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Luzes da Cidade

Por Magno Martins

Cinemascope - Especial Chaplin Luzes da Cidade 1Após o sucesso de O Circo, Charles Chaplin começou a sentir a pressão de uma nova etapa do processo de evolução cinematográfica: o Cinema Falado. Para se ter uma ideia, em 1929, mais de 51% dos filmes produzidos nos EUA já abordavam o som em suas produções. Com isso, o público começa a se interessar cada vez mais pela novidade e diversos diretores, atores, atrizes, roteiristas se viram obrigados a mergulharem nessa evolução. Foi um momento crítico para muitos, já que nem todos se adaptaram. Mas aqueles que se esforçaram para migrar seus trabalhos para o cinema falado conseguiram notoriedade, já que tudo era novidade.

Como já acompanhamos até o momento nesse especial de Charlie Chaplin, sabemos exatamente o quanto ele era persistente em suas convicções. E sim, Chaplin foi um dos diretores que mais evitaram o cinema falado. Mesmo diante da repercussão do sucesso do cinema falado, Chaplin se resguardava e defendia sua visão cinematográfica, e uma de suas famosas frases sobre o cinema falado é: “O som aniquila a grande beleza do silêncio.”

Com a produção de Luzes da Cidade, Chaplin foi cauteloso com relação à implementação do som em seu novo filme. Ele conseguiu fazer com que Luzes da Cidade tivesse, ao mesmo tempo, a essência do cinema mudo com algumas implementações simples e ponderadas do cinema falado: os diálogos dos personagens eram apresentados em um formato de letreiros, a trilha sonora tinha música sincronizada, foram implementados alguns efeitos sonoros e, no início do filme, alguns sons ininteligíveis que zombavam padrões de fala. Ao invés de mergulhar de cabeça como outros diretores, Chaplin foi com cuidado, passo a passo, experimentando o que o cinema falado influenciaria no seu trabalho como diretor, roteirista, ator e produtor. Sua atitude, de certa forma, foi bem pensada, afinal, mesmo sendo considerado “teimoso” Chaplin sabia que tinha uma carreira a zelar e não queria ver sua arte cair em um precipício, como aconteceu com diversos profissionais do cinema que não conseguiram se adaptar as mudanças.

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Chaplin dirigiu, escreveu e atuou de forma brilhante (como sempre) em Luzes da Cidade. O filme, lançado em 1931 mostrou, mais uma vez, o talento de Chaplin de ver a vida com outra perspectiva. O filme conta uma nova história do Vagabundo (que mais uma vez não tem dinheiro, tão pouco onde viver) que se apaixona por uma pobre e cega florista (Virginia Cherrill). Por ser deficiente visual, a florista imagina que o Vagabundo seja um milionário e que vai ajuda-la a recuperar a visão. Para não desiludir a pobre garota, o Vagabundo age como tal milionário, apenas para poder ficar perto dela e tentar ajuda-la de alguma forma.

Com esse fato, claro que Chaplin implementaria boas doses de comédia na produção do longa. O Vagabundo salva um milionário (Harry Myers) de um suicídio e, a partir disso, se tornam grandes amigos. Porém, o milionário só recorda da existência do Vagabundo apenas quando está bêbado. Ou seja, quando estava sóbrio, ele não se lembrava mais do amigo e nem do que aconteceu enquanto estava bêbado.

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Ao descobrir que a pobre florista cega está prestes a ser despejada de sua casa junto com sua avó (Florence Lee), Chaplin começa a se movimentar para ajudar seu amor: ele começa a trabalhar como gari para ganhar dinheiro (até como lutador de Boxe o pobre Vagabundo se meteu). Ao ver seu amigo trabalhando como gari, o milionário oferece para ele US$ 1.000,00 para que ele pudesse ajudar nas despesas do aluguel e ainda pagar a cirurgia que devolveria a visão para a florista. Mas como o milionário o ajudou quando estava bêbado, logo deu falta do dinheiro e acusou o Vagabundo de furto, mas felizmente, antes de ir pra cadeia, o Vagabundo entregou o dinheiro para a florista e disse para ela que voltaria dentro de alguns meses.

A partir desse ponto que a trama se desenrola. Luzes da Cidade mostra toda a importância da simplicidade, da humildade e da sabedoria de vida, onde a amizade, a gratidão e a compaixão são elementos fortes na vida das pessoas que, infelizmente, passam despercebidos por muitos de nós. Chaplin certamente tinha o dom de visualizar diferentes situações em outras perspectivas, muitas vezes mais humanas do que racionais, mostrando ao público e a crítica a razão e a importância do cinema, independentemente se era mudo ou falado: filmes devem tocar as pessoas, ser mais do que um entretenimento ou competição de valores tecnológicos.

Cinemascope - Especial Chaplin Luzes da Cidade 4E, claro, Luzes da Cidade é um grande sucesso na carreira de Chaplin. Mesmo com todo o seu perfeccionismo no ambiente de trabalho (ele chegou a rodar 342 vezes a cena em que o Vagabundo compra uma flor da florista), chegando a demitir no final da produção a atriz Virginia Cherrill pelos seus atrasos e a recontratando posteriormente (com a condição imposta pela própria atriz de aumento de salário em 100%), Chaplin transformou Luzes da Cidade uma das maiores produções de sua carreira. Luzes da Cidade foi uma das maiores estreias de 1931, tornando-se um grande sucesso de público e de crítica. Grandes personalidades como Albert Einstein e Bernard Shaw estiveram presentes na estreia de Luzes da Cidade nos Cinemas. Além disso, Luzes da Cidade está presente em diversas listas de melhores filmes de conceituados diretores como Orson Welles, Stanley Kubrick, Federico Fellini e Woody Allen.

E mais uma vez, Chaplin conseguiu mostrar ao mundo que o seu dom era indiscutível, independentemente das novas vertentes e evoluções cinematográficas. Luzes da Cidade mostrou ao mundo que Chaplin superaria qualquer obstáculo para mostrar o melhor de seu trabalho e que se mantinha fiel aos seus princípios e convicções. O filme foi o primeiro passo para seu trabalho posterior, que marcou definitivamente tanto a carreira de Chaplin quanto a sociedade: Tempos Modernos.

Confira o trailer de Luzes da Cidade:

Sobre Magno

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