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São Sebastião do Rio de Janeiro ─ A formação de uma cidade

Por Frederico Cabala

Eduardo Coutinho dizia que para fazer seus documentários precisava de um tema e um espaço geográfico bem restritos. A partir desses limites, argumentava, é que conseguia alcançar a liberdade para produzir. São Sebastião do Rio de Janeiro ─ A formação de uma cidade, dirigido por Juliana de Carvalho, é a antítese daquele lema. Lançado a poucos meses do evento olímpico, o filme pretende dar conta de cobrir a amplidão de cinco séculos de história da urbanização de uma das maiores e mais icônicas cidades do Brasil.

Diante da impossibilidade de cumprir um registro mais completo em menos de 02h de projeção, São Sebastião do Rio de Janeiro tem de fazer escolhas. O que mostrar e o que deixar de fora? Contar a partir de qual ponto de vista? O quanto se tem para dizer quando se fala da cidade Rio? Dada a infinidade de respostas possíveis, o filme conta com o trunfo de possuir uma bela fotografia, além de resgatar belas imagens históricas raras e fazer usos de tecnologias, como filmagens por drones e computação gráfica para reconstituições históricas.

Porém, a construção narrativa do longa não inova, esbarra em clichês e possui pouco senso crítico. Com uso de narração didática no estilo “voz de Deus” ou “voz over” (da jornalista Leilane Neubarth) e contando com entrevistas somente de especialistas e personalidades conhecidas, o filme larga da chegada dos portugueses no século XVI e chega até as últimas décadas do XX.

Entre um e outro ponto, é privilegiado o discurso do prestígio, tanto do homem em relação à natureza ─ como justificativa para construção de tantos aterros “conquistados” do mar ─ quanto em relação à própria convivência humana. Ao se deter nas regiões da zona sul/centro e mal mencionar as zonas norte e oeste prevalece um ponto de vista elitista para inglês e outros turistas verem. Sintetiza isso a frase escolhida pelo filme ao citar a chegada de classes ricas à região da lagoa Rodrigo de Freitas, antes ocupada por uma população mais pobre: “Enfim, a zona sul estava dominada”.

Não que o filme não abarque aspectos negativos da cidade, pois há no longa a demolição do morro do Castelo e o surgimento das favelas, mas o pouco tempo que esses tópicos ocupam são logo sobrepujados por momentos sequentes de festividade e otimismo. Por exemplo, sim, se diz sobre os famosos “bota-abaixo” que destruíram os cortiços do centro para a construção de avenidas e a favelização consequente de tal política, porém, em seguida isso cede lugar às notas de samba que introduzem o clima alegre de Ipanema e Copacabana. Em outra ocasião, se fala sobre a Rocinha, e de pronto sinaliza que há uma convivência harmoniosa entre os que moram ali e os que vivem em bairros vizinhos como São Conrado e Gávea, pois aqueles trabalham na casa destes. Como se fosse possível embrandecer a brutal desigualdade que constitui a cidade.

São Sebastião termina finalmente mencionando a poluição da Baía de Guanabara, certamente um dos temas graves da capital carioca, mas mesmo nisso há um viés utópico de esperança da despoluição, com olhar pouco aguçado para o tanto prometido e nada feito. Ao se deter nas décadas de 1970 e 1980, com a expansão da cidade para a Barra da Tijuca, o filme deixa também de analisar como as mesmas políticas constitutivas e excludentes se repetem hoje. O “bota-abaixo” do início do século XX reverbera agora na expulsão humana para a “revitalização” portuária do Rio de Janeiro, como demonstra o Há um dragão na Guanabara (2016), curta-documentário dirigido por Elder Barbosa e transmitido pelo Canal Futura recentemente.

Apesar da evidente relevância em termos de resgates de imagens e de síntese histórica sobre a urbanização da cidade, São Sebastião do Rio de Janeiro constata a dificuldade do cinema documental ao trabalhar temas vastos. Uma das exceções é Shoah (1985), de Claude Lanzmann, que consegue captar a imensidão do que foi o holocausto, porém, necessita de 10h para fazê-lo.

SaoSebastiaoCAPA

São Sebastião do Rio de Janeiro – A formação de uma cidade

Ano: 2015

Direção: Juliana de Carvalho

Roteiro: Juliana de Carvalho

Gênero: Documentário

Nacionalidade: Brasil

Veja o trailer:

Galeria de Fotos:

Por Frederico Cabala Eduardo Coutinho dizia que para fazer seus documentários precisava de um tema e um espaço geográfico bem restritos. A partir desses limites, argumentava, é que conseguia alcançar a liberdade para produzir. São Sebastião do Rio de Janeiro ─ A formação de uma cidade, dirigido por Juliana de Carvalho, é a antítese daquele lema. Lançado a poucos meses do evento olímpico, o filme pretende dar conta de cobrir a amplidão de cinco séculos de história da urbanização de uma das maiores e mais icônicas cidades do Brasil. Diante da impossibilidade de cumprir um registro mais completo em menos de…

Avaliação geral

Avaliação Geral

2,5

Sobre Frederico

Nasceu em Itabuna (BA) e se deslocou pra estudar jornalismo em Viçosa (MG), onde tomou gosto pelo cinema. Tem como diretores favoritos Woody Allen e Juan José Campanella. É fã do cinema documental brasileiro de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles.
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