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Marina Abramovic e seu tradutor
Marina Abramovic e seu tradutor

Marina Abramovic e o diretor Marco del Fiol narram a experiência de gravar um documentário ritualístico

Por Guilherme Franco

Essa semana estreou nas salas brasileiras Espaço Além: Marina Abramovic e o Brasil, que traz uma nova reflexão e uma visão exterior sobre culturas tradicionais do país. A ideia para o documentário surgiu a partir de uma série que o diretor Marco del Fiol viu na TV e um dos relatos era o de Marina. Marco trabalha com documentário de arte faz quinze anos, e quis mostrar no filme a espiritualidade, que segundo ele não é religião. Ele conta que o espaço de um xamã, de um médium, é de performance, e esta é ritualística.

“O grande desafio era descobrir como proporcionar essa presença da equipe dentro de um espaço espiritual de gravação”, disse Minom Pinho, produtora do filme. Marina veio ao Brasil na década de 1980 para trabalhar e pesquisar os minerais de Minas Gerais, começou lá a série Objetos Transitórios, mostrada ao mundo inteiro, menos ao Brasil. Depois de sua exposição no MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), decidiu planejar uma viagem em que pudesse descobrir e aprender com a energia que o Brasil tem, esse país que, de acordo com Marina, “tem uma abundância de conhecimentos antigos”.

Um dos personagens presentes no documentário é João de Deus, médium que cura pessoas com seu tratamento espiritual. Segundo Marina, um dos obstáculos do projeto foi a permissão para filmar. João de Deus, por exemplo, “disse que não era ele, e sim 120 espíritos que encarnava, e precisava da permissão de todos, mas em um determinado dia ele nos disse que todos aceitaram”.

Espaço Além: Marina Abramovic e o Brasil entra para o gênero Ritual Documentary, que segundo a artista plástica, é o puro documentário. Até em Marina Abramovic: A Artista Está Presente (2012) a performance não era respeitada como forma de arte verdadeira e foi a partir daí que esse trabalho ganhou visibilidade. “Eu não acredito em verdade, eu acho que documentário é vida”, afirma Marco. O diretor conta que “no documentário de arte, a primeira coisa que você tem que entender é a estética. Atender ao estilo e o público. O documentário é ritualístico. Tem que saber como entra no espaço, como entra e se harmoniza com aquilo, como se entra vazio, tem um silêncio naquele lugar”.

Marina, antes de desbravar o Brasil, queria muito ir à Serra Pelada por conta das fotos de Sebastião Salgado, e tinha essa visão do país. “Foi incrível ter essa experiência com a Serra Pelada, cada dia alguém morria lá. Mas ao mesmo tempo tive uma conexão muito forte com os garimpeiros. Queria vivenciar essa experiência como artista. Daí eu sai de Serra Pelada e fui até o Pará, onde fui convidada a ser jurada do bumbum mais bonito do Brasil”. A artista considera que o país tem uma cultura muito específica, e muito especial. “Os brasileiros são apaixonados, mas ao mesmo tempo, o país é uma bagunça”.

Para Minom Pinho, Espaço Além está fazendo uma carreira internacional e é um momento para comemorar. Sabrina, distribuidora do filme, conta que foi o único documentário não americano a entrar no inovador Festival South by Southwest. Luisa Martini, da Flag Cx, contou que estão trabalhando a mídia faz dois anos em cima do filme para atrair um público mais jovem, um diálogo com o máximo alcance. Para Marina, “no Brasil, a gente entra em contato com essas forças que a ciência não consegue explicar. Eu tive muita sorte de poder aprender com o conhecimento intuitivo do Brasil”.

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Sobre Guilherme

Uma mistura de Wes Anderson, Lars Von Trier, Coutinho e Godard. Videomaker, futuro jornalista e diretor, ama filosofar e repensar como produtos artísticos seriam de outra forma. Vegetariano e corredor, a cada dia tenta se acostumar mais com essa sociedade que vive de utopias.
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