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Meia-Noite Em Paris

Por Wallacy Silva

Woody Allen está de volta. Não que ele tenha deixado de produzir, muito pelo contrário, o diretor lança religiosamente um filme por ano já há um bom tempo. Mas também há um bom tempo o diretor não tinha uma aceitação tão grande tanto da crítica quanto do público, que talvez tenha sido vista recentemente em Vicky Cristina Barcelona (2008), com algumas ressalvas. O fato foi que o diretor teve que sair das suas locações tradicionais novamente, Nova York e Londres, sua “segunda casa”, para voltar a agradar e estar de novo sob os holofotes.

A cidade da vez é Paris. Na introdução do filme são exibidas belíssimas imagens da cidade, que parece ser mágica por si só, e o detalhe é que são mostradas primeiramente imagens da cidade durante o dia, depois do fim da tarde, até que finalmente chegam as imagens noturnas. A introdução já converge para a noite, período em que a verdadeira mágica do filme vai ocorrer. O primeiro diálogo nos traz Gil Pender (Wilson), um roteirista de Hollywood que quer escrever um romance e está em Paris em busca de inspiração, conversando com sua noiva Inez (McAdams). Gil está falando sobre como seria a Paris dos anos 20, debaixo de chuva (uma fixação do personagem, que vê na chuva um elemento romântico), e sugere que o casal se mude definitivamente pra capital da França, possibilidade refutada sempre pela sua noiva. Nos primeiros 20 minutos de filme o protagonista já citou ou falou sobre Monet, Hemingway e James Joyce. Fica claro que Gil é apaixonado pelo passado.

Logo em uma das primeiras cenas, em um jantar do casal com os pais de Inez, eles encontram por acaso um casal de amigos da noiva, Paul (Michael Sheen) e Carol (Nina Arianda), que acabam sendo convidados por Inez para todos os passeios, a contragosto de Gil. Paul é uma paixão antiga de Inez e revela-se chato e pedante. O personagem é um especialista em tudo: história, literatura, vinho, pintura… Na tela, podemos ver que nas cenas em que os dois casais estão passeando em museus, Gil é frequentemente deixado fora de campo, mostra de que o protagonista está de fato deslocado com a presença de Paul, que rouba a atenção das mulheres com suas análises de tudo. O personagem é uma metáfora da crítica de artes, que muitas vezes se baseia em fatos inverídicos ou até em deduções sem validade alguma para julgar as obras. Através da situação vivida por Gil e pelo personagem Paul, somos lembrados de que é muito importante ir primeiramente ao autor (no nosso caso, à obra) e tirar suas próprias conclusões ao invés de beber na fonte da crítica e simplesmente aceitar aquilo que é dito por ela.

Assim como Vicky Cristina Barcelona tem muitos clichês relacionados à Espanha, Meia-Noite Em Paris tem vários relacionados à França, e não vejo isso como uma característica negativa, uma vez que o filme é construído por uma série de hipérboles. Gil viaja ao passado e conhece grande parte dos artistas que estavam em Paris nos anos 20, que no filme são hipérboles vivas. A esquizofrenia de Zelda Fitzgerald (Alison Pill) chega ao ápice no filme com sua tentativa de suicídio, questionando o amor do marido, o escritor Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston). Hemingway (Corey Stoll) é corajoso, rude, beberrão e extremamente direto. Salvador Dalí (Adrien Brody), com seu característico bigode, aparece falando de maneira confusa, coisas sem sentido, numa clara brincadeira de Allen com a dificuldade de compreensão do código surrealista. Gil Pender, depois de sua primeira noite de viagem ao passado, não consegue dormir, maravilhado com a possibilidade de ter conhecido seus ídolos, e fica na cama, literalmente de olhos arregalados. Os passeios do casal Gil e Inez não são para parques ou shoppings, mas sim para museus e feiras de antiguidades. Todos os excessos, inclusive o de clichês, são benéficos para a ambientação da cidade que exala arte, e importantes para as principais cenas de humor.

