Em outros posts do especial, enfatizamos como o cinema de Eduardo Coutinho, embora por vezes transpareça aparente improvisação e ausência de método, se constrói sobre ideias coerentes e segue pequenas regras impostas pelo próprio cineasta. Trata-se de uma verdade, mas provisória – como tudo na vida -, que não se sustenta diante de alguns casos particulares. O fio da memória (1991) é uma das exceções ao padrão Coutinho de documentário. Se fôssemos eleger o filme no qual menos se identifica os emblemas do diretor, certamente esse seria o mais votado.

Pra começar, algo detestável para Coutinho: o tema abrangente demais. Feito entre 1988 e 1991, o filme se propõe a registrar o centenário da abolição da escravatura e o espaço do negro na cultura brasileira. Demais para um documentarista que prezava pela contenção dos assuntos, não? Afinal, como buscar e produzir material em um campo tão vasto? Depois, a dispersão geográfica: O fio da memória não poderia se restringir a um edifício, a uma pequena cidade do sertão, a uma favela ou a um lixão, pois tem implicações que se irradiam por todo o Brasil. Podemos ainda mencionar certo didatismo inerente ao tema, com a necessidade de contextualizações e explicações em voz over sobre a sociedade brasileira. Por último, chama atenção o excesso de recursos utilizados no filme: há o sistemático emprego de imagens de cobertura e de uma trilha sonora mal utilizada que por vezes lembra as vinhetas do Telecurso 2000 (o que reforça o sentido pedagógico do documentário).

É, assim, um ponto fora da curva em face do que o diretor realizou antes e do que faria depois. O principal chamariz para assistir ao filme, então, recai na curiosidade de saber como o documentarista executa um filme de tema genérico, espaços e personagens dispersos, excesso de recursos técnicos e abordagem didática; ou seja, como é Coutinho não sendo Coutinho?

Antes, por que o cineasta topou participar do projeto, se em ocasiões anteriores a O fio da memória ele já havia manifestado seu desinteresse nesse tipo de documentário? João Moreira Salles, no texto “Morrer e nascer – duas passagens na vida de Eduardo Coutinho”, dá a entender que razões laborais e financeiras governaram o envolvimento do cineasta com esse documentário: “O fio da memória lhe proporcionou trabalho e renda por três anos”. Após a finalização de Cabra marcado para morrer (1984), Coutinho sentiu-se sob o peso da sombra desse trabalho de repercussão grandiosa e viu-se intimidado pela impossibilidade de repetir o êxito. Por isso, dedicou-se a “fazer coisas humildes, que não podiam competir com Cabra”, segundo ele próprio.

A fase marcada por essa falta de ambição se estendeu de fins da década de 1980 até 1999, com Santo forte, poderíamos dizer. Nesse período que cobre mais de dez anos, Coutinho realizou feitos memoráveis que dialogariam bastante com seu cinema posterior, como Boca de lixo (1992), mas também assinou filmes feitos por encomenda para o CECIP (Centro de Criação de Imagem Popular) que parecem grandes reportagens jornalísticas, como os médias metragens A lei e a vida (1992), sobre o meio ambiente, e Mulheres no front (1996), que trata de lideranças femininas. Esses documentários, em geral, não chegam a figurar na filmografia do diretor, não tanto pela curta duração, mas principalmente pela ausência de marcas autorais do diretor.

Em 1987, Coutinho recebeu um convite da direção da FUNARJ (Fundação de Artes do Rio de Janeiro) para dirigir um documentário que abarcasse o tema do centenário da abolição, a ser celebrado no ano seguinte. O filme contaria ainda com a produção de três emissoras de televisão da Europa, o que explica o esforço pelo didatismo notado no longa: Televisión Española (TVE), La Sept e CHannel 4. Apesar do mote ser a data de 1988, o diretor conta ter exigido que “fosse completado só em 1989-90, para ficar amadurecido”. Assim, ao longo de uns três anos, o cineasta se dedicou à realização de O fio da memória, ouvindo diversas pessoas e agregando material ao documentário, dada a vastidão do assunto.

O fio da memória, de certo modo, está a meio caminho do que se via na produção de Coutinho entre Cabra e Santo forte, flertando com o jornalismo ao mesmo tempo que carrega uma abordagem similar ao que se reconheceria depois como traços do documentarista: a busca por personagens anônimos, a predileção pela história oral e a captação de música cantada por entrevistados. O filme se divide basicamente em dois níveis entremeados, conduzidos por diferentes narradores. Em uma camada, temos a voz de Ferreira Gullar, já utilizada no Cabra, com a função quase sociológica de contextualizar os tópicos gerais abordados durante as entrevistas, como as diferenças entre candomblé e umbanda, o que se sabe sobre a figura da Escrava Anastácia, além de fornecer dados estatísticos sobre a população negra no Brasil. A essa camada, se acrescenta um nível subjacente do documentário, no qual trechos do diário e de entrevistas de Gabriel Joaquim dos Santos são lidos pelo narrador Milton Gonçalves.

