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Cinemascope - Adoravel pecadora

Adorável Pecadora

Por Joyce Pais

Depois do sucesso de Quanto mais quente melhor (1959), do prêmio de Melhor Figurino Preto e Branco ganho no Oscar e a indicação de Marilyn ao Globo de Ouro na categoria Melhor Atriz, muitas expectativas, por parte do estúdio, dos fãs e da imprensa foram depositadas em Adorável Pecadora (Let’s make love; 1960). Baseado num roteiro banal, o longa gira em torno de Jean-Marc Clement, um bilionário frânces radicado nos EUA, que descobre pelo seu relações públicas, Coffman, que sua fama de mulherengo será satirizada numa peça off-Broadway. Quando chega no teatro para assistir o ensaio, ele avista Amanda Dell (Marilyn Monroe) representando a música “My Heart Belongs to Daddy” e, de cara, se apaixona perdidamente por ela. Ao ser confundido como um dos candidatos ao papel de Clement, o verdadeiro Clement acaba entrando na peça com o nome de Alexander Dumas, seu objetivo era conquistar Amanda sem ela saber que ela é rico e, assim, se aproximar por afinidade. Dessa forma, ele usa seu poder para comprar piadas de um escritor famoso, contrata Milton Berle para ensinar-lhe números cômicos, Bing Crosby para cantar e Gene Kelly (ambos interpretados por eles mesmos) para dançar.

Marilyn, nessa época, se dividia entre suas visitas à psicanalista em Manhattan e a tranquilidade da casa de campo em Connecticut, ela havia interrompido suas aulas com Strasberg e se distanciado do Actor’s Studio, muito provavelmente por influência de seu marido Arthur Miller. Antes de Adorável Pecadora, a atriz foi convocada pela Fox para fazer o filme dirigido por Elia Kazan, Time and Tide, mas, ao final, não foi selecionada. Seus advogados travaram uma batalha na justiça exigindo indenizações pelos dois filmes com os quais isto ocorreu, o já citado Time and Tide e o O anjo azul, por conta disso, a Fox a liberou de um dos três filmes que ela devia ao estúdio.

Nesse interím, John Huston aceita dirigir os Desajustados (The Misfits; 1961), com a condição de que Miller reescrevesse o roteiro e o reduzisse. O escritor almejava dar, finalmente, a sua esposa um papel a sua altura, bem diferente dos estereótipos que marcaram dua carreira. Para isso, ele instalou-se no campo, enquanto ela ficou sozinha em Manhattan. Um acidente com barbitúricos resultou em uma hospitalização e numa lavagem estomacal. Ao tomar conhecimento do fato, a FOX pretendia levá-la ao tribunal mais uma vez, por fim, em agosto de 1959, a empresa concordou oficialmente com as exigências da atriz; ela devia somente mais dois filmes.

O projeto de Adorável Pecadora já estava em andamento, Cukor seria o diretor e Gregory Peck o par de Marilyn, ela foi a Los Angeles para encontrar os produtores e fechar o acordo. No final do verão, o roteiro de Os Desajustados estava finalizado e aprovado por Huston, enquanto isso, Marilyn também tentava o papel no filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s: 1961), ela figurava entre o grupo seleto de amigos do escritor Trumam Capote e como uma das prováveis atrizes que poderiam dar vida a Holly Golightly (quem quiser saber mais sobre todo o processo de construção de Bonequinha de luxo, clique AQUI).

Insatisfeita com o roteiro, exigiu que o enredo fosse trabalhado pelo seu marido (que, por sua vez, exigiu que fosse em segredo), por uma quantia de 15 mil, quando ele o finalizou dando mais foco a Marilyn, Peck desistiu, alegando que seu papel fora minimizado. Alguns atores foram sondados, até que Miller pensou então em Yves Montand, o qual conhecia de Paris e Nova York, seu inglês não era bom, mas com um pouco de treino com sua mulher, Simone Signoret, esse problema estaria resolvido. Apesar de estar farta dos papéis que fazia, a atriz contratou o coreógrafo Jack Cole para dirigi-la na dança cantada “My heart belongs to daddy”, um dos destaques do filme. Destaque para a temática, my heart belongs to daddy (como ela chamava da vida real seus maridos), ele é dono do seu coração e a impede de andar por aí com os rapazes que a desejam.

O drama envolvendo o processo e filmagem foi o de sempre: atrasos, faltas, remédios, erros, problemas. A proximidade da dupla de protagonistas começou a gerar burburinhos sobre um possível caso amoroso entre eles que, posteriormente, na ausência de Signoret e Miller, aconteceu de fato. Certa vez a atriz disse a imprensa que Montand era o homem mais sedutor que conheceu depois de Miller e de Marlon Brando. Ela encontrou em Montand um parceiro, dividiam o mesmo pavor diante das câmeras, a cumplicidade entre o casal francês e ela, lhe proporcionou algo inédito: um set de filmagens acolhedor.

Durante as filmagens do longa, Marilyn pagava uma senhora para cruzar o país e descolorir o cabelo dela, embora haviam técnicas muito mais sofisticadas, o que lhe fascinava era ouvir as história que a senhora contava sobre quando trabalhava com Jean Harlow, e também descoloria o cabelo da estrela dos anos 30, Marilyn a tinha como ídolo desde pequena e se deslumbrava com os detalhes que ouvia.

Adorável Pecadora ironiza sua época ao imitar Callas, Elvis e ridicularizar Clement por ser rico, Marilyn encarna uma jovem moderna e descontraída responsável pelos melhores momentos da trama. O filme efetua uma transição de época, com o surgimento de uma representação mais despojada, mais coreográfica, em direção a comédia musical que se desenvolverá nos anos 60.

Veja o trailer:

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Sobre Joyce

Fundadora e editora do Cinemascope, jornalista, paulistana, fotógrafa, apaixonada por David Lynch, Pedro Almodóvar, Marilyn Monroe e café.
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