante Intermission do Blur), criar humor (como Never Never Gonna Give Ya Up de Barry White em uma situação de grande apreensão) ou dar adrenalina nas cenas de ação pura (como Neat Neat Neat do The Damned, que também proporciona uma piada sensacional em que Baby precisa voltar a música para poder começar a fuga). Sem falar, no uso brilhante da épica Brighton Rock do Queen no clímax do filme.

Sendo condizente com os universos absurdos de boa parte da filmografia do diretor, o filme não tenta ser de forma alguma sutil em seu visual, ao trazer flashbacks de fotografia com grão grosso e estilizadas como gravações de uma câmera caseira, sonhos em preto e branco ou uma cena de alegria com flores e um arco-íris ao fundo. O que importa é que Wright mostra uma maturidade invejável e um carinho gigante pelo universo em que cria, definindo muito bem os dramas pessoais de seus personagens e compasso meticulosamente calculado e bem construído de seu filme. Edgar Wright nos prova mais uma vez que se trata de um dos cineastas mais visionários e talentosos de nossa geração e um profundo conhecedor da potência cinematográfica que filmes de gênero podem dispor.

Em Ritmo de Fuga (Baby Driver)

Ano: 2017

Direção: Edgar Wright

Roteiro: Edgar Wright
Elenco principal: Ansel Elgort, Kevin Spacey, Lily James, Elza González, Jon Hamm, Jamie Foxx
Gênero: Ação
Nacionalidade: EUA, Inglaterra
Veja o trailer: 

Por Eduardo Ferrarini Há uma “regra não escrita” no cinema onde se diz não fale, mostre, onde reconhece a natureza visual desta arte e que sua potência e capacidade de contar histórias vem das imagens em movimento e não dos diálogos, ao contrário do teatro, por exemplo, que necessita destes para mover sua narrativa, dada as limitações do palco. Mas infelizmente tem se tornado cada vez menos comum cineastas que sigam esse princípio, apostando em diálogos expositivos que mastigam as informações para os espectadores para se certificarem que eles entendam a premissa e subestimando a inteligência destes, algo cada vez…

Avaliação geral

Avaliação Geral

5

Sobre Eduardo Ferrarini

Estudante e amante de Cinema. Apreciador de música, livros, séries, pinturas, video-games, quadrinhos, da vida e das pessoas que a cercam.
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