Frederico Cabala

 

Fotos de Acossado (1960) ainda na época das filmagens já traduziam o espírito do filme. Numa delas, o câmera Raoul Coutard improvisa um travelling com ajuda de um carrinho de mercado pelas ruas de Paris. Está junto dele o diretor, Jean-Luc Godard, e à sua frente o elenco principal formado somente por um casal de atores. A equipe escassa, considerando padrões da época, e a ausência de aparatos pesados de produção indicam algumas das muitas renúncias feitas em nome de uma maneira diferente de filmar.Dessa imagem não usual até o lançamento do filme, que vendeu impressionantes 260 mil ingressos nas primeiras sete semanas, Acossado também impactou logo de cara a crítica. Venceria o prêmio Jean Vigo de Melhor Filme — dado a filmes de jovens cineastas — e Godard faturaria o de melhor diretor no Festival de Berlim. Um jornalista chegou a escrever que a diferença entre cinema velho e novo finalmente fazia sentido. Estrondosa recepção para um filme que conta uma história aparentemente simples, mas de um jeito nunca visto antes, o que faz o estrondo reverberar até hoje.

O longa é sobre a vida de Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo). Trambiqueiro malandrão, o rapaz rouba um carro em Marseille e foge em direção a Paris. No caminho, ainda mata a tiros um policial que o aborda. Já na capital francesa, Michel encontra a bela Patrícia (Jean Seberg), uma norte-americana estudante de jornalismo pela qual é apaixonado. Na tentativa de convencê-la a fugir com ele para Roma, Patrícia enrola e a polícia aumenta o cerco sobre Michael, que sempre arruma um jeito de despistar e só é pego com um tiro na lombar após ser denunciado pela própria moça.

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A ideia do roteiro partiu originalmente de François Truffaut, outro nome da Nouvelle Vague. Ainda em 1952, o então crítico da revista Cahiers du Cinéma foi instigado pela história de um ladrão de carros chamado Michel. Jornais franceses cada vez mais o estampavam nas capas por ninguém saber seu paradeiro, até ele ser encontrado em Paris pela polícia, numa canoa ancorada.

Como nenhum produtor se entusiasmou muito em pôr aquela história num filme, Truffaut largou mão. Anos depois, Godard conseguiu convencer Georges de Beauregard — importante executivo que já havia assinado a produção de Os Incompreendidos (1959), primeiro longa de Truffaut — e passou a mexer no roteiro com apoio de seu amigo que havia pensado no argumento tempos antes. Seria a segunda parceria deles. No curta Une histoire d’eau (1958), um já havia filmado enquanto o outro ficou com a montagem.

Convencionou-se que, embora Godard fosse livre pra interferir na história de Acossado, o roteiro seria assinado por Truffaut. Outro diretor do novo cinema, Claude Chabrol, foi incluído como conselheiro técnico. Era importante ter nomes mais conhecidos pra alavancar o filme. Afinal, Godard era o único da Nouvelle Vague que ainda não havia feito um longa.

Pouco antes de rodar o filme, advertiu Godard a Truffaut sobre o roteiro já modificado:

— Você lerá a versão definitiva dentro de alguns dias. Afinal, a história é sua. Acho que terá uma surpresa. Acho até que você não vai gostar do filme.

A ideia de Truffaut havia se transformado severamente. Seu plano lá no começo era usar a história do Michel original e acrescentar diálogos. Godard tratou de enfiar assuntos sérios por meio de devaneios escrachados e aforismos fortes, como: “Sou burro, mas tem que ser”, “Se você não gosta do mar, se não gosta da montanha e não gosta da cidade, então vá pro inferno!” e “Minha ambição é tornar-me imortal e depois morrer”. O diretor colocou um Michel que seduz pela indiferença com que trata as regras da sociedade. Acrescentou ao que antes era perseguição policial um clima de espírito juvenil de viver com intensidade e de morte iminente. Acima de tudo, inseriu Patrícia e o romance do casal como centro da narrativa.

A inserção da personagem não é o único toque de influência americana no filme. O próprio Michel se molda a partir de Humphrey Bogart, inclusive no gestual de alisar a boca com o dedo. Numa cena a referência é ainda mais clara: Michel topa com um pôster do ator norte-americano e o admira como se mirasse um espelho. Aqui se percebe também certa influência e homenagem aos filmes noir. A atmosfera noir, com seus personagens de moral ambígua, que impõem o interesse pessoal à frente das regras, permeia Acossado assim como outras produções da Nouvelle Vague. O americanismo também se reflete nos carros que Michel adora e rouba, como Cadillac, além da trilha sonora com um tema beirando o jazz.

Sem medo de mostrar que aquilo era um filme, Godard não relutou em jogar no ralo supostas regras do cinema clássico francês, que no fundo se mostrariam como meras convenções. Para a Nouvelle Vague, aliás, entre os diretores franceses até aquele momento só eram dignos de valor inventivo exceções como Jean Renoir. “O cinema francês morre sob falsas lendas”, escreveu Truffaut. Os longas feitos na França até então tendiam todos a apresentar cortes discretos — sempre mudando o ângulo de filmagem em pelo menos 30 graus pra evitar “pulos” — narrativa bem costurada, forte iluminação artificial, planos rígidos e engomados, locação em estúdio, trilha sonora triunfal e presença de atores “estrelas”.

Em Acossado, o passeio de carro de Michel e Patrícia rompe com essa tradição ao usar cortes abruptos e sem diferença de ângulo — jumpcuts. O famoso plano- sequência do início do filme, com o casal caminhando em uma avenida, é a fuga dos estúdios e traz as ruas, a cidade viva, como locação. A luz do sol na iluminação também fazia parte dessa nova estética natural, bastante influenciada pelo neo-realista italiano Roberto Rossellini. A câmera na mão na maior parte dos 86 minutos de longa vai ao encontro disso também. O fotógrafo, Raoul Coutard, havia trabalhado como câmera em documentários para o exército francês.

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As conversas entre Michel e Patrícia parecem nunca engatar. Enquanto ela puxa papo a partir de referências, como o pintor Renoir e os livros de William Faulkner, ele responde com seus aforismos escrachados cheios de gírias que ela não entende. Lá pelas tantas ele chega a diagnosticar isso: “Estamos sempre falando eu de mim e você de você, enquanto deveríamos falar um do outro.” Para conferir maior naturalidade às atuações, Godard dirigiu os atores entregando os roteiros de cada cena somente no dia das filmagens. Assim, ganham destaque um Belmondo que convence com seus gestos à Bogart e gírias tiradas da cartola e Jean Seberg (popularizando o corte de cabelo joãozinho depois desse filme) com o olhar intenso e a sensualidade natural que confere à Patrícia.

O rompimento com os padrões clássicos do cinema também significou uma nova alternativa de se fazer filme aparentemente mais barata e acessível. Isso fez com que na própria França surgisse nos anos seguintes a Acossado uma avalanche de novos cineastas. A influência da Nouvelle Vague chegou a outros países, e a onda no Brasil alcançou o Cinema Novo.

Godard disse que o cinema aproxima arte e vida. A Nouvelle Vague, através do rompimento estético de Acossado e outros filmes, ao drenar muito da naturalidade artificial das antigas produções, atingiu impacto que até hoje não se esgotou. Sempre haverá algo a ser dito sobre o filme.

Curiosidades:

• A primeira montagem de Acossado tinha duração de 2h30. O produtor do filme queria duração máxima de 90 minutos. Godard então fez cortes de maneira inusitada. Em vez de retirar cenas inteiras, ele fragmentou as cenas.

Acossado custou 400 mil francos, 1/3 da média das produções francesas.

• Logo após as filmagens, o ator Jean-Paul Belmondo pensou que o filme seria um fiasco e ficou bastante surpreso com a recepção que o longa instantaneamente recebeu.

Veja o trailer: