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Abbas Kiarostami

CCBB apresenta retrospectiva inédita de Abbas Kiarostami

Por Felipe Mendes

“Parodiando o ‘Cogito ergo sum’ de Descartes, eu poderia dizer: ‘tenho uma imagem, logo existo’. Que seria o mundo, que visão teríamos de nós mesmos, se não existisse a possibilidade de oferecer a cada um seu reflexo, seja o de uma fotografia, de um espelho ou de um reflexo na água? Todos têm necessidade e vontade de ver sua imagem. Porque somente ela nos permite acreditar em nós mesmos e de tomar consciência de nossa existência.”
Abbas Kiarostami

Salaam! Os ventos do mês de abril apontam excelentes oportunidades para os aficionados da Sétima Arte. Projeções espelhadas por três cidades tupiniquins prometem exibir o esplendor da afinidade entre o cinema e a poesia persa. O Centro Cultural Banco do Brasil apresenta a mostra “Um filme, cem histórias: Abbas Kiarostami”, uma retrospectiva inédita do mais aclamado diretor iraniano, em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. A exposição da filmografia trará obras raras e clássicas de um dos cineastas mais influentes da atualidade. Dentre os títulos mais consagrados de Kiarostami, podemos destacar Gosto de Cereja e O Vento Nos Levará, vencedores de prêmios como a Palma de Ouro em Cannes e o Prêmio Especial do Júri em Veneza, respectivamente.

A mostra é uma oportunidade de desvendar o principal nome do Novo Cinema Iraniano, movimento iniciado com Hajir Darioush, em meados da década de 1960, e consolidado com a obra-prima A Vaca, de Dariush Mehrjui. Nos anos seguintes à primeira leva, foi Abbas Kiarostami quem mais contribuiu para a revolução das características da arte cinematográfica no país. De forma visionária, o cineasta inovou ao realizar críticas através de suas metáforas poéticas. Contudo, é preciso declarar que a proposta empregada pelo diretor destoa do popular cinema norte-americano, aspecto que pode deixar alguns cinéfilos entediados pela escassez de “ação”. A exposição é essencial àqueles que, além de cinema, querem desfrutar da cultura persa.

“Detentor de uma capacidade rara na criação da narrativa, Kiarostami nos ensina em seus filmes que, mais importante do que o objetivo final, são os aprendizados do percurso. A mostra é uma oportunidade única de entrar em cada filme, em cada carro que Kiarostami decidiu seguir. É se deliciar com a coexistência de uma brandura e complexidade em suas histórias, com os lindos planos-sequências de paisagens, com delicadeza do seu olhar sobre a sociedade e paisagem iraniana. Será também um momento de reflexão e estudo sobre o cinema do diretor”, afirma o curador da mostra, Fábio Savino.

A exposição “Um filme, cem histórias: Abbas Kiarostami” está em cartaz no CCBB do Rio de Janeiro até 9 de maio, e completará sua trajetória com projeções nas cidades de São Paulo (de 20 de abril a 9 de maio) e Brasília (de 4 a 23 de maio).

Além da mostra: Em breve, o Cinemascope apresentará uma nova coluna CineMundi, voltada às obras cinematográficas do Oriente Médio; cujo intuito será destacar os principais filmes, diretores e movimentos influentes em alguns países desta região. Os aficionados do cinema persa podem comemorar, pois o Irã será o primeiro a ter as suas obras esmiuçadas!

A seguir, destacamos os projetos mais interessantes de Abbas Kiarostami, incluindo os horários de exibição na mostra.

Fique de olho:

Onde Fica a Casa do Meu Onde Fica a Casa do Meu AmigoAmigo? (1987)

Desde os primórdios da Pérsia, crianças iranianas seguem os ensinamentos do profeta Zaratustra. Dentre os principais mandamentos regidos na cultura persa estão atos como falar a verdade, cumprir com o prometido e não contrair dívidas. A comunidade é ensinada a praticar boas ações, cultivar a sabedoria e a virtude. A conduta empregada pelo Zoroastrismo (ou masdeísmo) tem como principal objetivo aproximar os seres humanos de Deus.

Onde Fica a Casa do Meu Amigo? é um retrato de tais ensinamentos. A trama desenvolve minunciosamente um dia na vida de Ahmad, pequeno estudante que mora em um vilarejo pobre de Koker, situado em Teerã. Sem perceber, o menino fica com o caderno de um dos colegas de sala na mochila. A pequena confusão é identificada quando Ahmad procura o material para realizar o dever de casa. O problema é que o amigo já estava na mira do professor e nenhum deslize a mais seria perdoado. Preocupado com o que o companheiro de sala teria de enfrentar no dia seguinte, o pequeno inicia uma jornada em rumo desconhecido com o propósito de salvar a pele dele.

