Por Rafael Ferreira

Quando o profeta Dom Bosco fez sua profecia sobre a terra do leite e mel situada nas coordenadas 15º 20º, duvido ter passado pela sua cabeça que lá seria o palco do fim dos tempos, mas isto pouco importa quando se trata de uma obra de ficção que tem como objetivo contradizer o profeta, e ao mesmo tempo fazer uma crítica social com a nossa capital, freqüentemente relacionada ao progresso e à corrupção.

Capital dos Mortos: Mundo Morto segue a história do filme anterior, Capital dos Mortos (2008), cujo único sobrevivente do grupo fora o mais improvável, Lucas, ele agora está fazendo o que ele disse que faria caso um apocalipse zumbi viesse à tona, vagando por aí, até encontrar com outra sobrevivente, Denise, a protagonista e narradora pouco expressiva nessa função, que em voice over nos diz o que passa pela sua cabeça, expressando como é viver neste mundo pós-apocalíptico. O roteiro acerta em ter poucos diálogos, são necessários pouco mais de vinte minutos até um personagem se dirigir a outro verbalmente, e quando isto acontece acaba soltando besteiras como “você prefere pizza ou chocolate?”, e insistindo em tocar no assunto de antropofagia sem chegar a lugar algum. Mas pra minha surpresa me peguei pensando em uma questão que um deles levanta: “por que um zumbi precisa comer?”

O filme se passa no entorno de Brasília, em cenários semi destruídos, provavelmente lugares abandonados, obras inacabadas, não me surpreenderia se tais cenários fossem abrigos para usuários de crack, mas que serviram ao propósito do diretor e do diretor de fotografia, passando o clima de destruição. Outra qualidade técnica a ser observada é o áudio, som ambiente e diálogo bem audíveis, e felizmente o diretor deixou de lado o trash metal da trilha sonora.

Uma característica comum em filmes independentes é o uso de narrativas paralelas, porém, poucos conseguem ligar uma linha principal com uma secundária, este não é bem o caso. O filme anterior do Tiago Belotti sofria deste mesmo problema, aqui há um segmento completamente desnecessário envolvendo uma mãe buscando suprimentos para ela e a filha, que de maneira alguma se cruza com os protagonistas ou com o grupo das três mulheres, que apesar de parecer desconexo, funciona como um ponto de virada para a história e exploram o tema da violência sexual, de início expresso na forma de um homem que tortura mulheres e as transforma em zumbi – não consigo entender o fetichismo por mulheres zumbis – e mais tarde por uma mulher que mata um homem após ter sido violentada por outro sem nenhuma relação com o autor do abuso. Tudo isto para dizer que o a humanidade pode ser mais podre do que os próprios zumbis. Quem foi que disse que “somente aquele que tiver alma pura se salvará”?

A época atual é altamente propícia para artistas independentes se mostrarem e concorrerem espaço com artistas já estabelecidos. Por mais que Capital dos Mortos: Mundo Morto não seja uma obra prima do gênero, de maneira alguma quero que o seu diretor, Tiago Belotti, pare de trabalhar.

Capital dos mortos - mundo morto posterCapital dos Mortos: Mundo morto

Ano: 2015

Direção: Tiago Belotti

Roteiro: Tiago Belotti e Rodrigo Luiz Martins.

Elenco principal: Lorena Aloli, Gustavo Serrate.

Gênero: Terror, Horror.

Nacionalidade: Brasil

Veja o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=BuN1caNB5cc