Por Ana Carolina Diederichsen
Erick Lomax é um pacato homem de meia idade que passa seus dias num clube para cavalheiros ou andando pelos trens da Inglaterra. Trens esses que são sua verdadeira paixão. Ele conhece detalhes, horários e percursos de cada uma das linhas.
Em uma dessas viagens, acaba conhecendo Patti (Nicole Kidman), que se encanta com a personalidade enigmática de Erick. Em meados dos anos 1980, já casados, Patti vai descobrindo que aquela timidez de seu marido, na verdade, oculta severos traumas sofridos por ele durante a Segunda Guerra Mundial.
Numa história real, baseada na autobiografia homônima de Erick Lomax, a esposa do ex-combatente embarca numa busca por ajudar o marido e seus companheiros de guerra a sanar os traumas e reduzir seus reflexos que perduram e atrapalham suas vidas até então. Nessa busca, traz à tona o passado de Erick e Finlay (Stellan Skarsgard), que foram feitos reféns e obrigados a trabalhar como escravos na construção da chamada “Ferrovia da Morte”, na Ásia. Sem saber, ela acaba despertando um sentimento de fúria e o desejo de vingança, que leva Erick a encontrar seu torturador.
À medida que Patti vai descobrindo o passado de prisioneiro de guerra de seu marido, o público também. Um quebra-cabeça vai se montando e torna compreensível as atitudes estranhas de Lomax. No caso dele e de Finlay (como descobrimos depois), o passado não só determinou suas personalidades, como também, deixou marcas tão profundas que os impediram de seguir adiante. Apesar do pacto de silêncio não declarado em que vivem – no que tange a guerra- é como se aqueles homens ainda revissem cada instante dos anos que viveram sobre tortura.
A violência, nesse caso, nem sempre foi física e as torturas psicológicas são tão nocivas que os atormentam no presente com a mesma força que faziam no passado. O longa abre um pequeno parênteses e nos mostra que as violências podem perdurar tanto para quem as sofre como para quem a pratica. Infelizmente, esse interessante “outro lado da moeda” foi abordado de maneira mais superficial, mas ainda assim, é nesse aspecto que reside seu maior crédito.
O filme tem traços muito humanos e fala sobre perdas, traumas, vingança e perdão. Mas o faz sob a fria ótica inglesa, o que acaba por minar uma fração de seu potencial dramático. A história é interessante e consistente, mas não há nada no filme que salta aos olhos. Desde a narrativa tradicional (apesar de não linear), até a cinematografia esmaecida, passando pela trilha sonora e montagem, nenhum ponto se destaca pela inovação.
As atuações também não surpreendem. Colin Firth, como esperado, mantem o alto nível de competência, enfatizando a atuação pobre de Nicole (que não se parece em nada com uma senhora dona de casa inglesa) e contrastando ainda mais com Jeremy Irvine, na versão jovem e seu personagem.
Uma Longa Viagem deveria falar menos das viagens físicas e mais da viagem interior e da busca pelo autoconhecimento e perdão. Mas aborda um período interessante da história sob um viés um pouco diferente do habitual. E por ser uma história real, tem um ‘méritosinho’ a mais. Não é um filme imperdível, mas também não desperdiça as duas horas de dedicação a ele.
Uma Longa Viagem (The Railway Man)
Ano: 2013
Diretor: Jonathan Teplitzky.
Roteiro: Frank Cottrell Boyce, Andy Paterson
Elenco Principal: Colin Firth, Jeremy Irvine, Nicole Kidman, Stellan Skarsgard.
Gênero: Drama
Nacionalidade: Austrália, Reino Unido, Suíça.
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