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Cinemascope - Miss Violence

Miss Violence

Por Mário Neto

Utilizando o conceito de estrutura familiar como microcosmo de uma sociedade grega que atravessa profunda crise financeira, o diretor Alexandros Avranas, vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado, propõe em Miss Violence um aterrador ensaio sobre como relações psicossociais e hierárquicas aberrativas são construídas.

O incidente incitante da trama é inserido logo no início da projeção, antes mesmo dos créditos iniciais, tal artifício, recorrente em filmes de suspense e thrillers, se apresenta aqui na forma de um bizarro suicídio envolvendo uma garotinha em plena comemoração de seu 11º aniversário. Porém na obra em questão, a utilização desse artifício tem um papel diferente na estruturação do roteiro; o ato de expor o catalizador da história exatamente no prólogo implica em concentrar todas as progressões dramáticas quase que necessariamente em função de sua resolução, enquanto que no longa-metragem grego o desconcertante acontecimento, compreende apenas uma manifestação consequencial de um complexo e perturbador arcabouço sócio-familiar que está prestes a ser esmiuçado, ou seja, o enredo acaba por destrinchar seu incidente incitante ao invés de (apenas) almejar sua resolução.

Ao passo que as personagens nos são apresentadas através de suas reações para com o trágico ocorrido inicial, percebemos que existe ali um contexto doméstico extremamente deturpado, no qual violências psicológicas e físicas arbitrárias funcionam como beats para a cadência da narrativa, de modo que se cria uma espécie de compasso comportamental bizarro, fazendo com que o teor do roteiro se torne particularmente imersivo. A atuação dos personagens é primordial para o funcionamento dessa marcação evolvente, frisando aqui, que as reações são mais importantes que as ações, isto é, o filme se dá a partir de como os personagens assimilam cada “golpe narrativo”. Assim, é possível encontrar na figura da matriarca, interpretada por Reni Pittaki, a peça fundamental para o andamento e entendimento do esquema arquitetado, uma vez que ao orbitar ao redor do personagem principal, o patriarca, e também ao redor das outros membros daquela família, ela desenvolve um papel de elo entre todos, coordenando todas as formas de manifestações para com os horrores que são praticados ali, sempre com sua aparente passividade.

Além da sagaz construção rítmica do roteiro, outros dois elementos são diretamente responsáveis pela característica imersiva da produção:

Primeiro elemento: “A lente voyeur, ou a câmera como personagem”; desde o enquadramento introdutório até o seu desfecho, identificamos planos em que a câmera nos causa sensação de que há algo a ser observado, analisado, como se de fato nós estivéssemos participando destas situações, não somente as registrando, mas tentando decifrá-las. Planos fechados e em sua maioria fixos em que os personagens, por vezes, encaram a câmera, movimentos sorrateiros e ardilosos que espreitam entre paredes, e concepção focal sóbria para enfatizar a dramaticidade da ação nas cenas, legitimam o caráter invasivo de uma direção de fotografia impecável que triunfa ao evolver seu espectador.

Segundo elemento: “O silêncio”; além da economia nos diálogos, o autor se vale apenas de sonoplastia diegética, sendo assim não existem trilhas sonoras ou arranjos musicais para auxiliar na edificação emocional das cenas. Em um primeiro momento podemos apontar certo risco nessa postura adotada, uma vez que a digestão do filme pode vir a se tornar dificulta caso seu enredo não tenha tanta força de sustentação, no entanto, a utilização precisa de diálogos pontuais e uma ausência de trilha sonora positivamente intrigante funcionam providencialmente, sendo aplicadas como uma linguagem específica na concepção da narrativa como um todo, transferindo a responsabilidade de comoção para a capacidade cênica dos atores (algo que é desenvolvido magistralmente pelos mesmos como já citara).

Miss Violence apresenta um conjunto de características específicas que seguem uma tendência do cinema grego contemporâneo, chamado já de The Greek Weird Wave ou New Greek Cinema, com representantes como; Attenberg (2010) dirigido por Athina Rachel Tsangari e o excepcional Dente Canino (2009), dirigido por Giorgos Lanthimos, que concorreu ao Oscar em 2011 como Melhor Filme em Língua Estrangeira. Seguindo uma linha de estudos freudiana, essas obras propõem análises comportamentais a partir de situações estarrecedoras, as quais representam não apenas uma sociedade grega mergulhada na crise, como também a própria essência perversa do ser humano, que exterioriza obscuras transgressões normativas sociais direcionadas aos seus semelhantes mais próximos, neste caso, os familiares.

Além da temática em comum, filmes dessa nova escola grega de cinema seguem uma estética visual singular, com fotografia crua, planos simétricos e majoritariamente estáticos, movimentos de câmera suaves, um ritmo de montagem orgânico acompanhando sempre o processamento laborioso do enredo, presença do silêncio como ferramenta provocativa, e ainda o meticuloso trabalho de mise en scène com os atores, influência direta do grande expoente do cinema grego Theo Angelopuolos, o qual desenvolvia essa arte em seus filmes com maestria. Outras influências para os gregos, quanto à forma e conteúdo, podem ser encontradas no cinema do austríaco Michael Haneke e dos dinamarqueses, Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, conhecidos por seus filmes viscerais.

Na história do cinema, diversos movimentos foram responsáveis por subverter estruturas estagnadas ou desoladoras, como a Nouvelle Vague na França, o Neo-Realismo na Itália e o Cinema Novo no Brasil. Pode-se então compreender que estamos presenciando mais um capítulo da história do cinema sendo escrito, no qual o pungente cinema grego contempla Miss Violence como um dos seus representantes mais expressivos.

 

Cinemascope - Miss Violence posterMiss Violence

Ano: 2013

Diretor: Alexandros Avranas

Roteiro: Alexandros Avranas, Kostas Peroulis.

Elenco Principal: Themis Panou, Reni Pittaki, Chloe Bolota, Constantinos Athanasiades.

Gênero: drama

Nacionalidade: Grécia

 

 

 

Veja o trailer:

Galeria de Imagens:

Por Mário Neto Utilizando o conceito de estrutura familiar como microcosmo de uma sociedade grega que atravessa profunda crise financeira, o diretor Alexandros Avranas, vencedor do Leão de Ouro do Festival de Veneza do ano passado, propõe em Miss Violence um aterrador ensaio sobre como relações psicossociais e hierárquicas aberrativas são construídas. O incidente incitante da trama é inserido logo no início da projeção, antes mesmo dos créditos iniciais, tal artifício, recorrente em filmes de suspense e thrillers, se apresenta aqui na forma de um bizarro suicídio envolvendo uma garotinha em plena comemoração de seu 11º aniversário. Porém na obra…

Avaliação geral

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5

Sobre Mario

Comunicólogo, aspirante a cineasta, roteirista, cinéfilo apaixonado, influenciado por Kubrick, Truffaut, Bergman, Von Trier, Haneke, Irmãos Coen, Lynch, Tarantino, Glauber Rocha e Cluadio Assis, Basquiat, Banksy, Bukowski e Nietzsche, gosto de cerveja, longas discussões e desenhos animados.
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