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Cinemascope - Adele Exarchopoulos

Coletiva Azul é a Cor Mais Quente

Texto e Foto por Joyce Pais

Há uma semana do lançamento de Azul é a Cor Mais Quente no Brasil, o diretor Abdellatif Kechiche e os atores Adèle Exarchopoulos, Jérémie Laheurte e Mona Walravens vieram a São Paulo e Rio de Janeiro para divulgar o filme e participar de pré estreias com os fãs. Nós, do Cinemascope, estivemos presentes na coletiva de imprensa que aconteceu ontem (29) no Reserva Cultural e pudemos ouvir mais a respeito do vencedor da Palma de Ouro, em Cannes.

Praticamente uma anônima antes do sucesso de Azul é a Cor Mais Quente, Adèle contou como se interessou por teatro e como fazer esse filme mudou o rumo de sua vida: “Com oito anos comecei as aulas de teatro para brincar, sentir prazer em fazer as aulas com os amigos, tive a sorte de uma diretora de elenco ter me visto nas aulas e ter indicado para algumas seleções de elenco, nas quais às vezes eu passava, às vezes não. Lembro de quando decorava os textos no metrô e conseguia alguns pequenos papéis em filmes. Quando chegou a oferta do Azul é a Cor Mais Quente, eu faria uma prova (equivalente ao Enem no Brasil), desisti de fazer e não arrependo.”

Adaptado livremente do HQ “Le Bleu Est Une Couleur Chaude”, de Julie Maroh, Kechiche não conversou com a autora em momento algum, pois queria atribuir a história sua própria visão, Eu transformei a historia, é diferente no conteúdo, no HQ a protagonista morre no final, ela conta uma história diferente, às vezes até o oposto do filme, no âmbito da personalidade das personagens, por exemplo, a de Adèle é o oposto do que ela é na história em quadrinhos”. Exarchopoulos afirma ter tido contato com a HQ no momento da seleção de elenco e ao conversar com o diretor a respeito de como seria a adaptação, “O que eu considero um ponto em comum é o encontro que acontece e que vai colocar a vida da personagem ao avesso, eu acho que a gente sentiu muita liberdade, a gente sentiu o direito de fazer diferente”.

Apesar das perguntas terem se concentrado em sua maioria nas cenas de sexo e na relação das protagonistas, outro ponto relevante foi comentado – a participação política do jovem na França atualmente. Ao serem questionados sobre a fidelidade do retrato dessa juventude francesa, o trio de atores respondeu que o sentimento de coletividade prevalece e que eles, de fato, descem às ruas por motivos diversos. “É bem representativo da juventude essa quase mania de descer pra manifestar, às vezes por qualquer pretexto e às vezes enquanto aluno, só pra faltar a aula, no Japão eu sei, por exemplo, que não é permitido, as pessoas nunca fazem greve ou manifestam. Na França a gente tem um gatilho, manifesta por quase nada, mas mostra mesmo assim a implicação e o engajamento do jovem na sociedade”, disse Jérémie Laheurte.

Mona Walravens apontou também uma relação entre o amor das protagonistas e a juventude: “O que me parece representativo é o traço da relação entre Adèle e Emma que representa, de certa forma, os jovens de hoje na França, o fator que separa as duas, talvez não seja apenas uma diferença de níveis sociais, mas também um certo individualismo presente. Talvez para Emma essa relação tivesse sido necessária em um dado momento, mas depois ela retoma o seu caminho que está bem traçado, ela continua seguindo sua vida e pronto”.

As perguntas sobre a longa cena de sexo presente no filme foram inevitáveis, sobretudo a respeito de sua duração, Abdellatif Kechiche foi enfático:

A crítica dividida sobre a duração dessa cena de sexo corresponde a uma visão da nossa época, um comentário da nossa época, que gosta de medir esse tipo de cenas. Eu acho que na verdade num contexto histórico, na historia do cinema, sempre houve esse tipo de relação, quando mostraram na telona o primeiro beijo, o primeiro seio. Eu faço em pano de fundo em uma das cenas uma alusão a Louise Brooks, em Diário de Uma Garota Perdida, lembrando, ecoando, o escândalo que foi falar de uma lésbica. Eu acho que esses comentários talvez sejam um pouco bobos, para colocar isso em perspectiva, espero que daqui a alguns anos quando a gente se voltar pra esse filme, vamos ver que isso foi uma polêmica que correspondia a época, espero que daqui a alguns anos, sobrem outros tipos de comentários.”

