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Tudo Pelo Poder

Por Wallacy Silva

O título original de Tudo Pelo Poder, The Ides of March, faz menção a um evento importante da História Antiga. O termo Ides se refere ao dia que fica no meio do mês, e foi bem no meio de março de 44 a. C. que o homem mais poderoso do império romano, Julio César, foi assassinado. Por quem? Por vários senadores de Roma, inclusive alguns que eram seus protegidos políticos. A dramatização da história, pelas mãos de Shakespeare, imortalizou a frase “Até tu, Brutus?”.  É jogando com o fato histórico que o filme se desenvolve e se torna o “Idos de Março” moderno. O que estará reservado para o próximo dia 15?

Acompanhamos Stephen Meyers (Gosling) o assessor de imprensa do governador Morris (Clooney). O governador está disputando eleições com Pullman (Michael Mantell) para ver quem será o candidato democrata nas eleições presidenciais dos Estados Unidos. O próximo dia 15 de março é o dia de uma das últimas e decisivas prévias eleitorais, no estado de Ohio. Meyers, inexperiente e ingênuo (apesar de afirmar o contrário), se perde no jogo de relacionamentos com o chefe da campanha Paul Zara (Seymour Hoffman), a estagiária Molly (Rachel Wood), a jornalista Ida (Tomei) e até com Tom Duffy (Giamatti), o chefe da campanha do adversário. Por realmente acreditar na causa que defende, o jovem acaba sendo engolido pelo sistema corrupto que o rodeia, mas ao mesmo tempo tem acesso a informações importantes que podem ser usadas ao seu favor.

São muitas as cenas carregadas de simbolismos no longa. A primeira, por exemplo, nos apresenta ao protagonista teoricamente fazendo um discurso, em um palco escuro. Aos poucos vamos percebendo que se trata de um teste, as luzes se acendem e vemos vários profissionais de áudio, vídeo e infraestrutura, responsáveis pelo debate que será realizado no dia seguinte. Essa cena nos mostra que veremos algo realmente grande, mas do ponto de vista de alguém que está nos bastidores de toda a ação. A cena mais simbólica é a em que Morris está discursando diante da bandeira dos Estados Unidos, como é feito tradicionalmente, numa mostra do patriotismo yankee. Mas exatamente atrás da bandeira estão Paul e Stephen discutindo formas de fazer o governador chegar ao êxito, como tentando convencê-lo a oferecer um cargo importante ao senador Thompson (Jeffrey Wright) que é influente na região. Dessa forma, Morris ganharia o apoio do senador, impulsionando assim sua vitória.

A fotografia investe em planos fechados, claustrofobia e ausência de luz, tudo para reforçar o fato de que os personagens estão constantemente sob pressão e fazendo coisas que ninguém deve ver ou ficar sabendo. O diretor joga muito com a linguagem através da câmera, executando desde os travellings mais tradicionais até construções mais complexas. Uma cena muito ousada do ponto de vista técnico é a em que começamos vendo, através de vidros, a rua, Molly na recepção, Stephen em sua sala e o reflexo de Paul no vidro. A profundidade de campo é total, e somos transferidos de ambientes através dos cortes de som. Primeiro ouvimos Molly na recepção, depois os personagens se deslocam para a sala de Stephen e passamos a ouvi-los lá. Nos últimos momentos da cena a câmera desfoca os personagens ao fundo e se movimenta ligeiramente para a esquerda, onde vemos Paul enorme e soberano, em foco. Em muitos momentos podemos achar que o verdadeiro chefe da campanha do Morris é Stephen, mas essa cena nos relembra através da imagem, brincando com as distâncias e o nível hierárquico de cada personagem, que quem está no comando é Paul.

O filme não faz nenhuma denúncia nem conta nenhuma novidade. Como o próprio título nos lembra, os jogos de poder não necessariamente envolvem justiça ou transparência e isso vem de muitos e muitos anos atrás. O roteiro é o responsável por prender o espectador, pois a história é dinâmica, com reviravoltas interessantes, o que acaba nos deixando atentos do início ao fim. Na direção, Clooney é só acertos e cria expectativas para seus próximos trabalhos por trás das câmeras. Gosling está incrível e se reafirma como um dos grandes atores de sua geração. Para quem não acredita na política, o ceticismo se confirma, e a impressão que fica é que para alcançar o “amadurecimento” ou o sucesso na carreira, estando no meio político, ser corrupto é, infelizmente, um pré-requisito.

 

Cinemascope---Tudo-Pelo-Poder-PosterTudo pelo poder  (The Ides of March)

Ano: 2011.

Diretor: George Clooney

Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon baseado na peça do útimo, Farragut North. 

Elenco Principal: George Clooney, Ryan Gosling, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood.

Gênero: Drama.

Nacionalidade: EUA.

 

 

 

Veja o trailer:

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Galeria de Fotos:

Por Wallacy Silva O título original de Tudo Pelo Poder, The Ides of March, faz menção a um evento importante da História Antiga. O termo Ides se refere ao dia que fica no meio do mês, e foi bem no meio de março de 44 a. C. que o homem mais poderoso do império romano, Julio César, foi assassinado. Por quem? Por vários senadores de Roma, inclusive alguns que eram seus protegidos políticos. A dramatização da história, pelas mãos de Shakespeare, imortalizou a frase “Até tu, Brutus?”.  É jogando com o fato histórico que o filme se desenvolve e se…

Avaliação geral

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4

Sobre Wallacy

Letrista, paulistano, adora música, livros, futebol, redes sociais, idiomas, conversas, novidades, detalhes, interpretações e, obviamente, cinema! @wallacy13
Comentários
Camilla disse:

Excelente comentário, o filme é ótim. Por mais que o assunto de política, corrupção entre outros esteja mais que batido nos cinemas, Clooney arrasou na direção e deu um dinamismo necessário para toda a articulação que ocorre durante as eleições.

Wallacy disse:

Olá Thiago! É muito bom te ver por aqui!

Obrigado pelos elogios. Também li sua crítica sobre o filme e acabei notando algumas coisas que não tinha dado tanto valor, acho que esse é grande barato do cinema, não só descobrir coisas novas a cada vez que vê o filme, mas também descobrir coisas novas ao ler cada texto sobre, ao descobrir quantas interpretações podemos ter de cada cena, de cada elemento. Por isso essa é a nossa paixão, certo?

Um abraço!

Ballarini disse:

Muito bom o filme. Excelente roteiro.

Thiago Dantas disse:

Oi, tudo em cima?

Bela crítica. Fez justiça ao texto. O que mais gostei em seu texto foi a parte que você apontou a cena de quando vemos a sede da campanha pela primeira vez – eu não tinha notado o quanto a construção dessa sequência tinha sido complexa – e funcional – até ler você.:)