Gabriel dos Santos é a figura mais fascinante de O fio da memória. Nascido em 1892 em um distrito de São Pedro da Aldeia, no Rio de Janeiro, era filho de ex-escravo e construiu a própria residência como uma espécie de santuário das quinquilharias. O que seriam para outros simples cacos e objetos quebrados sem valor, Gabriel transformava em itens cheios de afeto. Por exemplo, em um abajur de lâmpadas queimadas ou uma flor feita de pedacinhos de vidro. Não à toa, seu lar ficou conhecido como Casa da Flor. Mais interessante para o documentário foram as anotações deixadas em diário e as gravações de voz deixadas pelo personagem.

Nos seus cadernos, fatos da história do Brasil se imiscuem ao próprio cotidiano do ex-trabalhador de salina, entrelaçando macro e micro história como uma síntese de todo o documentário. “As leis do cativeiro no Brasil começou no tempo da colonização, no ano de 1532” está ao lado de “A casa tem três cômodos. Eu não cozinho aqui. O meu almoço é minha sobrinha que traz. Banheiro eu não tenho, Aqui só tenho de fazer os meus enfeites e de zelar” e ainda “Uma mulher matou o marido na dança em Cabo Frio, no dia 25 de fevereiro de 1970”. Registros pontuais do país, como “Santos Dumont fez o primeiro voo em 1906. Ele é o pai da aviação brasileira” se encontram com aforismos do tipo “Não se despreza o amor velho pelo novo que há de vir, que o novo vai embora e o velho vem a servir” e notas sobre o “preço dos gêneros alimentícios”.

Mesmo sem contato presente com Gabriel dos Santos, que morrera dois anos antes do início das pesquisas, o documentário se fia na sua figura como escape poético à obrigação informativa das entrevistas e do papel didático do outro narrador. Fica a impressão de que tal viés foi o preferido por Coutinho para a construção do documentário, conforme ele indica: “Isso me pareceu fascinante, esse diário imenso junto com essa coisa do imaginário (…) porque no fundo essa tentativa de construir algo com fragmentos era uma síntese extraordinária; me pareceu corresponder um pouco à memória do negro, na medida em que foi destruído – ele e sua família – pela escravidão, e tinha que recuperar, com fragmentos, sua identidade”.

Entrecortado com os rastros do construtor da Casa da Flor, o outro plano do documentário aborda, por meio de entrevistas, como se deu a inserção do negro na cultura brasileira, deixando claro que a abolição sempre esteve longe de significar autêntica libertação. Mais próximo do documentário jornalístico nesse âmbito, o filme tenta abarcar questões como a ausência de política de integração dos ex-escravos, o sincretismo religioso, o samba e os efeitos contemporâneos da abolição. Para contemplar tantas dimensões, são realizadas conversas diversas e multifacetadas. Desde ida a escolas, com um incomum Coutinho a fazer perguntas como “quem foi Zumbi?” e “que negócio foi esse de abolição?”, até entrevistas com Mães-de-santo. Na tentativa de fornecer um caráter atual ao documentário, são exibidas também conversas com menores abandonados, com internos do antigo Funabem, com moradores de rua e com vítimas da violência policial. O impacto das imagens é suficiente por si só: são quase todos negros e suas vidas um efeito do regime escravista.

O teor das conversas aborda o conhecido racismo estrutural da sociedade brasileira; velho conhecido nosso, mas sempre chocante. Em um educandário de Niterói, crianças sem casa ou família contam como chegaram até aquele lugar. Uma menina afirma que trabalhou, antes, na casa de uma senhora em Botafogo. Coutinho pergunta: “Quando você tinha folga, você fazia o quê?”, ao que ela responde “eu nunca tinha folga nem me pagavam”.

O fio da memória transmite também o importante legado de captar acontecimentos importantes que fervilhavam durante o centenário da abolição. O movimento negro, por exemplo, lutava à época pela transferência do Dia da Consciência Negra de 13 de maio, data da Lei Áurea, para 20 de novembro, aniversário de morte de Zumbi dos Palmares. A reivindicação foi alcançada por meio de um projeto de lei da primeira deputada negra da história do congresso, Benedita da Silva, uma das entrevistadas do filme. Aliás, é significativo o fato do documentário registrar o início da ascensão de figuras hoje conhecidas pelo envolvimento com a causa. Além de Benedita, vemos o Frei David dos Santos, futuro criador da ONG Educafro.

Talvez a maior força do filme esteja em não produzir um discurso puramente melancólico da escravidão, mas enaltecer a imagem de resistência cultural e luta pela superação da crueldade imposta. Tal qual Gabriel dos Santos, que encontrou beleza a partir de sobras e dejetos.

Numa coincidência infeliz, mas não fortuita, ao buscar 0 paradeiro da sepultura de Gabriel no cemitério de Cabo Frio, Coutinho só encontra fragmentos de ossos misturados, à espera de um destino final. A imagem perturbadora é seguida pelo plano de uma escultura de um anjo ali presente, de expressão fria e braço erguido. O diretor revelou, anos depois, se tratar de uma referência à interpretação de Walter Benjamin para o quadro O anjo, de Paul Klee. Nessa leitura, o anjo nada mais seria que a história da humanidade e o contínuo esforço em recuperar cacos da destruição enquanto o tempo avança…

“O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso.”

Assista ao filme completo: