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Tomboy

Por Joyce Pais

A infância é um tema explorado com recorrência no cinema. Talvez por se tratar de uma delicada fase na qual descobertas e vivências únicas irão definir a personalidade do jovem e adulto que seremos no futuro. Talvez por nos expor a situações que muito tem a ver com as tentativas e os erros, com os acertos e as frustrações, por ser um período em que podemos enxergar e sentir que possuímos um horizonte plenamente aberto a nossa frente.

Exibido no Festival de Berlim em 2011 e vencedor do Mix Brasil, Tomboy é um filme que conta a história de Laura (Zoé Héran), uma garota de dez anos que se muda durante as férias de verão com seus pais e sua irmã mais nova Jeanne (Malonn Lévana) para um novo apartamento no subúrbio de Paris. Assim que chega na vizinhança faz amizade com crianças de sua faixa etária, dentre elas Lisa (Jeanne Disson) que de pronto nota: “Você não é como os outros”, e quando questionada sobre seu nome, responde: “Michael”, assumindo assim uma nova personalidade perante o grupo.

A partir desse momento, Laura passa a enganar a todos e apesar de se deparar com certas dificuldades, encontra saídas pra quase todas as ocasiões. Bastante à vontade com uma identidade compatível à maneira como se enxerga, gradualmente ela vai se adaptando aos rituais que desde cedo delimitam o que são ‘coisa de menino ou de menina’.

Em sua curta filmografia, a diretora Céline Sciamma já demonstra ser uma ‘estudiosa’ da identidade no universo infantil e adolescente. Em Lírios D’água (2006), seu olhar se voltou à vida de três garotas que passavam por questionamentos relacionados à orientação sexual, autoafirmação perante pressão social, negação do próprio corpo – dramas que poderiam ser comuns a qualquer pessoa que passa por essa fase.

O trabalho de Sciamma além de seguir uma nítida linha de raciocínio faz um exercício de observação. Seus longos planos são colocados sempre com um propósito definido, nada é dispensável, tudo tem um porquê de estar ali. A cada cena juntam-se as peças do quebra-cabeça que é o conflito interno de Laura. Sem julgamentos ou explicações simplistas, a diretora nos presenteia com cenas tocantes, não pelas lágrimas derramadas (que nesse caso nem chegaram a acontecer), mas pela beleza e riqueza simbólica empregadas na relação das duas irmãs, por exemplo. Interessante notar a contraposição entre as reações da mãe de Laura e a de Jeanne quando descobrem a farsa de Laura/Michael; numa atitude muito arriscada, a mãe expõe a garota perante os vizinhos e a Lisa, por quem nutre sentimentos mais complexos do que amizade.  Já sua irmã, apesar do choque inicial, comenta com orgulho que gosta de ter um ‘irmão’ mais velho porque pode ser defendida quando alguém a provoca.

Tomboy consegue capturar a essência de uma liberdade sexual que nunca mais voltará a ser sentida na vida. Tomboy é sobre as possibilidades que estão a nossa frente quando somos crianças, é sobre a inocência no seu sentido mais puro. Sciamma nos faz querer adentrar mais o seu mundo, e eu já espero ansiosa por isso.

 

Cinemascope---Tomboy-PosterTomboy

Ano: 2011.

Diretor: Celine Scianma.

Roteiro:Celine Scianma.

Elenco Principal: Zoé Héran, Malonn Lévana, Jeanne Disson, Sophie Cattani.

Gênero: Drama.

Nacionalidade: França.

 

 

 

Veja o trailer:

Galeria de Fotos:

 

Por Joyce Pais A infância é um tema explorado com recorrência no cinema. Talvez por se tratar de uma delicada fase na qual descobertas e vivências únicas irão definir a personalidade do jovem e adulto que seremos no futuro. Talvez por nos expor a situações que muito tem a ver com as tentativas e os erros, com os acertos e as frustrações, por ser um período em que podemos enxergar e sentir que possuímos um horizonte plenamente aberto a nossa frente. Exibido no Festival de Berlim em 2011 e vencedor do Mix Brasil, Tomboy é um filme que conta a…

Avaliação geral

Avaliação geral

4

Sobre Joyce

Fundadora e editora do Cinemascope, jornalista, paulistana, fotógrafa, apaixonada por David Lynch, Pedro Almodóvar, Marilyn Monroe e café.
Comentários
Fernanda disse:

Nem preciso dizer o quanto esse filme me tocou. é uma sacudidela para que todos acordem e vejam que a coisa existe e pode acontecer com qualquer um. Se pensarmos nas coisas, que apesar de toda a “informação”, toda a luta, ainda acontecem com as pessoas que fazem escolhas diferentes. O olhar do outro na maioria das vezes é carregado de preconceitos, verdades, e ideologias que acusam, ofendem, oprimem quem fez a sua escolha. A escolha o que não é “banal” em todos os aspectos, e épocas está carregada de coragem e inseguranças… Mas nada paga o preço de poder ser “você mesmo”. Achei de uma sensibilidade enorme a forma que ela abordou o tema, e o mais bonito é a simplicidade da coisa, nada de enfeites, nada de frescuras e dedos. É importante mostrar simples e comum, ou até mesmo “normal” o que queremos que as pessoas encarem assim… Simplesmente está na minha lista de favoritos 😉

Gualberto Gouvêia disse:

Um filme que pode produzir incômodos. Quando temos nossos filhos estamos atentos à sua orientação sexual? De alguma forma esperamos algo deles e, assim, inibimos suas escolhas?
Outros filmes, como esse que é ótimo, tratam do tema: “XXY” e “Minha Vida em Cor de Rosa” são exemplos.
Esse é um tema ainda muito a ser explorado e discutido. Até 40 anos atrás a homossexualidade era classificada como doença mental em alguns países (EUA entre eles). Muito se avançou em termos de tolerância mas muito há que se avançar. As crianças, principalmente, agradecerão quando puderem ser simplesmente o que quiserem.

Um filme lindo, delicado e surpreendente!
Fiquei mt frliz com o tratamento dado para esse tema e a complexidade q existe. Nao pela homossexualidade, mas por ser crianças…
A entrega dos atores, a forma brilhante de como foi dirigida e levou a brilhante atuação da menina, me surpreenderam!
Super recomendado!

Yael disse:

Quero uma filha igual a Jeanne! Gostei do filme, achei surpreendente primcipalmente por dirigir tantas crianças e conseguir cenas tão naturais.