Adriana (Marion Cotillard) é muito importante na história. A personagem é uma estudante de moda que já tinha namorado com diversos artistas nos anos 20. Gil a conhece e começa a gostar dela, percebendo que sua noiva Inez não faz o seu tipo, o que para o espectador é óbvio. Adriana está insatisfeita com o tempo em que vive e gostaria de viver na Belle Époque. É perceptível que ela não é a única saudosista de seu tempo, como observamos em um comentário do Hemingway, que fala sobre Picasso: “Ele é bom, mas não é Miró.”. Aos poucos Allen vai introduzindo a principal mensagem do filme. Adriana e Gil viajam novamente no tempo e vão à Belle Époque, onde Adriana decide ficar. Por lá os artistas também são saudosistas e gostariam de estar no Renascimento. A principal mensagem que o filme quer passar, como se já não estivesse clara, sai dos lábios de Gil em uma conversa com Adriana: o homem não é insatisfeito com o presente, mas sim insatisfeito com a vida.

Em alguns momentos do filme temos a sensação de que não estamos entendendo alguma coisa. Acontece que existem milhares de referências às biografias e às obras dos artistas que aparecem no filme. É o caso, por exemplo, de quando Gil sugere à Buñuel (Adrien de Van) que faça um filme que se passe em um jantar, em que as pessoas não conseguem sair da sala. A passagem faz referência ao clássico do diretor espanhol “O Anjo Exterminador” e quem não conhece o filme certamente não entende o humor de Allen no momento. De qualquer forma, o risco de perder uma ou outra piada ou referência não influencia em nada no desenvolvimento do longa.

O protagonista é o típico personagem imortalizado por Woody Allen, e Owen Wilson dá conta do recado incorporando o protagonista com todos os trejeitos do diretor. As características dele também são clássicas e recorrentes na filmografia de Allen: escritor que tem tendência de usar elementos autobiográficos na sua obra, diretor de Hollywood, paranóico, escravo do Valium, etc. O filme traz atuações seguras e não peca, sem se arriscar muito, na caracterização das cenas nos anos 20. Meia-Noite em Paris é bem-estruturado e tem um roteiro criativo, não deixando com que ninguém termine de ver o filme sem estar contagiado pela época que Gil visitou, pela mensagem que o diretor quis passar e pela linda cidade de Paris.

 

Cinemascope---Meia-Noite-Em-Paris-PosterMeia-noite em Paris (Midnight in Paris)

Ano: 2011.

Diretor: Woody Allen.

Roteiro: Woody Allen.

Elenco Principal: Owen Wilson, Michael Sheen, Rachel McAdams, Adrien Brody.

Gênero: Comédia romântica.

Nacionalidade: EUA/Espanha

 

 

 

Veja o trailer:

[youtube]TQXd_lKMceI[/youtube]

Galeria de Fotos:

Por Wallacy Silva Woody Allen está de volta. Não que ele tenha deixado de produzir, muito pelo contrário, o diretor lança religiosamente um filme por ano já há um bom tempo. Mas também há um bom tempo o diretor não tinha uma aceitação tão grande tanto da crítica quanto do público, que talvez tenha sido vista recentemente em Vicky Cristina Barcelona (2008), com algumas ressalvas. O fato foi que o diretor teve que sair das suas locações tradicionais novamente, Nova York e Londres, sua “segunda casa”, para voltar a agradar e estar de novo sob os holofotes. A cidade da…

Avaliação geral

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4

Sobre Wallacy

Letrista, paulistano, adora música, livros, futebol, redes sociais, idiomas, conversas, novidades, detalhes, interpretações e, obviamente, cinema! @wallacy13
Comentários
Juliana disse:

Acabei de assistir. Doce e encantador. Fazia tempo que eu nao me apaixonava assim por um filme do Woody Allen

Emerson Teixeira disse:

Achei Owen Wilson perfeito para o filme. Um dos melhores alter ego do Woody Allen, talvez o melhor!

azmorita disse:

bom filme, e o diretor conseguiu compensar a falta de convencimento do Owen para esse tipo de papel (ele serve mesmo é para cow-boy miniatura, tipo aqueles bonecos que vinham dentro do Toddy, kkkk)