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Jackie

Por Felipe Mendes

Um estrondo. O olhar desconfortante do presidente. E, de repente, um projétil alvejado acerta em cheio o crânio de John Fitzgerald Kennedy. Ao lado, a primeira-dama Jacqueline Kennedy parece não acreditar. Incrédula, ela chora e envolve-se ao corpo do marido. Uma imagem assustadora. Os vestígios de sangue espalhados pela roupa de Jackie, marcados em seu rosto, correriam mundo afora. Aquele ato do dia 22 de novembro de 1963, durante uma visita a Dallas, cidade do Texas, decretaria o fim do mandato de Kennedy à frente do cargo político mais cobiçado do planeta, mas não a dor da perda de uma das mulheres mais importantes da história recente dos Estados Unidos.

Apesar de revisitar momentos determinantes na trajetória de Jackie na Casa Branca, o longa dirigido pelo chileno Pablo Larraín (Neruda) é, majoritariamente, um relato intimista e contundente sobre os dias entre a morte e o funeral do presidente. No entanto, engana-se quem reduz a trama apenas ao luto da primeira-dama. Além disso, o filme apresenta as fragilidades do casal, perante o olhar misterioso de Jackie, e os bastidores políticos, com os avanços do vice Lyndon B. Johnson rumo à presidência. Para reviver esse grande ícone da cultura popular norte-americana, Larraín escolheu a dedo, exigindo ninguém menos que a aclamada Natalie Portman (Cisne Negro) para comandar o papel que permearia a história. Sem ela, o diretor admitiu que recusaria o pedido do produtor Darren Aronofsky para tocar o projeto.

A aposta realmente foi certeira. Natalie Portman, em atuação impecável, está presente a cada momento da obra. A atriz encarna a primeira-dama de forma diligente, desde a entonação da voz, que muda conforme o tipo de conversa, aos trejeitos comedidos diante das câmeras – como visto durante seu famoso tour pela Casa Branca. Porém, nada desconstrói a imagem forte da protagonista. Nem mesmo as perguntas mais ácidas do repórter Theodore H. White (Billy Crudup), que em nenhum momento tem o nome mencionado durante Jackie. Perante tamanha exposição, o sucesso da obra evidentemente passaria pelo bom desempenho de Portman, e ela não decepciona.

O diretor, em sua primeira produção norte-americana, abusa de certas técnicas para submeter um toque documental ao filme, como o uso excessivo de planos focados em primeira pessoa e a textura das filmagens em 16mm – características experimentadas pelo autor em outros de seus títulos, como o indicado ao Oscar No e o recente Neruda. Aliás, a capacidade em buscar fórmulas ousadas a cada nova obra foi determinante para a escolha por Larraín. No entanto, além da direção primorosa, vale destacar o trabalho meticuloso de Noah Oppenheim à frente da construção do roteiro: idealizado a partir da reportagem escrita pela revista Life – que fora ligeiramente censurada pela primeira-dama na época, vindo à tona, em sua totalidade, somente após o falecimento de Jackie em 1994.

Os diálogos mais sinceros e impactantes do longa não são necessariamente políticos, e sim uma série de conversas entre a protagonista e o padre interpretado por John Hurt (O Homem Elefante), convincente em uma de suas últimas aparições. À procura de significados, Jackie relata que as pessoas acreditavam que seu casamento fosse um verdadeiro conto de fadas. O poder midiático fez com que a população do país projetasse no casal uma espécie de família real, mas nos bastidores, a verdade é que Jackie sofria com incontáveis casos de infidelidade de Kennedy, que nem sequer dormia na mesma cama que a primeira-dama. Segundo entrevista concedida por Oppenheim à Variety, as cenas que deflagram as confissões e os questionamentos de Jacqueline acerca de seu propósito de vida foram reconstituídas através de várias trocas de cartas dela com padres durante meses após o assassinato do presidente.

Dentre outros personagens importantes estão Robert Kennedy (Peter Sarsgaard), irmão de “Jack”, apelido carinhoso do presidente, e Nancy Tuckerman (Greta Gerwig), amiga de infância e assessora da primeira-dama. Ambos estão sempre próximos de Jacqueline. O primeiro é articulador nos bastidores, já a outra é o braço-direito, quem zela pela imagem das crianças e pela postura de Jackie perante as câmeras e convidados. Diante das tentativas de um enterro discreto, a despeito da espetacularização que tanto marcara a trajetória dos Kennedy na Casa Branca, a personagem resiste. No baile das máscaras, ela percebe a necessidade de um final apoteótico para a história e bate de frente com as autoridades, que tentavam preservar a imagem de Johnson. Um epílogo devastador para o reinado de “Camelot” nos Estados Unidos.

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Ano: 2016

Direção: Pablo Larraín

Roteiro: Noah Oppenheim

Elenco Principal: Natalie Portman, Peter Sarsgaard, Greta Gerwig, Billy Crudup, John Hurt,  Richard E. Grant, Caspar Phillipson

Gênero: Biografia, Drama

Nacionalidade: Estados Unidos, França, Chile

 

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Por Felipe Mendes Um estrondo. O olhar desconfortante do presidente. E, de repente, um projétil alvejado acerta em cheio o crânio de John Fitzgerald Kennedy. Ao lado, a primeira-dama Jacqueline Kennedy parece não acreditar. Incrédula, ela chora e envolve-se ao corpo do marido. Uma imagem assustadora. Os vestígios de sangue espalhados pela roupa de Jackie, marcados em seu rosto, correriam mundo afora. Aquele ato do dia 22 de novembro de 1963, durante uma visita a Dallas, cidade do Texas, decretaria o fim do mandato de Kennedy à frente do cargo político mais cobiçado do planeta, mas não a dor da…

Avaliação geral

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4

Sobre Felipe Mendes

Carrega consigo a bonança do sertão nordestino e a loucura da metrópole paulistana. Gosta de acreditar que a felicidade é questão de querer. Admirador declarado das obras de Krzysztof Kieslowski e devoto dos iranianos Jafar Panahi e Majid Majidi. Imagina que o cinema representa a arte de apaixonar-se em movimento, 24 vezes por segundo. Prefere aqueles que se arriscam, que se emocionam, seja por amor ou pela dor. Sabe que a trajetória na terra não é como um filme de Frank Capra, mas acredita que o cinema é refúgio e inspiração para a vida.
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