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Lee Taylor

Por Joyce Pais

Protagonista de Riocorrente (Paulo Sacramento), que estreou dia 05 deste mês, o ator Lee Taylor falou ao Cinemascope sobre a preparação para viver o personagem Carlos, o momento atual do cinema brasileiro e as manifestações que se alastraram pelo país desde o ano passado. Saiba como foi essa conversa:

 

Cinemascope: Como se deu o seu envolvimento no filme?

Lee Taylor: O Paulo me fez o convite e me enviou o roteiro, em princípio não achei que meu perfil era adequado para o personagem, depois de uma longa conversa com o Paulo assumi o risco e topei fazer o papel pelo desafio artístico e pelos artistas envolvidos no projeto.

CS: Como foi o processo de preparação para o personagem?

Lee Taylor: Realizei um trabalho físico intenso para ganho de massa muscular, mas, principalmente, para ressaltar a impulsividade corporal necessária na construção do caráter do Carlos. Realizamos improvisações não só para discussão do roteiro e marcação de algumas cenas como também para entender e acertar melhor a relação entre as personagens. Além disso, me utilizei de algumas referências cinematográficas e fiz alguns laboratórios, como frequentar bares e jogar sinuca. Realizar a preparação do Vinícius, o garoto do filme, também foi fundamental para desenvolver meu personagem.

CS: A cidade de São Paulo é um personagem no filme. Mais do que um cenário, ela impulsiona muitas das atitudes dos personagens. Gostaria de saber qual a sua relação com a cidade de São Paulo?

Lee Taylor: Quando me mudei para São Paulo, há doze anos, me lembro da primeira imagem da cidade que me marcou muito. Eu cheguei de ônibus, estava dormindo e quando acordei vi o rio Tietê, os viadutos e o caos no trânsito. Me preparei para estabelecer uma relação árida com a cidade e com as pessoas, pois as impressões iniciais corroboravam com as minhas expectativas negativas. Em pouco tempo me adaptei à cidade e me surpreendi porque fui muito bem acolhido. Não me vejo morando em outro lugar no Brasil, principalmente pelas possibilidades e pela diversidade de atividades culturais que se tornaram absolutamente necessárias para o aprimoramento do meu trabalho, mas acredito que ainda tem uma boa parte da cidade que posso conhecer melhor.

CS: Riocorrente estreou na mesma semana que o filme Junho, que retrata as manifestações que tomaram as ruas do país em junho do ano passado. De certa forma, pode-se estabelecer uma relação entre as duas obras. Como você vê esse momento de insatisfação que o brasileiro vive e que já começou a ser retratado no cinema?

Lee Taylor: Vejo com absoluta esperança, pois as políticas públicas estão sendo observadas com mais atenção. Temos agora, com esse movimento, a oportunidade de rever nossos valores e nossas prioridades, penso que carecemos de uma profunda revolução do ponto de vista cultural e educacional que pode começar a partir dessa consciência inicial.

CS: Ao mesmo tempo em que as comédias são um sucesso estrondoso de bilheteria, são lançados filmes de diversos gêneros, que vão contra essa corrente, em relação a temática, abordagem e etc. A cada ano o número de filmes brasileiros que chegam ao cinemas cresce. Como você enxerga o momento que o cinema nacional vive atualmente?

Lee Taylor: O cinema nacional vive um momento paradoxal de grande oferta e pouquíssima procura. O público ainda não desenvolveu o hábito de acompanhar as produções nacionais e, em geral, os filmes relevantes do ponto de vista artístico ficam restritos ao circuito dos festivais. Com exceção às comédias, raríssimos são os filmes que, mesmo com artistas conhecidos do público, correspondem a expectativa mínima de bilheteria.

CS: Neste ano você esteve em duas produções, Entre Nós e Riocorrente, quais são os seus projetos futuros?

Lee Taylor: Em cinema talvez eu faça outro filme com o Paulo Sacramento, uma série em um canal fechado e outro longa no começo do próximo ano. Em teatro, tenho a coordenação do NAC – Núcleo de Artes Cênicas, que se tornou um curso de extensão da UNESP, um projeto de um monólogo e um Brecht para o ano que vem. Além do mestrado que concluo no meio do ano.

CS: Se você pudesse ser o personagem de algum filme, qual seria e porque?

Lee Taylor: Seria todos, para vivenciar a multiplicidade dos sentimentos e das relações humanas. De alguma forma, ser ator me proporciona essa possibilidade.

Sobre Joyce

Fundadora e editora do Cinemascope, jornalista, paulistana, fotógrafa, apaixonada por David Lynch, Pedro Almodóvar, Marilyn Monroe e café.
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