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Joel Kinnaman

Robocop

Por Luciana Ramos

Robocop, filme de 1987 dirigido por Paul Verhoeven, apresentou ao mundo um novo herói bem fora do comum: tratava-se de um policial meio máquina meio homem que ajudava a limpar as ruas de Detroit da criminalidade. Era uma sátira social extremamente debochada (e, tenho que dizer, muito divertida) que abusava da ultraviolência de braços decepados e corpos jogados de prédios para acentuar o humor. Depois de um hiato de vinte e seis anos, ele volta as telonas com muito a dizer nas mãos do diretor brasileiro José Padilha em sua primeira experiência em Hollywood.

Em 2028, a multinacional Omnicorp é a responsável pela manutenção da paz e ordem em diversos países do mundo através do uso de drones e robôs programados para detectar ameaças e detê-las. Os EUA são o único país do mundo a não adotarem o sistema, devido ao temor da população em oferecer a sua segurança a produtos tecnológicos que não são capazes de reconhecer o valor de uma vida humana. Em meio a isso, Alex Murphy (Joel Kinnaman), policial dedicado, bom amigo, pai e marido é gravemente ferido em um explosão de carro, correndo sérios riscos de vida. É então que o ganancioso CEO Raymond Sellars (Michael Keaton) tem a oportunidade que estava esperando: unir o seu produto a uma imagem que cative as pessoas a ponto de ele conseguir expandir o seu mercado em solo americano. Robocop, um homem-robô, é configurado pelo brilhante médico Dr. Dennet Norton (Gary Oldman) para ser o ativo mais valioso da polícia na medida em que une todas as funções dos drones à consciência restrita aos seres humanos (devidamente manipulada em uma espécie de cirurgia lobotômica para melhor servir aos interesses da Organização). O problema está justamente aí: por mais que tentem apagar as emoções, memórias e impulsos, o fator humano sempre estará presente e não é passível de controle, originando diversos problemas a todos os envolvidos.

O maior trunfo de Padilha foi pegar o icônico protagonista, desmontar todo o universo criado pelo filme dos anos 1980 e construir uma narrativa totalmente nova pautada nos possíveis dilemas éticos e morais da sua própria existência, assim como, em maior escala, das instituições que financiam esse tipo experimentação sem preocupar-se com os custos humanos envolvidos no processo. Trata-se, portanto, de um filme reflexivo: ele cria a sua tese lenta e dialeticamente e envolve o espectador no processo, que se pega pensando em um filme de ação, coisa rara no gênero. Claro que as mortes e explosões continuam lá, pontuadas por rock pesado e efeitos especiais, mas elas tornam-se acessórias diante do rumo que a trama toma.

Os principais questionamentos do novo Robocop incluem a ganância das corporações que fazem de tudo para conseguirem lucro e as artimanhas tanto de marketing quanto políticas usadas por elas para implementarem com sucesso e rejeição mínima o que desejam, assim como os dilemas éticos de um médico que não concorda com o tratamento conferido a Alex Murphy, mas gosta de brincar de Deus. Como subtexto, é explorado o relacionamento do policial com sua mulher Clara Murhpy (Abbie Cornish) e seu filho.

É perceptível o mesmo recurso usado nos filmes da série Tropa de Elite, em especial no segundo, de utilizar personagens com delineamentos de caráter opostos para oferecer diferentes pontos de vista sobre uma mesma questão e contrastá-los. O filme tem várias interferências de edições do programa televisivo de Pat Novak (Samuel L. Jackson), uma espécie de Fortunato americano que “debate” sobre segurança e o uso de um homem-máquina no patrulhamento norte-americano mas na verdade oferece um discurso tendencioso e manipulador que nos alerta sobre a importância e o poder da propaganda na implementação de mudanças sociais de grande porte.

Joel Kinnaman realiza um bom trabalho em utilizar o seu rosto como única ferramenta para expressar as emoções do protagonista porém, o destaque do longa fica por conta das atuações de Michael Keaton e Gary Oldman que dão densidade e impulsionam a trama através do constante embate entre eles sobre os limites aceitáveis da “desumanização” em prol do lucro.

José Padilha foi corajoso o bastante para pegar um ícone americano e reconstruí-lo de maneira a criticar, entre outras coisas, o imperialismo dos EUA. O seu Robocop consegue mesclar cenas de ação com câmeras ágeis com diálogos bem construídos. No entanto, perdeu um pouco do divertimento vindo do humor debochado do filme original, que é sentido. Ainda assim, consegue entreter e inquietar e permanecer na mente mesmo após o seu término. Um ótimo começo do diretor brasileiro em Hollywood.

Cinemascope- Robocop posterRobocop

Ano: 2014

Diretor: José Padilha

Roteiro: Joshua Zetumer, Edward Neumeier (creditado pelo roteiro de 1987), Michael Miner (creditado pelo roteiro de 1987)

Elenco Principal: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Samuel L. Jackson.

Gênero: Ação, ficção científica, Crime

Nacionalidade: EUA

 

 

Veja o trailer:

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Avaliação geral

Avaliação geral

5

Sobre Luciana

Natural de Salvador, cresceu gravando filmes incríveis dos anos 80 e 90 em fitas VHS. É fã de cinema clássico e filmes noir, mas sabe apreciar uma boa comédia. Admira qualquer expressão artística que desperte os sentidos e estimule a mente. O cinema é, para ela, a arte mais completa por ser diversão, abstração, imersão, catarse, reflexão, expressão política e social, tudo junto e misturado. Atualmente mora em São Paulo e é formada em Cinema pela FAAP e Administração pela Universidade Mackenzie. Entre seus diretores favoritos estão Billy Wilder, Woody Allen, Alfred Hitchcock e John Hughes.
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