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Edward Mãos de Tesoura

Por Ludmila Lorenzetto

Eu não imaginava, mas 1990 seria o ano em que eu seria convidada a entrar no fantástico mundo de Tim Burton. O convite não poderia vir de outro personagem senão Edward, do clássico Edward Mãos de Tesoura, um dos meus filmes favoritos dirigido por ele.

Segundo a sinopse oficial, “Peg Boggs (Dianne Wiest) é uma vendedora da Avon que acidentalmente descobre Edward (Johnny Depp), jovem que mora sozinho em um castelo no topo de uma montanha, criado por um inventor (Vincent Price) que morreu antes de dar mãos ao estranho ser, que possui apenas enormes lâminas no lugar delas. Isto o impede de poder se aproximar dos humanos, a não ser para criar revolucionários cortes de cabelos, mas ele dá vazão à sua solidão interior ao podar a vegetação em forma de figuras ou esculpir lindas imagens no gelo. No entanto, Edward é vítima da sua inocência e, se é amado por uns, é perseguido e usado por outros.”

Johnny Depp dá vida ao inocente, sensível, doce, estranho, diferente, puro, apaixonante Edward e suas expressões tanto faciais quanto corporais, bem como, sua sensibilidade e apenas as 169 palavras em frases curtas que disse durante todo o filme nos fazem não conseguir tirar os olhos da tela.

Tim apresenta ao espectador dois mundos que se contrapõem: o mundo externo a Edward é exageradamente colorido, iluminado, bem cuidado, povoado e esteticamente mais bonito; enquanto o mundo de Edward é escuro, sombrio, solitário, vazio, distante. E esse contraponto serve para levantar uma das questões principais do filme: É possível manter –se singular num mundo “normal”?

E é quando Edward sai de seu isolamento para o mundo que ele sequer imaginava que existia que nos apaixonamos perdidamente por ele, pelo filme e pela história. Quem não viu, prepare-se para conhecer um dos filmes mais emocionantes e exageradamente sutis que você já viu. Não esqueça a caixinha de lenços.

Não vou ficar dando spoiler aqui. Para enfeitar essa homenagem linda que o Cinemascope está prestando a esse diretor que me trouxe a um universo lúdico e delicioso, vou listar algumas curiosidades sobre essa maravilhosa obra-prima:

1) O filme era considerado “cult” e foi lançado, inicialmente em pouquíssimos cinemas. Inesperadamente fez sucesso e foi levado às salas de cinema de todo o mundo. Resultado: arrecadou mais de U$ 86 milhões de bilheteria.

2) Antes de “bater o martelo” para Johnny Depp cogitou-se para o papel de Edward Jim Carrey, Robert Downey Jr., Tom Cruise (essa era a escolha da Fox) e o inesquecível e multifacetado “Rei do Pop” Michael Jackson. Vocês conseguem imaginar algum deles dando vida ao jovem, excêntrico, calado e solitário Edward?

3) “Edward Mãos de Tesoura” foi o último filme de Vincent Price (1911-1993), que interpretou o “pai”, o criador de Edward. Ele faleceu três anos após a sua participação no filme.

4) O filme nasceu a partir de um desenho que Tim fez quando era adolescente. Ao mostrar para a roteirista Caroline Thompson sua “obra de arte” da adolescência, a mesma criou, em 3 semanas, 70 páginas que, mais tarde, se tornariam o roteiro de seu melhor filme, segundo declarações do próprio diretor.

5) Aproximadamente duas horas era o tempo que levava para ficar pronta a maquiagem do ator. Nota-se que com a evolução da história que está sendo contada as cicatrizes de Edward vão sofrendo mutações em tamanho e profundidade.

6) O bairro que transforma a vida de Edward no filme foi inspirada em Burbank, cidade natal de Tim Burton, existe na vida real e encontra-se nos arredores de Lutz, leste de Tampa, na Flórida. As casas, que compõem as locações e o cenário também são reais, foram 50 casas alugadas, pintadas e transformadas para o filme e seus moradores foram transferidos para um hotel durante as filmagens. Mas o mais curioso é que os personagens da vizinhança retratada no filme possuíam características de pessoas que a roteirista Caroline Thompson conhecia e com quem conviveu durante a infância, exceto Edward. Afinal, quem não conhece pessoas que amam fofocas e tomar conta da vida dos outros, vizinhos que adoram fazer piadas sem graça, uma mulher que foi rejeitada, um playboy violento que não sabe perder?

