Por Lívia Fioretti

François Truffaut, nome já conhecido no mercado cinematográfico por suas críticas, dirigiu seu primeiro filme em 1959. Os Incompreendidos possui como nome original, Les quatre cents coups, que significa a expressão popular “pintar o sete”,  em francês.

A obra conta a história de um menino parisiense de 13 anos chamado Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud, ator que participou da sequência de 5 filmes da personagem), que possui uma vida doméstica disfuncional. Sua mãe é adúltera e seu padrasto se exime da responsabilidade da educação graças a falta de laços sanguíneos. Compreendendo que não possui uma família estabilizada, o menino busca conforto no cinema e na liberdade das ruas parisienses, sendo obrigado a cometer pequenos delitos ao fugir de casa. É interessante ressaltar que Truffaut espelhou muito de sua própria infância na obra (o autor fugiu de casa e roubou uma máquina de escrever para começar a ganhar dinheiro), imprimindo a necessidade de desabafar e falar de suas angústias, elementos muito presentes em sua filmografia.

Os incompreendidos

O filme é considerado pelo próprio como sua obra prima e mesmo não inaugurando a Nouvelle Vague, reforçou claramente o conceito do cinema de autor, que afirma que todo diretor necessitava de uma marca pessoal que o definisse. Os Incompreendidos foi dedicado a André Bazin, um dos fundadores da revista Cahiers du cinéma, meio de divulgação que disseminou o movimento. Tal fato também se deve graças ao crítico ter tirado Truffaut do reformatório, situação retratada no filme.

A relação com a Nouvelle Vague vai muito além da amizade com André Bazin. Truffaut desprezava o cinema francês conservador da época e acreditava que era possível fazer grandes obras cinematográficas longe dos estúdios e com um orçamento coerente, características que são muito evidenciadas na obra. Os Incompreendidos possui muitos planos sequência longos e primeiros planos extremamente significativos, que eram utilizados majoritariamente para a demonstração das emoções e sentimentos de Antoine. A fotografia é revolucionária, considerando que foi utilizada pouquíssima luz artificial. Uma observação importante é o fato de Paris ser uma das grandes personagens da obra, interferindo diretamente na narrativa graças às inúmeras sequências externas retratas na cidade. Além da utilização de uma nova tecnologia de câmeras, que pudessem fazer travellings mais leves, houve também a inovação no fato de ter sido inteiro dublado, eximindo da necessidade de equipamentos caros de som.

Os incompreendidos

Os Incompreendidos não pode deixar de ser caracterizado como um filme triste, graças as grandes doses de sensibilidade usadas pelo autor na referência à estrutura familiar. Mas também não é um dos marcos da Nouvelle Vague a toa, retratando a vida de um pré-adolescente perdido que encontra conforto na sétima arte. Agora, seria esse menino Antoine Doinel ou François Truffaut?

Veja o trailer: