Home / Especiais / Lolita
Cinemascope-Lolita-Kubrick (7)

Lolita

Por Aline Fernanda.

No longa Lolita, Kubrick retoma sua parceria com o produtor James B. Harris, que seria a última, já que posteriormente Harris passou a dirigir filmes (O Caso Bedford – 1965).  A temática polêmica do filme e as melhores possibilidades de financiamento o levaram a filmar na Grã-Bretanha. O cineasta se muda para lá e não volta mais para os EUA. A adaptação do livro homônimo de Nabokov causa grande interesse na indústria, o diretor assina contrato com a MGM que lhe dá grande independência financeira para gravar seus próximos filmes, dos quais ele mesmo assina a produção.

Lolita começa mostrando o professor Humbert Humbert (James Mason) invadindo a mansão do famoso produtor de cinema/roteirista de tevê Clare Quilty (Peter Sellers), disposto a matá-lo com um revólver. Quilty se apresenta de toga e declara: “Sou Spartacus” (todos os filmes de Kubrick fazem menção a sua obra anterior, nesse caso, Spartacus – 1960). Logo em seguida o filme mostra um flashback, onde é contada a história que leva a tal desfecho.

 Cinemascope-Lolita-Kubrick (6)

Kubrick aprisiona, propositalmente, seu filme em um flashback inspirado no último capítulo do livro. Ele cria um clima trágico, que continuará até o fim. O assassinato de Quilty através do retrato de uma mulher de beleza estonteante dá ao longa uma impressão de filme policial.

O professor, que possui uma personalidade obsessiva com tendências pedófilas, é um recém-chegado que se instala em um quarto numa casa em Ramesdale, New Hampshire, onde pretende passar o verão até ir para a Faculdade Beardsley, Ohio, onde dará aulas de literatura francesa. A proprietária da casa, Charlotte Haze (Shelley Winters), é uma viúva sexualmente faminta, que logo se interessa pelo professor.

Humbert é atraído pela filha da Sra. Haze, Dolores “Lolita” (Sue Lyon), no auge de seus doze anos de idade, uma ninfeta que aguça os desejos mais sombrios do “pacato” homem. Enquanto a viúva se insinua cada vez mais, o professor confessa seus desejos por Lô em seu diário, sem dar grande atenção para a mulher.

Cinemascope-Lolita-Kubrick (9)

O filme é incompreendido, na época poucos críticos o defenderam apesar de ser uma virada decisiva na carreira de Kubrick. Uma das críticas feitas é à atriz Sue Lyon que é fisicamente madura demais para o papel de uma garota no auge de seus 12 anos (na época a atriz tinha 16 anos). Hoje em dia, o que se vê são que as “crianças” estão cada dia mais maduras, com suas maquiagens e roupas ousadas, o que diminui a defasagem.

A Lolita vivida por Lyon não é uma ninfeta, o que na época causou certo estranhamento na perturbação de Humbert, para aqueles que não tinham lido o livro e não sabiam do que se tratava, além, é claro, de levar em consideração que na época casamento de homens maduros com meninas menores de idade era uma coisa mais comum de se ver do que é hoje em dia. Uma coisa importante a se dizer é que a atriz mirim manda muito bem na interpretação.

Em uma das cenas em que a Sra. Haze joga todo o seu charme, ela está jogando xadrez com o professor (triste, porque a figura dessa mulher dá certo dó e desespero, ela parece triste e sem brilho perto da filha). O que pode parecer um jogo despretensioso, o xadrez, na verdade, era uma das ocupações favorita do cineasta, na qual ele afirmou encontrar a conjunção da intuição e do rigor.

Cinemascope-Lolita-Kubrick (2)

O xadrez evidencia a dualidade de todo o jogo: devem-se avaliar os recursos disponíveis e o cálculo das eventualidades previsíveis, o risco aceito e o resultado esperado. Kubrick retrata o jogo de xadrez em vários filmes, em Lolita o jogo é entre Humbert e Charlotte. Aprofundando isso, a maioria dos filmes do cineasta baseia-se em relações de força, em cálculos de probabilidades em que se mesclam prudência e audácia. Golpe (O Grande Golpe), estratégia militar (Glória Feita de Sangue, Spartacus, Dr. Fantástico), manobras políticas (Laranja Mecânica) ou pessoais (Lolita, Barry Lyndon) revelam o mesmo esquema de um avanço regular, pontuado por golpes de força, que é também uma luta contra o tempo, e, portanto contra a morte. Humbert, à sua maneira, luta contra o tempo para conquistar uma menina que se torna (rápido demais para ele) adulta.

A viúva que não é nada boba, percebendo sua queda por Lolita a manda para um acampamento e faz uma declaração de amor, o professor aceita se casar com a viúva para poder continuar próximo da garota. Chega a planejar o assassinato de sua esposa, depois que ela conta sua intenção de mandar a filha para um internato.

Cinemascope-Lolita-Kubrick (5)

O casamento atinge a crise quando a mulher descobre o diário e as perversões do marido. Logo a seguir a mulher, transtornada, é morta em um atropelamento. Sem pensar duas vezes Humbert vai buscar a garota e inicia uma longa viagem de carro pelo interior do país. Durante uma das estadias eles se encontram com Clare Quilty, que reconhece Lolita, pois já a havia visto em uma festa junto com a mãe. Quilty se mostra tão pervertido quanto o professor e acaba perseguindo o casal até que consegue fazer com que os dois se separem. O que justifica o início do filme.

Durante todo o filme, Humbert tem medo de que a polícia o pegue por sua vida sexual com Lolita (eles são apresentados como pai e filha). A autoridade é o superego que proíbe os personagens do diretor, em particular o Humbert, de viver livremente, de seguir seus impulsos e desejos pessoais. Esse estado de desamparo provocado pelo medo obsessivo de enfrentar  os tabus de uma sociedade desemboca na loucura (Humbert debatendo-se no corredor do hospital – diga-se de passagem, é uma das melhores cenas do filme). Quilty assim como o general Broulard, de Glória Feita de Sangue, Crassus de Spartacus, o Dr. Fantástico, o ministro e o Dr. Brodsky de Laranja Mecânica, é um supertécnico, um manipulador, a encarnação do poder.

Outro tema recorrente nos filmes de Kubrick é a ligação entre o amor e a morte, em Lolita, a paixão de Humbert é uma autodestruição que acaba com a morte de Quilty (que faz papel de “duplo” com Humbert). Além disso, a morte está presente entre o professor e Sra. Haze, seu marido morto e depois a morte da Sra. Haze vai se impor entre Lolita e Humbert. A violência também está onipresente, assim como no assassinato lentamente executado.

 Confira o trailer:

Sobre Fernanda

Psicóloga, fotógrafa, paulistana, fã dos clássicos, suspense e animação, tem como ídolos os diretores Alfred Hitchcok e Tim Burton.
Comentários