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O Reencontro

Por Katia Kreutz

Um dos maiores problemas da indústria cinematográfica, especialmente em Hollywood, é sua forma de retratar as mulheres. A situação fica ainda mais grave quando se trata de personagens femininas depois de uma certa idade – digamos, acima de 40 anos. É simplesmente lamentável a falta de bons papéis para elas nas grandes produções norte-americanas.

Indo contra essa corrente opressiva de eterna juventude, o cinema francês vem trazendo histórias complexas e riquíssimas envolvendo mulheres mais velhas. O sucesso de público e de crítica dos trabalhos mais recentes da veterana Isabelle Huppert (Elle, O Que Está Por Vir) estão aí para comprovar isso.

O Reencontro se encaixa perfeitamente nessa safra de filmes que têm a delicadeza de valorizar a mulher madura. Duas grandes damas do cinema francês, Catherine Frot e Catherine Deneuve, estrelam uma história de muita sensibilidade e pouquíssimas pretensões. Por isso mesmo, uma das melhores surpresas dos últimos tempos.

O título original, em francês (Sage femme), faz alusão à palavra “parteira”, que literalmente pode significar também “mulher sábia”. Na trama, Catherine Frot é Claire, uma obstetriz que segue uma vida regrada e devotada ao seu trabalho. Ela troca o dia pela noite em uma maternidade que não se rendeu ao esquema “industrial” dos partos modernos, mas que – por isso mesmo – está prestes a fechar. Nos momentos de descanso, mal consegue ver seu filho, Simon (Quentin Dolmaire), que estuda para ser médico.

O passado de Claire bate à porta na presença de Béatrice (Catherine Deneuve), uma antiga mulher de seu pai. Ao mesmo tempo em que ressurgem mágoas não muito bem enterradas, já que ela culpa Béatrice pelo suicídio do pai, Claire acaba baixando a guarda quando descobre que a antes esfuziante mulher apenas retornou porque está com câncer e não tem mais ninguém a quem recorrer.

A princípio relutante, Claire se sente no dever de ajudar e passa a tomar conta de Béatrice, chegando ao ponto de fingir ser sua filha no hospital. O diretor Martin Provost desenvolve com paciência e sutileza os sentimentos conflitantes que levam essas mulheres a escolherem uma à outra como amigas, apesar das enormes diferenças entre as duas.

Béatrice é o que podemos chamar de um “espírito livre”: excêntrica, sensual, divertida e desbocada, ela é uma mulher que faz questão de aproveitar os prazeres da vida. É alguém que simplesmente não quer morrer. Por isso mesmo, sua doença faz com que repense as atitudes da juventude e tente se reconectar com Claire, a filha do único homem que amou de verdade.

Quase o oposto de Béatrice, Claire é uma pessoa extremamente reservada e solitária, que guardou para si tristezas enormes durante décadas. Alguém que dedicou a vida a um emprego que irá perder em breve e a um filho que aos poucos irá se afastar dela, para tomar conta da própria vida. O que faz uma mulher madura, quando chega a essa encruzilhada? Simplesmente aceita que o melhor da vida já passou e espera a velhice chegar?

A inusitada amizade entre as duas faz com que ambas percebam o que, de fato, é importante em suas vidas. Por mais que pareça falar sobre finais, a história tem muito mais a ver com recomeços – ou com renascimentos, para usar a metáfora da maternidade, tão bem explorada no decorrer do filme. As personalidades diversas de Béatrice e Claire acabam se complementando, quando uma se torna a figura materna da outra.

A trama não traz grandes reviravoltas, mas é um trabalho extraordinários de desenvolvimento de personagens. O roteiro, do próprio diretor, permite que as cenas aconteçam de maneira orgânica e deixa espaço para as performances maravilhosas das duas Catherines. Até mesmo o romance da protagonista com o “filho do vizinho” (interpretado por Olivier Gourmet) tem um frescor de amor adolescente, graças ao talento das interpretações.

A compreensão desses personagens e de suas complexidades pode parecer um processo lento demais para o espectador acostumado a blockbusters ou filmes de super-heróis, mas a recompensa ao final do trajeto é uma história delicada e emocionante sobre amizade, perdão e renovação. E, para uma trama que traz assuntos pesados como suicídio e câncer, a leveza e o bom humor de grande parte das cenas são até reconfortantes.

O Reencontro não envolve apenas duas pessoas que tiveram um relacionamento complicado no passado. Reencontrar o prazer de viver e o próprio sentido de estar vivo é um dos maiores desafios de qualquer ser humano, depois de certa idade, mas particularmente das mulheres. Abraçar as vulnerabilidades e ter compaixão não apenas uma com a outra, mas consigo mesmas, é o que permite que as duas personagens se conectem tão profundamente. É também o que as leva a aceitarem as dores da vida, mas sem se resignarem a elas.

114392O Reencontro (Sage femme)

Ano: 2017
Direção: Martin Provost
Roteiro: Martin Provost
Elenco principal: Catherine Frot, Catherine Deneuve, Olivier Gourmet, Quentin Dolmaire
Gênero: ​Drama
Nacionalidade: França

Veja o trailer:

Por Katia Kreutz Um dos maiores problemas da indústria cinematográfica, especialmente em Hollywood, é sua forma de retratar as mulheres. A situação fica ainda mais grave quando se trata de personagens femininas depois de uma certa idade - digamos, acima de 40 anos. É simplesmente lamentável a falta de bons papéis para elas nas grandes produções norte-americanas. Indo contra essa corrente opressiva de eterna juventude, o cinema francês vem trazendo histórias complexas e riquíssimas envolvendo mulheres mais velhas. O sucesso de público e de crítica dos trabalhos mais recentes da veterana Isabelle Huppert (Elle, O Que Está Por Vir) estão…

Avaliação geral

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4

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