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Febre do Rato

Por Mario Neto
A navalha passada no rosto da estagnação vigente vem transmutada em forma de poesia, poesia crua, amarga e embriagante. Causada por uma enfermidade, enfermidade que nasce para curar uma sociedade febril, é a febre de mudar, é a febre de transgredir. O suor escorre enquanto o coração estoura e a boca seca, o poeta é o sintoma e o remédio, a cidade está doente, e A Febre do Rato é a solução.O poeta Zizo (Irandhir Santos) é a personificação de toda inquietação contida nos pulsos de cada um, é a fagulha que catalisa até o mais acomodado dos sentidos. Com seu brado, usa a poesia para estilhaçar todos os costumes arranjados e padrões estabelecidos, transitando de maneira impetuosa pelas vísceras das convenções sociais e anarquizando todo e qualquer comportamento caquético regrado.Sua presença evoca em todos à sua volta, a necessidade de movimentação, o gosto pela mudança, a atração do inesperado, sempre à margem, do jeito que quer, do jeito que dá, de todo jeito, de jeito nenhum. As ações justificam os sentidos, as sensações se valem do discurso, os moldes são xerocados, recortados e reorganizados, se fazem no imediatismo corroborado pela plenitude do gozo, assim se dá o motivo.No entanto até a mais destrutiva das armas clama por um gatilho e este, para o poeta, se materializa na figura de Eneida (Nanda Costa), que aparece para infectá-lo com instigação e inflamar seus pulmões de intensidade ardente e vigorante, é a perturbação na cabeça de quem nasceu pra perturbar, a gasolina no incêndio. E a cada investida rejeitada, o vírus se espalha mais e mais, ao passo que o meio a sua volta aguarda de maneira apática algo que o subverta, e então, mais doses libidinosas de efervescência enferma, e mais apatia e indiferença do espaço social.O estágio em que a Febre não se contenta apenas com o vômito verborrágico ou com o platonismo das ações, chega ao seu pico. Agora as divagações da moléstia darão lugar à prática das ideias, o tumor vai implodir em seu centro nervoso, assim mesmo, de dentro pra fora. O ataque do lirismo apaixonado irá acontecer exatamente às vistas da população, em meio ao desfile da ordem, no momento em que a atroz vértebra da intransigência estará exibindo e destilando orgulhosamente todo seu fetiche pelo controle, estampadas com as carrancas do progresso travestido em suas fardas.

E é na movimentação pelo “direito de errar” que acontece o manifesto, emanando vivacidade na atmosfera inerte – coragem, coragem! – emancipando os corpos desnudos para que possam ser atingidos diretamente pelas palavras – pureza, pureza! – atingindo seu clímax no encontro da percepção do derradeiro e mais sensorial discurso do poeta. A reflexão que encara diretamente nos olhos de sua pungência (“Suba aqui Minha Guerra, suba aqui Minha Guerra”), com a coragem e o entendimento que só o articulador magno dos referenciais idealizados poderia fazê-lo, tudo aquilo que transbordara de suas entranhas arrebatadas se explanam naquele momento, remediando com a agulha ardida da vacina do pensamento livre o coletivo, e a si próprio.

Inevitavelmente seu algoz viciado aparece, tomando de assalto violentamente o clima harmonioso de transcendentalismo envolvente, cerceando os impulsos do pulsante porta-voz das deslumbrantes e saborosas incertezas, numa tentativa de desconstruir a capa de fulgor incitada ali. O poeta é desaparecido, mas isso já não importa, pois sua representação física não se faz mais necessário, uma vez que os ideais da Febre já consumiram os amigos e parentes, e que tendem a se tornar ainda mais virais, se espalhando pelos arcabouços da sociedade, provocando-a e estimulando seu potencial de profundidade. Ontem, hoje e sempre o poeta viverá.

Febre do Rato é preto e branco, é preto no branco, é dedo na ferida, é sangue correndo nas veias, é cara a cara, é abraço forte e soco dolorido, é grito no ouvido, beijo apaixonado e pele rasgada, é alma lavada, Febre do Rato é poder sentir, Febre do Rato é cinema, nosso cinema.

“Anarquia não pode ser Dogma!”

Esse filme não é do gênio Cláudio Assis, esse filme é meu! Esse filme é seu! Esse filme é do todo e de tudo! Viva o nosso cinema! Viva!

Febre do ratoFebre do Rato

Ano: 2011

Diretor:  Cláudio Assis.

Roteiro: Hilton Lacerda.

Elenco Principal: Irandhir Santos, Nanda Costa, Matheus Nachtergaele, Conceição Camarotti, Hugo Gila, Juliano Cazarré, Maria Gladys, Mariana Nunes, Tânia Granussi, Vitor Araújo.

Gênero: Drama.

Nacionalidade: Brasil.

 

 

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Por Mario Neto A navalha passada no rosto da estagnação vigente vem transmutada em forma de poesia, poesia crua, amarga e embriagante. Causada por uma enfermidade, enfermidade que nasce para curar uma sociedade febril, é a febre de mudar, é a febre de transgredir. O suor escorre enquanto o coração estoura e a boca seca, o poeta é o sintoma e o remédio, a cidade está doente, e A Febre do Rato é a solução.O poeta Zizo (Irandhir Santos) é a personificação de toda inquietação contida nos pulsos de cada um, é a fagulha que catalisa até o mais acomodado…

Avaliação geral

Avaliação geral

5

Sobre Mario

Comunicólogo, aspirante a cineasta, roteirista, cinéfilo apaixonado, influenciado por Kubrick, Truffaut, Bergman, Von Trier, Haneke, Irmãos Coen, Lynch, Tarantino, Glauber Rocha e Cluadio Assis, Basquiat, Banksy, Bukowski e Nietzsche, gosto de cerveja, longas discussões e desenhos animados.
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