Por Jenilson Rodrigues

Certa vez me deparei com uma matéria de jornal que destacava a seguinte pergunta: por que ler os clássicos? A autora do texto se referia nesse caso à literatura. Se pudéssemos adequar a questão ao cinema, eu diria que é necessário revisitar e assistir aos grandes clássicos, não só para contemplar belas produções de grandes diretores ou por nostalgia, mas para entender como o cinema está interligado em toda a sua história. Seria uma forma de reconhecer que os gênios do cinema atual não seriam tão geniais e algumas produções do século XXI não causariam o mesmo impacto caso não tivessem como referência o trabalho de diretores como o italiano Sergio Leone.

Em Três Homens em Conflito, o cineasta conseguiu criar toda uma atmosfera emocionante e intrigante ao mesmo tempo, principalmente graças às grandes atuações de Clint Eastwood, Eli Wallach e Lee Van Cleef unidas à incrível parceria com o talentosíssimo maestro e compositor Ennio Morricone, responsável pela trilha de outros filmes de Leone, do gênero chamado de Western Spaghetti.

No filme – originalmente chamado The Good, The Bad and The Ugly – Clint Eastwood é conhecido simplesmente como Blondie. Apresentado na história como The Good, é um personagem que cria as próprias leis, salvando criminosos do enforcamento em praça pública, após ele mesmo tê-los entregado as autoridades e recebido por isso sua recompensa. É uma forma de se dar bem em cima da justiça e dos criminosos com quem ele fazia um acordo de liberdade em troca de metade da recompensa para cada lado. Seus planos mudam quando um desses criminosos, – Tuco, The Ugly, um grande caloteiro que só pensava em si mesmo – atravessa o seu caminho.

Cinemascope - Três Homens em Conflito

Forçadamente unidos pelo destino, ambos tomam conhecimento de um valioso tesouro enterrado, mas cada um sabe apenas uma parte da localização do dinheiro. Assim como o cruel assassino Sentenza, The Bad, um mercenário que estando a par do mistério, também segue à caça do tesouro, porém, alheio a Tuco e Blondie.

Além da trama bem elaborada, o ritmo desse faroeste é algo bem característico. Algumas cenas são pautadas mais pela interpretação dos atores e sua expressão corporal do que pelos diálogos. A tensão do olho no olho e a impossibilidade da mentira, o barulho dos sapatos no piso de madeira e a astúcia do dedo rápido no gatilho fazem com que o espectador fique ligado a todo o momento, ansiando pelo que virá na sequência.

Outro diferencial da trilha sonora é que a música principal é tão marcante que em determinados momentos do filme é necessário apenas um trecho da canção, que funciona como uma vinheta, para anunciar momentos importantes que estão por vir, ou para concluir passagens inesquecíveis do roteiro. Uma sincronia perfeita e um trabalho realmente notável.

É um dos faroestes mais incríveis já produzidos que não se resume apenas a duelos e disputas por dinheiro e mulheres. O filme penetra profundamente nas relações humanas traçando um perfil de três sujeitos que, cada qual a seu modo, fazem aquilo que acham certo para conseguirem o que querem. Uma reflexão sobre onde cada escolha pode levar alguém na sua trajetória de vida e quais são as recompensas por cada decisão tomada nesse caminho e, ainda, sobre o valor que um segredo pode ter e o quanto em algumas situações mesmo a pessoa mais individualista pode depender de outro para alcançar seu objetivo.

Cinemascope - Três Homens em Conflito1

VOCÊ NÃO SABIA QUE…

– Até em produções mais recentes, como em alguns filmes de Tarantino ou na ótima série televisiva Breaking Bad vemos muitas referências, diretas ou indiretas a esse clássico de 1966.

– Três Homens em Conflito é o terceiro filme da trilogia de Sergio Leone com a participação de Clint Eastwood, a dupla também trabalhou junto em Por Um Punhado de Dólares (1964) e Por Uns Dólares a Mais (1965).

– O modesto orçamento de Três Homens em Conflito foi de US$ 1,3 milhões.

– Durante as filmagens dois dos protagonistas correram sério risco de vida. Na cena do trem, Eli Wallach por poucos centímetros não teve sua cabeça esmagada nos trilhos. E na explosão da ponte, Eastwood quase chegou a ser atingido por uma rocha que acabou tendo sua trajetória interrompida ao bater num saco de areia perto do ator.

– A trilha sonora deste faroeste é tão incrível que é conhecida e assoviada por muitos, mesmo por aqueles que nem sabem da relação dela com o filme.

Veja o trailer: