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Louis Garrel

Louis Garrel vem ao Brasil para divulgar “Dois Amigos”, sua estreia na direção

Por Joyce Pais

Sex symbol, narcisista assumido e ator fetiche do diretor Christophe Honoré (Em Paris; Canções de Amor), Louis Garrel, que pertence a uma família de atores e cineastas, veio ao Brasil divulgar Dois Amigos (Les deux amis), sua estreia na direção. Bromance à francesa, a dramédia (mistura do cômico com o drama) alterna os dois gêneros para retratar a relação de amizade entre dois homens na faixa dos trinta anos, porém, extremamente imaturos. Para ele, era “legal a ideia de alguém olhar pelo buraco da fechadura para ver os dois amigos”. Garrel falou, em coletiva de imprensa, sobre as responsabilidades de assumir a direção, a reputação dos filmes franceses e seus planos futuros.

Na tentativa de fugir de um roteiro clichê, o diretor convidou Honoré, com quem já trabalhou inúmeras vezes como ator, para contribuir na construção dos diálogos e criação de situações originais. Segundo ele, Honoré tem “uma relação com a declaração sentimental muito pudica, muito sentimental”, o que se ajustava com a sua visão do longa, “não queria que fosse um filme de camaradas, e sim de amigos”, completa. Numa comparação bem humorada com a relação entre R2D2 e C3PO, personagens da saga Star Wars, Garrel afirmou que “Quando a gente faz um filme normalmente sobre um homem de 30 anos, você tem um homem que confronta a ideia do seu destino e de como ele está se transformando pra ser um homem, e eu quis fazer um filme sobre dois homens que queriam continuar crianças”.

Inspirado pelos filmes de Nanni Moretti e pelas comédias italianas, as quais, em sua percepção, “falam do país com mais carinho e as críticas são mais suaves”, Garrel buscou, também, no teatro referências para a trama de Dois Amigos. Quando tinha 15 anos de idade, atuou na peça “Les Caprices de Marianne“, cuja história era a de um menino que não consegue conquistar uma garota e, por isso, pede ajuda a seu amigo. “Quando você é jovem sempre pede ao amigo. Quando a gente faz é aí que os problemas começam”, diz rindo.

Seu avô, Maurice Garrel, que também é ator, foi uma figura importante em sua imersão no teatro. No entanto, Louis é direto e afirma, categoricamente, que não tinha prazer nenhum em fazer teatro. Mesmo assim, continuou por longos anos, o que lhe rendeu profundas crises de angústia, muitas delas aconteciam em cena, na frente dos espectadores. Ele também surpreende ao comentar que, ao contrário do que muitos imaginam, os filmes franceses não têm uma boa reputação perante ao público na França e completa, “filmes de atores hoje quer dizer filmes chatos”.

Sobre a escolha pela atriz iraniana Golshifteh Farahani, que no filme é alvo de interesse dos amigos, Garrel acredita que ela tenha recuperado toda a força que teve em sua carreira e se entregou ao papel de uma forma libertadora. “Pedir para uma atriz não francesa ser protagonista é uma forma de manifesto para uma sensualidade internacional”, conclui. Vale relembrar que Farahani foi proibida de fazer filmes e voltar ao Irã após posar nua na revista francesa Le Figaro Madame.

Pode soar um paradoxo, mas a encantadora e romântica Paris, enquanto locação, foi um enorme desafio no processo de produção do filme. “A dificuldade de filmar em Paris é a de filmar o que nunca foi filmado. Quando eu filmava o meu desafio era de fazer os parisienses não reconhecessem a cidade. A pior coisa quando você assiste a um filme é você reconhecer todos os pontos de filmagem. Tiveram filmes que me fizeram desejar voltar a Paris”, argumenta.

Na cena que encerra Dois Amigos, há uma conversa bastante direta entre os dois personagens, para a qual Garrel assume ser autobiográfica, “quando estou em situações em que não sei o que pensar, eu convoco espíritos de vários amigos meus, eu acho que poderiam me esclarecer”. Em sua filmografia não foram raros os filmes que continham personagens e relacionamentos inseridos numa perspectiva homoafetiva. Questionado sobre o porquê dessa reincidência temática, encerra: “Eu nunca fiz um filme onde eu segurava a arma. Sou 100% hétero e 49% gay.”

Sobre Joyce

Fundadora e editora do Cinemascope, jornalista, paulistana, fotógrafa, apaixonada por David Lynch, Pedro Almodóvar, Marilyn Monroe e café.
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