O diretor mantém um diálogo com a sua filmografia, imprimindo seu estilo, evidenciado em sus escolhas estilísticas: “O que estou tentando fazer é encontrar a minha própria escrita, o meu próprio ritmo, o que ritma as minhas cenas é o ritmo da minha respiração. O que pode também perturbar, desviar, é o fato de que eu escolho cenas compridas, o que não é muito comum, não só apenas a essa cena de sexo, mas cenas com a da refeição no O Segredo do Grão, cenas de conversas, aulas, ou de amor. Mas talvez o problema esteja mais para os críticos de cinema que assistem muitos filmes, para os quais uma ruptura de ritmo vai perturbar mais do que espectadores que na verdade talvez sejam mais abertos a esse tipo de ruptura”.

Apesar da exposição dos corpos das atrizes, impossível não destacar os inúmeros closes no rosto de Adèle e suas diversas expressões, que vão do prazer ao sofrimento. Para isso, o diretor contou com o trabalho de sua Diretora de Arte, “Estamos tentando da melhor maneira destacar o que não pode ser dito, por isso eu vou filmar, nesse caso, essa atriz dormindo, porque no sono, nas lágrimas ou nos risos, na multiplicidade de expressões humanas que há, é possível mostrar essas emoções e se elas me tocam, eu espero que ela toque o espectador da mesma forma”. Kechiche completou ainda que

É preciso encontrar uma expressão para o que não pode ser dito com palavras, filmar rostos, filmar pele, filmar os lábios, isso expressa muita coisa, e eu não escolho isso antes de filmar, acontece no dia a dia do set, eu vou tentando encontrar a melhor maneira de expressar o que não pode ser passado em palavras, é uma discussão sobre qual  é o melhor ângulo, pra que eu consiga fazer com que a pele vibre que as expressões vibrem”.

Mesmo com o amor latente entre Adèle e Emma, um possível  final feliz é comprometido por conta das origens e classes sociais das personagens, que vão se tornando com o passar do tempo um entrave na relação. “Na verdade eu filmei uma história de amor e faz parte do amor atração física, o tesão, o desejo, o que acontece entre essas duas mulheres é que o amor não resiste a diferença social entre ambas,  elas são de dois mundo bem afastados e tem raízes, pertenças, muito sólidas cada uma em seu mundo”, comenta o diretor.

Sobre o fato de Adèle querer ser professora primária, Exarchopoulos assume: “Eu achei isso fofo, eu me apeguei a esse aspecto, porque é uma paixão, um desejo que ela tem, que vem de uma convicção que a agrada, e é legal ela encher o cotidiano dela de crianças, de tentar transmitir o seu conhecimento a elas. Eu mesma lembro das aulas, eu pensava que o professor sentia o mesmo sono, o mesmo cansaço que a gente e mesmo assim procurava nos transmitir uma vontade, um conhecimento”.

Desde que saiu de Cannes laureado com o prêmio máximo, a Palma de Ouro, Kechiche vem recebendo uma série de críticas, vindas principalmente de grupos feministas, relacionadas à sua abordagem e a forma como escolheu retratar essa história de amor, ele rebate:“É uma generalização de pessoas que se dizem representantes do movimento feministas, eu não entendi o foco dessas pessoas, são criticas vazias. Além do vazio, elas são um pouco sem sentido, porque teria que definir o que seria um olhar feminino, um olhar masculino, na mentalidade delas, o que seria certo. Você dizer que existe um olhar correto, um olhar certo, é você trancar esse amor numa camisa de força por uma questão de preferência sexual, cada um sente, tem um olhar próprio, é um olhar, é o meu, o filme é uma historia de amor, então eu não sei em que tom deveria ser filmado, mostrado, contado. O que eu tentei passar: o amor vem e é em primeiro lugar. É o argumento de feministas um pouco agressivas que não suportam, no fundo, que um homem pode contar uma história de duas mulheres, eles devem achar que é um direito exclusivo delas, acho que enquanto artista, enquanto diretor, eu tomei a liberdade de contar essa história”.

Sobre uma possível continuação, Kechiche encerra: “Eu me apeguei a essa personagem, eu gostaria de revê-la ao longo de sua vida, aos 30, 40, 50, passando pelas provações que a vida vai colocando em seu caminho, vendo os amores que ela vai viver, eu imagino isso, então, talvez”.

Veja as fotos da coletiva:

Sobre Joyce

Fundadora e editora do Cinemascope, jornalista, paulistana, fotógrafa, apaixonada por David Lynch, Pedro Almodóvar, Marilyn Monroe e café.
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