7) Para compor o visual de Edward, Tim Burton inspirou-se no personagem Cesare, um sonâmbulo que estaria, supostamente, adormecido por 23 anos, do clássico de terror alemão expressionista e mudo de 1920 “O Gabinete do Doutor Caligari”, interpretado e imortalizado pelo ator Conrad Veidt.

8) A personagem Peg, brilhantemente interpretada por Dianne Wiest, é baseada na mãe da roteirista que costumava levar estranhos para sua casa.

9) No segundo grau, a roteirista Caroline Thompson namorou um mímico e, por isso, as pessoas de sua cidade pensavam que ele havia sido a inspiração para ela criar Edward, mas ela negou. Na verdade, o personagem principal do filme foi inspirado em sua cadela que morreu seis anos antes e a quem ela dedica o personagem como uma verdadeira carta de amor.

10) Toda a história foi pensada para ser vista através dos olhos de Edward e é por isso que a vizinhança parece tão “fantástica” e “estranha”.

11) Segundo a roteirista, apesar de não escrever os personagens para atores específicos Caroline Thompson teria pensado em John Cusack para o papel de Edward e Laura Dern para dar vida à personagem Kim, interpretada por Winona Ryder.

12) Na cena em que Peg olha pelo espelho retrovisor do carro e vê pela primeira vez o castelo de Edward, o castelo que ela vê é uma pequena maquete criada pelo departamento de arte do filme, que foi erguida em um tripé, do lado de fora do automóvel.

13) As esculturas esculpidas por Edward não são reais e foram construídas, pelo departamento de arte, a partir de armaduras de aço leve, cercadas por arames e preenchidas com grama artificial. Entretanto os “cortes de cabelo” dos cachorros eram reais, uma vez que há quase 27 anos a computação gráfica ainda não era capaz de fazer as “mágicas” atuais.

14) Quem se lembra do Nick Carter, astro teen da boy band “Backstreet Boys”? O cantor confirmou que é o garotinho loiro que brinca no “Slip & Slide” no início do filme, apesar de seu nome não constar nos créditos.

15) A cena da cama d’água é a única que não estava no roteiro e foi incluída a pedido do diretor.

16) Pensou-se na atriz Drew Barrymore para o papel de Kim Boggs, mas a escolhida foi Winona Ryder.

17) Apesar do calor surreal que fazia durante as filmagens, Johnny Depp recusou qualquer resfriamento temporário enquanto estava com a roupa de couro do personagem. Isso fez com que o ator entrasse em colapso durante a cena em que Edward volta correndo para casa.

18) Tim Burton convidou o vocalista da banda The Cure, Robert Smith, para compor a trilha sonora do filme, mas o mesmo recusou a proposta alegando que não conhecia o diretor e estava ocupado gravando o álbum “Disintegration”. A trilha do filme ficou aos cuidados de Danny Elfmann com quem o diretor já havia trabalhado em “As Grandes Aventuras de Pee-Wee” (1985) e viria a ser seu fiel colaborador em futuras produções.

19) Edward Mãos de Tesoura foi o início da longa parceria entre Tim e Depp, que já soma 8 (oito) filmes.

20) As mãos de tesoura de Edward foram criadas por Stan Winston, ícone da maquiagem e efeitos especiais, conhecido por seus trabalhos nos filmes “O Exterminador do Futuro”, “Jurassic Park”, “Aliens” , entre outros. Partiu dele a ideia de usar tesouras no lugar ao invés de dedos nas mãos de Edward.

21) Em 2013, após ver pela primeira vez o par de garras isoladas nos registros fósseis de 505 milhões de anos da espécie Kooteninchela Deppi, um ancestral de lagostas e escorpiões, o paleontologista Dr. David Legg, fã de Johnny Depp, não pôde deixar de pensar em “Edward Mãos de Tesoura” e batizou o animal pré-histórico de Johnny Depp em homenagem ao ator.

22) De acordo com Tim Burton, a roupa de Edward era feita de látex, couro, fita e pedaços de um velho sofá de seu primeiro apartamento.

Após tantas curiosidades, sugiro que você pegue seu balde de pipocas, sua caixinha de lenços de papel e se entregue aos encantos dessa obra-prima de Tim Burton. Se você já conhece o filme, vale muito a pena ter um “revival” e se apaixonar por ele outra vez!

Sobre Ludmila Lorenzetto

Tim Burton; cinema italiano; tatuagens, Almodóvar; noite; Ozpetek; criatividade; Tarantino; fantasia; Iñarritu; papel e novas ideias.
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