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Cinemascope-cortinas-fechadas (3)

Cortinas Fechadas

Por Ana Carolina Diederichsen

Estamos dentro de uma casa repleta de janelas e paredes de vidro com vista para o mar. Com a câmera parada, em uma longa sequência, é possível avistar ao longe um homem desembarcando de um táxi. Tranquilamente ele entra na casa, e fecha todas as cortinas. Não contente, ele retira de suas malas imensos panos pretos e sobrepõe às cortinas. O comportamento obsessivo causa certo estranhamento, mas o choque se dá mesmo quando, depois de cobrir todas as janelas, ele retira um lindo cãozinho de uma de suas malas. O mais curioso é que ele demonstra muito carinho pelo animal. Então é inevitável se perguntar: por que diacho ele guardou o cachorro numa mala? Quem teria um comportamento tão cruel com um animal que nitidamente (e reciprocamente) é adorado por ele? Nos próximos minutos já temos nossa resposta.

Por engano, o cachorro acaba ligando a televisão num noticiário que fala sobre a proibição de cachorros em ambientes públicos, sob a pena de morte para o animal (uma lei iraniana que até então desconhecia). O estranhamento inicial se converte em alívio. Agora faz sentido ocultar as janelas para proteger o precioso melhor amigo do homem. Aos poucos o homem vai entrando numa rotina e começa a escrever um roteiro, sempre interagindo com o cão. No meio da noite, ao abrir a porta para trocar a areia de necessidades do cachorro, um casal de irmãos entra na casa. Nervosos e temendo a policia que está em seu no encalço, o obrigam a acolhê-los. O irmão sai e deixa a mulher aos cuidados do homem, mas não sem antes informá-lo de suas tendências suicidas.

Tendo isso em mente, ele volta a escrever, mas a mulher parece tentar impedi-lo, roubando, a todo momento, sua atenção. As situações são postas de maneira a romper a lógica tradicional. Personagens somem e reaparecem, confrontam-se entre si e divagam. A mulher, sempre impetuosa, retira os panos das janelas e quebra os vidros, expondo a si mesma, ao homem e ao cão. Outro personagem surge e parece tentar corrigir, esconder e consertar a confusão. O filme vai evoluindo de maneira intrigante e surpreendente. Usa da metalinguagem, mas vai além. Brinca com alguns aspectos da criação e perverte a realidade. Permite leituras distintas e deixa a cargo do espectador a decisão sobre a qual delas vai se apegar. Ou aquele homem se refugiou naquela casa e encontrou uma mulher ousada e em fuga, ou aquela casa é uma metáfora para ilustrar a reclusão confusa a que o cineasta foi submetido.

Para entender ainda melhor o filme, precisamos falar um pouco da história do diretor (que aparece no filme, interpretando a si mesmo) Jafar Panahi. Cineasta premiado em diversos festivais com uma carreira bastante sólida, teve seus filmes proibidos dentro do Irã. Em função de seus retratos realistas e críticos através de seus filmes, foi preso e proibido de filmar, escrever ou dar entrevistas. Além disso, foi condenado à prisão domiciliar por 20 anos. Cortinas Fechadas foi, então, rodado escondido e ilegalmente distribuído, exatamente como o nome e a trama sugerem, às escuras.

Para esta espectadora que vos fala, a casa de cortinas fechadas é a alegoria de um refugio. Nele, o diretor acolhe seus personagens, histórias e cachorros proibidos para tentar continuar existindo sem ser consumido pela insanidade. Isso, até que o lado mais selvagem dele se revela na figura da mulher e decide arrancar as cortinas que o exilam e se expor, ciente dos riscos que isso acarreta. Ele optou por enfrentar a repressão, lançar um filme proibido para não anular tudo aquilo que o constitui e que vive, latente, dentro dele. Esse é um daqueles filmes com várias camadas. O longa se sustenta sozinho, sem necessidade de pesquisas aprofundadas, mas conhecendo o contexto no qual foi feito, se enche de riqueza. De um bom filme, ele passa a ser uma preciosidade. Corajoso. De um jeito ou de outro, é um filme obrigatório para os amantes da sétima arte. Resta ainda um questionamento que pode render horas de discussão num boteco: se os personagens representam todas as diversas facetas de si mesmo, cada qual revelando uma parte importante de sua personalidade, quem é o cachorro nessa história? Aquele que é o bem mais precioso e querido de todos, que deve ser protegido a todo custo? A liberdade, o desejo, a inspiração, ou quem sabe, o próprio cinema…

Cinemascope-cortinas-fechadas (2)Cortinas Fechadas (Pardé)

Ano: 2013

Diretor: Jafar Panahi e Kambuzia Partovi

Roteiro: Jafar Panahi

Elenco Principal: Kambuzia Partovi, Maryam Moqadam, Jafar Panahi.

Gênero: Drama

Nacionalidade: Irã

 

 

Assista o trailer:

 

Por Ana Carolina Diederichsen Estamos dentro de uma casa repleta de janelas e paredes de vidro com vista para o mar. Com a câmera parada, em uma longa sequência, é possível avistar ao longe um homem desembarcando de um táxi. Tranquilamente ele entra na casa, e fecha todas as cortinas. Não contente, ele retira de suas malas imensos panos pretos e sobrepõe às cortinas. O comportamento obsessivo causa certo estranhamento, mas o choque se dá mesmo quando, depois de cobrir todas as janelas, ele retira um lindo cãozinho de uma de suas malas. O mais curioso é que ele demonstra…

Avaliação geral

Avaliação Geral

5

Sobre Ana Carolina

Radialista, apertadora de botões convicta, mas com algumas ideias na caixola. Trabalha em televisão, mas não se deixou corromper pelo lado negro da força. Gosta de Cinema, arte, bichos, pijamas e unicórnios. Adora boas historias e tem fixação pela imagem. Intensa e dramática. Dizem que é nerd, mas não perde um blockbuster por nada.
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