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Ninfomaníaca – Volume 1

Por Luciana

Em uma sociedade bombardeada por imagens de conotação sexual o tempo todo (sem falar nas músicas), é irônico que um filme sobre o assunto gere tanta polêmica e espanto mesmo antes do seu lançamento. Muito já se especulou sobre Ninfomaníaca e Lars Von Trier apimentou a discussão divulgando uma sucessão de pôsteres altamente provocativos e pequenos trechos do seu filme na internet. No entanto, como esperado do diretor de Melancolia, Anticristo e Dançando no Escuro, não se trata de pornografia barata feita à custa de atores famosos. As cenas de sexo causam menos espanto do que o esgotamento emocional da protagonista.

Originalmente concebido com cinco horas de duração e dividido em dois volumes por questões comerciais (com direito a cortes de alguns closes genitais), o filme trata, nas palavras do diretor, do despertar erótico de uma mulher. Certo dia, Seligman (Stellan Skarsgård) encontra Joe (interpretada por Charlotte Gainsbourg na fase adulta e Stacy Martin na juventude) desmaiada num beco e lhe oferece abrigo. Em retorno ela, uma autodiagnosticada ninfomaníaca, decide contar a história da sua vida. No primeiro volume acompanhamos a trajetória da anti-heroína da descoberta do órgão sexual a compulsão patológica, passando pelos primeiros contatos com o prazer ainda na infância, as ilusórias aspirações românticas e o uso da sexualidade como forma de manipulação e poder.

Seligman é o seu confessor e extremo oposto, de natureza contida e, até então, assexuada. Enquanto ouve com a curiosidade distante de um intelectual, procura racionalizar e justificar as ações dela, encontrando correlações na matemática, na musica e até na pesca. A jovem Joe, que faz uma aposta com sua amiga B para ver quem transa mais em um trem, é comparada por ele às iscas artificiais usada para atrair peixes. Na melhor passagem do filme, a construção musical de Bach, baseada na polifonia, é usada para explicar a necessidade de protagonista em ter vários parceiros ao mesmo tempo para o seu equilíbrio interior. Utilizando analogias do tipo, Von Trier afasta seu filme da superficialidade, aborda aspectos significativos da deturpação da sexualidade e manipula a nossa experiência. Ficamos ao seu dispor e testemunhamos, em meio a choque e fascínio, o que acontece a uma pessoa que descarta qualquer tipo de freio moral e ultrapassa os limites do socialmente aceitável.

Como em Anticristo e Melancolia, Ninfomaníaca divide-se em capítulos, sendo cinco deles do primeiro volume. Cada um aborda uma fase distinta da vida de Joe e, essencialmente, uma discussão diferente, ainda que complementar, do tema. Igualmente interessante é a construção visual que contrapõe a artificialidade teatral do quarto que serve como confessionário com o realismo das cenas de flashback que remontam a sua juventude. Além disso, sobreposições de textos e  imagens na tela e o uso de artifícios como  split screen ajudam a enriquecer a trama.

Stacy Martin faz uma bela estreia no cinema como uma jovem sem pudores e oscilando entre o gozo, o tédio e a solidão. Skarsgård e Gainsbourg (que no primeiro volume resume-se a contar a sua estória) são sólidos como personalidades diametralmente opostas e até Shia LeBouf está convincente. No entanto, o melhor papel é desempenhado por Uma Thurman como Sr. H. Ela é uma esposa amargurada pela traição que leva seus filhos a casa de Joe para visitar o ex-marido, os guia até a “cama da prostituta” e faz chá para os amantes em meio a uma sucessão de diálogos afiados e irônicos envoltos em uma mal disfarçada cordialidade. Ela está absolutamente formidável e nos faz rir de uma situação tão absurdamente constrangedora. Aliás, o mesmo humor ácido permeia todo o filme e o público pode se surpreender ao divertir-se diante do comportamento despudorado da personagem.

O primeiro volume do épico sexual de Lars Von Trier tem muitas cenas de sexo e de nudez, mas aqui as relações sexuais são tão significativas, segundo a protagonista, quanto caminhadas monótonas a um parque. Diante da progressão da ninfomania, as chances de redenção da personagem vão esgotando-se e, ao fim da primeira parte, estamos perplexos e implorando por mais. Para o segundo volume resta esperar pelo desfecho da trajetória de Joe. Obviamente, Lars Von Trier já liberou fotos e pedaços de cenas que envolvem sadomasoquismo e ménage a trois para nos manter extasiados de curiosidade e então, mais uma vez, frustrar nossas expectativas da maneira mais brilhante.

Cinemascope-Ninfomaníaca- poster-br-Ninfomaníaca – Volume 1 (Nymphomaniac)

Ano: 2013

Diretor: Lars Von Trier

Roteiro: Lars Von Trier

Elenco Principal: Charlotte Gainsbourg, Stellan Skarsgård, Stacy Martin, Shia LaBeouf, Uma Thurman

Gênero: Drama, Erótico

Nacionalidade: Dinamarca/ Alemanha/França/ Bélgica

 

 

 

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Por Luciana Em uma sociedade bombardeada por imagens de conotação sexual o tempo todo (sem falar nas músicas), é irônico que um filme sobre o assunto gere tanta polêmica e espanto mesmo antes do seu lançamento. Muito já se especulou sobre Ninfomaníaca e Lars Von Trier apimentou a discussão divulgando uma sucessão de pôsteres altamente provocativos e pequenos trechos do seu filme na internet. No entanto, como esperado do diretor de Melancolia, Anticristo e Dançando no Escuro, não se trata de pornografia barata feita à custa de atores famosos. As cenas de sexo causam menos espanto do que o esgotamento…

Avaliação geral

Avaliação Geral

5

Sobre Luciana

Natural de Salvador, cresceu gravando filmes incríveis dos anos 80 e 90 em fitas VHS. É fã de cinema clássico e filmes noir, mas sabe apreciar uma boa comédia. Admira qualquer expressão artística que desperte os sentidos e estimule a mente. O cinema é, para ela, a arte mais completa por ser diversão, abstração, imersão, catarse, reflexão, expressão política e social, tudo junto e misturado. Atualmente mora em São Paulo e é formada em Cinema pela FAAP e Administração pela Universidade Mackenzie. Entre seus diretores favoritos estão Billy Wilder, Woody Allen, Alfred Hitchcock e John Hughes.
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