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Cinemascope - Últimas Conversas (7)

Últimas Conversas

Por Frederico Cabala

Meu primeiro pensamento após assistir a Últimas Conversas foi que não poderia haver melhor fim para a obra de Coutinho. Em parte, méritos da montadora Jordana Berg e do finalizador João Moreira Salles — parceiros do documentarista desde sua retomada particular no cinema, com Santo Forte (1999) e Babilônia 2000 (2000) —, pela proeza que tiveram em manter a ideia original do filme e sobrepô-la com reflexões acerca do trabalho do próprio Coutinho. É ao mesmo tempo um filme tão dele, tão sobre ele e tão sobre seu cinema.

Tão dele. Últimas Conversas é um documentário que busca retratar adolescentes de escolas públicas da cidade do Rio de Janeiro em seus cotidianos, sonhos, dramas, tédios, intensidades, em suas pulsões de vida e de morte. O método não poderia ser mais habitual a Coutinho: conversas em forma livre, com uma aparente simplicidade nada simples de se executar.

Além disso, há outros elementos que marcam o estilo do diretor, como o interesse em conversar com personagens que pertencem a um grupo social radicalmente distante do seu, e o uso de canções. Ele não incluía trilha sonora nos documentários, mas sempre se empolgou com a presença da música através da voz de seus personagens. Assim como houve Janis Joplin em Babilônia 2000 e Frank Sinatra em Edifício Master, aqui temos Roxette.

Tão sobre ele.  O filme é também voltado para Coutinho. Escuta-se mais o timbre arranhado de sua voz em Últimas Conversas do que em outros filmes. De cara, a abertura é um primeiro plano do diretor em profunda insegurança com o próprio trabalho. Acostumado a ter como matéria principal de entrevistas a memória dos personagens, Coutinho demonstra a dificuldade em lidar com o fato dos adolescentes, em geral, importarem-se mais com o presente que com o passado. Frases como “ter fé é difícil, viu? Recuperar a fé é muito difícil” e “momentaneamente, ou para sempre, eu perdi a ligação com o mundo que eu tinha” revelam um foco de frustração do documentarista.

Quem assistiu ao documentário Apartamento 608 (2009), dirigido por Beth Formaggini sobre os bastidores de Edifício Master, viu que não eram incomuns os momentos de crise e desilusão de Eduardo Coutinho durante a produção de seus filmes. Parece ter havido quase sempre o receio do trabalho não render, de dar errado. Mas, assim como em Edifício Master, aqui o resultado é também grandioso.

Tão sobre seu cinema. Embora tenha feito filmes sobre assuntos diferentes em ambientes completamente diversos — sertão nordestino, favelas cariocas, prédio de classe média da zona sul, teatros e estúdios de gravação —, pode-se notar um percurso linear dentro da filmografia de Eduardo Coutinho. Caminho este que se depura em direção à essência de seu cinema, que é a palavra. Aos poucos, em seus filmes, muita coisa foi sendo abolida: diminuiu-se o número de cortes; imagens de preenchimento foram retiradas; acabou-se a inclusão de trilha sonora externa; filmagens passaram a rodar em estúdios e não em ambientes reais. Tudo isso desapareceu para restar com mais força a crueza dos relatos, para se chegar cada vez mais à presença total das palavras.

Antes de se tornar Últimas Conversas, Palavra seria o título deste documentário, conforme pensou Coutinho. A intenção inicial do diretor parece ter sido a de entrevistar não adolescentes, mas crianças, devido ao exercício nada moldado e nem um pouco convencional que as criaturinhas fazem no uso das palavras, que são sempre cheias de novas possibilidades e significados.

Não sendo legalmente viável filmar crianças, Coutinho, mesmo cheio de autodesconfiança, mostra uma empatia afinadíssima com os adolescentes. Os personagens se desvelam em filosofias de vida, experiências traumáticas devido ao bullying ou à ausência da figura paterna, e um olhar próprio para o tempo percorrido, em diálogos nos quais o diretor é capaz de reduzir a distância de seis décadas. E há, no final, uma surpresa que aponta tanto para ideia inicial do diretor quanto para um possível caminho futuro se este para ele houvesse. Assim, diante da extraordinária inventividade verbal que tanto buscou, podemos ver em Coutinho uma felicidade de pureza infantil.

Últimas Conversas estreia no próximo dia 7 de maio em salas do Rio e São Paulo. Em outras cidades do Brasil, o filme será lançado a partir do dia 14.

 

Cinemascope - Últimas Conversas posterÚltimas Conversas

Direção: Eduardo Coutinho

Roteiro: Eduardo Coutinho

Gênero: Documentário

Nacionalidade: Brasil

 

 

 

 

 

 

Veja o trailer:

 

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Por Frederico Cabala Meu primeiro pensamento após assistir a Últimas Conversas foi que não poderia haver melhor fim para a obra de Coutinho. Em parte, méritos da montadora Jordana Berg e do finalizador João Moreira Salles — parceiros do documentarista desde sua retomada particular no cinema, com Santo Forte (1999) e Babilônia 2000 (2000) —, pela proeza que tiveram em manter a ideia original do filme e sobrepô-la com reflexões acerca do trabalho do próprio Coutinho. É ao mesmo tempo um filme tão dele, tão sobre ele e tão sobre seu cinema. Tão dele. Últimas Conversas é um documentário que…

Avaliação geral

Avaliação Geral

5

Sobre Frederico

Nasceu em Itabuna (BA) e se deslocou pra estudar jornalismo em Viçosa (MG), onde tomou gosto pelo cinema. Tem como diretores favoritos Woody Allen e Juan José Campanella. É fã do cinema documental brasileiro de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles.
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