Programe-se 😉
RJ:
Quarta-feira, 20/04 – 19h; Quinta-feira, 28/04 – 15h; Sábado, 07/05 – 15h
SP:
Quarta-feira, 20/04 – 19h; Sábado, 23/04 – 15h; Domingo, 01/05 – 15h

Close UpClose Up (1990)

O cinema iraniano tem como uma de suas facetas a arte de brincar com a realidade. E assim o fez em inúmeras produções. Não é raro se deparar com obras persas que mesclam a ficção com o documental. Dentre os principais ilusionistas da Sétima Arte no país, podemos citar nomes como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Jafar Panahi; e Close Up talvez seja a maior obra-prima com tal propósito lúdico.

O manifesto no longa-metragem retrata a reconstrução da história de Hossein Sabzian, aficionado de cinema que apresenta-se para uma senhora de família burguesa como o cineasta Mohsen Makhmalbaf. Com o propósito inusitado de rodar o próprio filme às custas do dinheiro da senhora Ahankhah e da fama adquirida pelo ascendente e desconhecido diretor iraniano, Sabzian consegue proliferar a farsa por algumas semanas. Contudo, o cinéfilo é desmascarado e preso pelas autoridades do país. A repercussão do caso foi tamanha que gerou um longa conduzido por Kiarostami, com participação de todos os envolvidos na história real.

Programe-se 😉
RJ:
Sexta-feira, 29/04  – 19h; Domingo, 01/05 – 17h
SP:
Quinta-feira, 05/05 – 17h; Domingo, 08/05 – 17h

Gosto de CerejaGosto de Cereja (1997)

Se Onde Fica a Casa do Meu Amigo? lançou a carreira de Abbas Kiarostami no cenário internacional, foi em Gosto de Cereja que o talento do cineasta fora consolidado. A obra aclamada com a Palma de Ouro no Festival de Cannes discorre a trajetória de um personagem com a situação financeira confortável, porém desprovido de anseios na vida. Badii, interpretado pelo ótimo Homayoun Ershadi, dirige pelas alamedas tortuosas do deserto iraniano em busca de alguém que satisfaça seu último desejo. No caminho, ele encontra diversos homens desfavorecidos e questiona-os acerca de uma parceria que envolve uma considerável quantia de dinheiro para aquele que o auxiliar em seu propósito de se suicidar. Gosto de Cereja apresenta uma reflexão sobre a integridade dos seres humanos.

Programe-se 😉

RJ: Sábado, 23/04 – 17h; Segunda-feira, 25/04 – 19h
SP:
Sexta-feira, 29/04 – 19h; Segunda-feira, 09/05 – 19h

Dez, 2002Dez (2002)

Recentemente, inúmeras produções iranianas refletem a representação das mulheres no país. Ótimos longas como A Maçã, de Samira Makhmalbaf, e O Círculo, de Jafar Panahi, denotam os direitos (ou a falta deles) e deveres da figura feminina na sociedade. Tais manifestos culturais se devem a adequação às leis islâmicas em 1979. Após a revolução liderada pelo aiatolá Khomeni, foi instituída a utilização do hijab  (espécie de véu que cobre os cabelos) para as mulheres. O país anteriormente controlado pelo Xá, ditadura mais próxima ao ocidente, passou por uma mudança ríspida em sua política. Ainda hoje, vários grupos de mulheres protestam em relação ao regime árabe. Dez, de Kiarostami, é mais uma crítica a repressão das liberdades femininas.

Além de um filme político, Dez inovou a forma de pensar a arte cinematográfica. Astuto, o diretor posiciona duas câmeras na parte interna de um carro, uma frente à motorista e outra à carona. A proposta da obra é simples e se resume a dez sequências gravadas no veículo. Inclusive, a ideia serviu de inspiração para Táxi Teerã, o mais recente longa de Jafar Panahi. A trama percorre a trajetória de uma mulher divorciada, recém-casada com outro homem, que sofre questionamentos do filho proveniente de seu primeiro casamento. Próximo de uma linguagem documental, Kiarostami explora dez sequências na vida emocional de seis mulheres. Através de personalidades fortes, Dez cria um retrato da feminilidade no país.

Programe-se 😉

RJ: Domingo, 24/04 – 15h; Sábado, 30/04 – 17h
SP:
 Quarta-feira, 04/05 – 19h; Sábado, 07/05 – 17h


* As informações sobre a programação foram adquiridas oficialmente pelo CCBB. Para maiores detalhes, consulte a página do espaço cultural: http://culturabancodobrasil.com.br/

Sobre Felipe Mendes

Carrega consigo a bonança do sertão nordestino e a loucura da metrópole paulistana. Gosta de acreditar que a felicidade é questão de querer. Admirador declarado das obras de Krzysztof Kieslowski e devoto dos iranianos Jafar Panahi e Majid Majidi. Imagina que o cinema representa a arte de apaixonar-se em movimento, 24 vezes por segundo. Prefere aqueles que se arriscam, que se emocionam, seja por amor ou pela dor. Sabe que a trajetória na terra não é como um filme de Frank Capra, mas acredita que o cinema é refúgio e inspiração para a vida.
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