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Abbas Kiarostami - Divulgação

Vida longa ao mestre Abbas Kiarostami

Por Felipe Mendes

As luzes por trás da carreira brilhante do cineasta Abbas Kiarostami cessaram nesta segunda-feira, na cidade de Paris. O coração do maior expoente da sétima arte iraniana deixou de bater aos 76 anos de idade. Nascido em Teerã, o diretor atingiu o ápice em termos de reconhecimento mundial ao conquistar a Palma de Ouro no Festival de Cannes, com a obra Gosto de Cereja, em 1997. O cineasta lutava contra um câncer gastrointestinal diagnosticado em março deste ano. Morreu deixando dois filhos, além de uma legião de fãs órfãos de seu principal mestre. “O cinema começa com D.W. Griffith e termina com Kiarostami”, diria ninguém menos que Jean-Luc Godard.

Não eram poucas as qualificações de Abbas Kiarostami: além de exercer a liderança da nova fase do cinema iraniano, experimentou outros campos artísticos como poesia, fotografia e artes plásticas. O diretor transcendeu as fronteiras que separam o Oriente Médio do restante do mundo, apresentando um cinema inovador, que denunciou o governo ditatorial através de imagens poéticas e fórmulas distantes dos modelos pré-estabelecidos. As obras de Kiarostami influenciaram diversos cineastas a fim de apontar as lentes de suas câmeras às realidades oprimidas pós-revolução no país. Jafar Panahi foi um dos pupilos do mestre, assistente de direção em Através das Oliveiras, e recebeu um presente das mãos de Kiarostami: o roteiro de O Balão Branco.

Além da estatueta em Cannes, Abbas Kiarostami foi condecorado com o Grande Prêmio do Júri de Veneza através de O Vento nos Levará, em 1999, e ao Leopardo de Bronze no Festival de Locarno, em 2005, pelo reconhecimento de sua trajetória. Na última semana, o cineasta havia sido incluso entre as personalidades do audiovisual convidadas a fazer parte da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, responsável pelo Oscar. Recentemente, o Centro Cultural Banco do Brasil homenageou Kiarostami, apresentando a sua filmografia em diversas cidades brasileiras, como nunca havia feito antes. Na ocasião, o Cinemascope indicou os principais filmes do diretor.

A censura levou o cineasta a rodar longas no exterior, como nos casos de Cópia Fiel, que foi produzido em solo italiano, e Um Alguém Apaixonado, realizado no Japão. O primeiro, inclusive, rendeu um prêmio de Melhor Atriz à Juliette Binoche no Festival de Cannes de 2010. As autoridades afastaram o diretor de seu quintal predileto e do último grande desejo em vida: voltar a filmar em persa. A perda de Kiarostami é irreparável para um cinema que carece de influências e profissionais com ideias autorais. Esperamos que o mestre tenha encontrado a paz e cessado a dor que tanto o incomodava ultimamente, já que cedo ou tarde, parafraseando um de seus grandes títulos, o vento nos levará.

A informação além dos clichês

Lançado em 1970, o curta-metragem O Pão e o Beco (Nan Va Koutcheh) foi a primeira obra de Abbas Kiarostami. Influenciado a partir do neorrealismo italiano, o trabalho apresenta a simplicidade e o humanismo nos vilarejos iranianos que tanto simbolizaram a carreira do cineasta. Assista na íntegra:

Sobre Felipe Mendes

Carrega consigo a bonança do sertão nordestino e a loucura da metrópole paulistana. Gosta de acreditar que a felicidade é questão de querer. Admirador declarado das obras de Krzysztof Kieslowski e devoto dos iranianos Jafar Panahi e Majid Majidi. Imagina que o cinema representa a arte de apaixonar-se em movimento, 24 vezes por segundo. Prefere aqueles que se arriscam, que se emocionam, seja por amor ou pela dor. Sabe que a trajetória na terra não é como um filme de Frank Capra, mas acredita que o cinema é refúgio e inspiração para a vida.
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