Por Ana Lucinski

[AVISO] Antes de qualquer palavra, preciso avisar que, inevitavelmente, esse texto contém spoilers violentos! Leiam por sua conta em risco!

“As necessidades de muitos superam as necessidades de poucos — ou de um.” – Spock

Queria evitar ao máximo spoilers, mas minha crítica ao filme está baseada em todo um contexto de uma fã de Star Trek. Portanto, para sustentar meus argumentos, foi necessário alguns spoilers.

J.J. Abrams trouxe ao mundo moderno o universo de Star Trek. Sendo sincera, gostei muito do primeiro filme, apesar das nítidas diferenças psicológicas nos personagens, em comparação à série clássica, no qual ele é baseado. Como fã que cresceu assistindo aos episódios e filmes, esses com poucos recursos tecnológicos, ver esse universo super modernizado, foi um deleite. O que mais me incomodou no primeiro filme foi o Spock mais humanizado e o Kirk muito impulsivo. Mas como era o primeiro e foi mais uma apresentação dos personagens, dei um desconto. Eles não mereciam muito a minha confiança pelo jeito.

Falando de figurino, maquiagem, cenário e efeitos especiais… tudo estava lindo! As roupas da federação extremamente parecidas com as da série clássica. Os atores ficaram muito parecidos com os da série, mas as mulheres desnecessariamente sexy demais. Isso nunca foi o foco da série, tudo bem, tem que ter um apelo, mas ter a Dr. Marcus de lingerie foi sem propósito. O nome Star Trek (se honrado) se faz por si só. Não precisa desse tipo de apelo. Gostei muito mais de ver uma Uhura lutando contra Klingons (já falo disso) do que ver esse apelo com a doutora. E não falo porque sou mulher, simplesmente, qualquer fã percebe que foi muito desnecessário. Foi “vamos por uma mulher seminua em algum lugar”.

O filme é uma explosão de efeitos especiais, não dá pra saber o que é real e o que foi chroma key, e digo que vale muito a pena correr atrás de cenas dos bastidores. A cena de Kirk voando de uma nave para outra é impressionante quando se vê como foi feita. Houve, sem dúvidas, um exagero nos efeitos especiais, porém, não tem como negar que ficou muito bem feito. Um das coisas que mais me frustrava na série clássica era nunca ter cenas na terra, para mostrar como o mundo ficou no futuro. Esse filme nos dá muito isso e não seria possível sem os efeitos especiais.

Quanto à cena mencionada acima sobre os Klingons, devo confessar que deu um friozinho na barriga quando o klingon tirou seu capacete e pegou a Uhura pelo pescoço. Aquele lado fã gritando “OMG são klingons!!”. Se isso foi uma prévia do que pode vir em outro filme, por favor que venha! Foi uma das cenas de ação mais legais do filme. Tanto se tratando da sincronia de movimentos, quanto dos efeitos especiais.

Bom, agora vamos ao roteiro e o perigo que nele mora. Então começamos com Kirk e sua tripulação em uma missão. Spock sendo extremamente racional e Uhura excessivamente amorosa. Eu me lembro de rumores sobre o envolvimento de Uhura e Spock na série clássica, mas no filme foi demais. Teve todo tipo de cena, ela amorosa, com raiva, os dois tendo uma DR com o Kirk no meio… sério?! DR com um vulcano?! Quem teve a ideia genial? Não tem como desafiar o limite da lógica e um vulcano nada mais é que lógico. Apelo desnecessário para buscar conexão com o personagem. Sinto muito, mas eu adoro o ser racional e aparentemente sem emoções conhecido como Spock e imortalizado por Leonard Nimoy. Por considerarem o personagem pouco cativante, acabaram humanizando demais o Spock e decepcionando os fãs da série clássica.

Continuando, temos o ataque contra a federação e um estranho inimigo, poderoso demais e indestrutível surge. Esse mata a maior parte dos capitães das principais naves da federação, arranjando como inimigo, nosso querido Kirk. Impulsivo, Kirk decide seguir o vilão dentro de território inimigo, dentro de um planeta natal do Império Klingon. Lá eles capturam o vilão e começam a conversar com ele. A frase marcante, o limite da mente de um fã… O vilão então diz: “Meu nome é Khan!”… Eu como fã: “PQP!!! É o Khan!!!!!”

Para quem não conhece, a série clássica também teve seus filmes, e o considerado por gerações como o melhor de todos os tempos é o A Ira de Khan. Khan foi considerado o maior vilão da série, impiedoso e implacável. Então temos um ícone nesse filme, e foi ai que eu achei que eles escorregaram no roteiro.

Benedict Cumberbatch fez um Khan mais assutador que o original. Tinha um ar mais sombrio e realmente parecia que ele era capaz de fazer qualquer coisa sem o menor remorso. Mas a quantidade de referências ao filme da Ira de Khan que foi o perigo. As referências estavam lá, mas não do jeito que aconteceram no filme.

Entendo o objetivo de se utilizar de cenas clássicas e torná-las diferentes e surpreendentes. Mas foi muito perigosa essa inversão na cena mais icônica do filme. Na Ira de Khan, quem entra no reator e morre por causa da radiação é o Spock, porém, em Além da Escuridão, houve uma inversão de papeis. Onde Kirk entende o significado de ser capitão e pensar no bem de todos mesmo que custe o sacrifício de um. O problema com essa cena foi o excesso de emoções. Spock fica com raiva pelo amigo e caça Khan, com um “pega ele” dito pela Uhura. Muitas referências de filmes de ação para um Sci-Fi. A cena de luta entre Kahn e Spock é fantástica, sem dúvidas, mas meio surreal, principalmente pelo fato de ter uma cena anterior na qual Kirk espanca Khan e esse sai sem um arranhão, enquanto na luta com Spock ele sai todo quebrado. Não era o Spock ali. Talvez um gêmeo malvado?! Vai saber.

Para quem não assistiu a Ira de Khan, mas gostaria de entender melhor o que estou falando, segue a cena:

Enfim, humanizaram demais o Spock e tornaram o Kirk meio irracional, do tipo “vamos sair atirando” durante boa parte do filme. Não é o mesmo feeling da série, o que incomodou a mim e, provavelmente, muitos fãs da série.

O final, ahhhhh o final. Esse salvou o filme. Todo meu senso crítico foi para o espaço (literalmente) quando ao final temos a célebre frase de início de todo e qualquer episódio:

Espaço: a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise. Prosseguindo em sua missão de explorar novos mundos, procurar novas formas de vida e novas civilizações, para audaciosamente ir onde ninguém jamais esteve.

Assim o filme termina, no início da missão de cinco anos que foi o enredo de toda a série clássica.

Ah! E sobre a cena do Spock falando com Spock. Essa eu prefiro deixar para cada um ter sua interpretação. Já li sobre diversas teorias, cuja maioria eu não concordo. Não querendo influenciar ninguém. Tomo o assunto por encerrado.

Vida longa e próspera.

Cinemascope -  Além da Escuridão – Star Trek posterAlém da Escuridão – Star Trek (Star Trek Into the Darkness)

Ano: 2013.

Direção: J. J. Abrams

Roteiro: Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci

Elenco principal: Benedict Cumberbatch, Alice Eve, Chris Pine, Zachary Quinto, Zoe Saldana, Simon Pegg.

Gênero: Ação, Aventura, Ficção-Científica.

Nacionalidade: EUA

 

 

 

Veja o trailer:

Galeria de Fotos: