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The Dam Keeper

O Vigia da Represa

Por Felipe Mendes

O cinema contemporâneo apresenta-se, acima de tudo, como um belo método de manifesto crítico-social. Inúmeros temas negligenciados pela sociedade no decorrer dos anos ganharam força e notoriedade através de obras audiovisuais. O Vigia da Represa (The Dam Keeper) é mais uma produção que toca o dedo na ferida ao passar uma mensagem poética acerca do bullying. O curta-metragem de Robert Kondo e Daisuke “Dice” Tsutsumi nos transporta a uma fantasia semelhante a entregue às telonas por Tim Burton, em Edward Mãos de Tesoura.

A fábula discorre a trajetória de um porquinho que mantém o povo de sua pequena cidade em segurança a respeito de uma poluição mortal, desconhecida pelos habitantes. Através do moinho de vento onde vive, o jovem controla o índice de fuligem no ar da metrópole. Isolado da sociedade, o porquinho segue a vida praticando os ensinamentos de seu papai, que sempre dizia que o trabalho de um vigia da represa era manter as trevas distante da cidade. Após deixar o moinho em plenas condições de funcionamento, ele atravessa a metrópole em sua luta diária a caminho da escola.

O árduo trabalho nas engrenagens do moinho é responsável por fazer com que o menino sempre esteja com um aspecto imundo. As pessoas riem ao cruzar com ele no percurso para a escola, enquanto os colegas de classe aprontam maldades sem limites com ele. O porquinho carrega consigo as trevas que mantém afastada da população. A trama ganha uma nova dimensão quando uma raposa surge e, sem preconceitos, logo cultiva uma grande amizade com o porquinho. (Vale ressaltar que os personagens da fábula são representados por bichos distintos.) O novo amigo o encoraja a reagir através de divertidas caricaturas. Os momentos em que estão juntos são mágicos, o porquinho sente-se confiante para encarar a vida e suas desavenças novamente. Mas uma inesperada surpresa tende a comprometer a rotina dos habitantes daquela cidadezinha.

Os idealizadores do projeto são diretores de arte consagrados pela Pixar. Ambos já trabalharam em obras como Ratatouille, Toy Story 3 e Universidade Monstros. A ideia de produzir algo original motivou os japoneses a dedicarem três meses na produção do curta. Apesar do pouco espaço de tempo para a criação, o resultado é impressionante. O projeto desenhado à mão e pincelado em aquarela pulsa na tela com suas cores vibrantes. A animação colecionou prêmios ao redor do mundo, sendo reconhecida em países como Japão, Estados Unidos e Brasil – aclamado como Melhor Curta-Metragem Infantil no AnimaMundi, em 2014. Além do ótimo resultado visto em cena, a produtora Tonko House, através de uma parceria com o First Second Books, anunciou que a história do nosso ilustre porquinho se tornará quadrinhos em breve.

Assista ao trailer:

Sobre Felipe Mendes

Carrega consigo a bonança do sertão nordestino e a loucura da metrópole paulistana. Gosta de acreditar que a felicidade é questão de querer. Admirador declarado das obras de Krzysztof Kieslowski e devoto dos iranianos Jafar Panahi e Majid Majidi. Imagina que o cinema representa a arte de apaixonar-se em movimento, 24 vezes por segundo. Prefere aqueles que se arriscam, que se emocionam, seja por amor ou pela dor. Sabe que a trajetória na terra não é como um filme de Frank Capra, mas acredita que o cinema é refúgio e inspiração para a vida.
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