Home / Críticas / Dunkirk
dunkirk

Dunkirk

Por Lucas Torigoe

Um amadurecimento parcial dos blockbusters de guerra

Quem vai ao cinema ver Dunkirk, de Christopher Nolan, esperando ver um filme como O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998) ou Círculo de Fogo (Jean-Jacques Annaud, 2001) deve mudar suas expectativas. No entanto, pode ainda esperar um grande espetáculo: filmado para a tecnologia IMAX e muito bem trabalhado em sua banda sonora é, como muitos têm dito, uma sinfonia de guerra impactante e dificilmente esquecível.

O que primeiro se nota é o apuro técnico tanto das filmagens quanto do som. Os largos quadros e a trilha sonora de Hans Zimmer imprimem a Dunkirk um sentimento fílmico similar a de outros filmes de Christopher Nolan, passando pela trilogia de Batman, o thriller A Origem (2010) e chegando em Interestelar (2014). O fã-clube do diretor não vai se enganar: trata-se de um clássico Nolan – pois é possível afirmar que tal estilo já se consolidou em sua filmografia, assim como nos corações e mentes dos espectadores.

Dunkirk foi projetado para trazer uma nova experiência do campo de batalha, centrado na angústia da espera e dos cálculos matemáticos e angulares das caçadas aéreas que atravessam o filme. Conclui-se que, assim, o diretor tenha explorado muito bem a singularidade da situação posta pela Retirada de Dunquerque: 400 mil soldados britânicos esperando em linha por um deslocamento relativamente simples, se não fosse o cerco implacável do inimigo, sempre à espreita pelo melhor momento de bombardeá-los.

Vem desse compromisso um ponto forte de Dunkirk, ou seja, o casamento frenético entre imagem e som. A trilha sonora trabalha constantemente em crescendo, equacionando as tensões da cena através da constância de notas musicais e seu paulatino aumento de velocidade. Não se engane, Dunkirk será uma agonia do começo ao fim, mas do tipo que prenderá você até o desenlace destas situações desesperadoras. Dunkirk é, sem exagero do crítico, uma experiência única na sala de cinema.

Outro ponto forte do filme é a construção não-linear do roteiro, que prossegue como quem encaixa peças num jogo de xadrez, no intuito de mexer com as expectativas do espectador quanto ao destino dos protagonistas. Por outro lado, é notável o esforço de Nolan em abordar temas como o individualismo e os instintos de sobrevivência dos combatentes. Ao mostrar esta faceta crônica e psicológica dos personagens, constrói um quadro não tão idealista acerca da já batida representação da irmandade e camaradagem entre companheiros de guerra.

 Na Dunquerque de Nolan, os soldados são seres humanos, com falhas, imperfeições e atitudes às vezes condenáveis – ponto para o diretor. Essa aproximação para com as micro-histórias que compõem a gloriosa narrativa das grandes guerras – decididas sempre por presidentes e generais, segundo a história tradicional – é fruto da parceria de Nolan com Joshua Levine, historiador que entrevistou sobreviventes da Retirada e publicou os relatos em Dunkirk: A história real por trás do filme, recém-lançado no Brasil pela Harper-Collins.

Porém, mais uma vez Nolan derrapa em suas premissas ideológicas, no que parece ser o ponto fraco de todos os seus filmes, desde o lamentável Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012). O filme está saturado pela complexidade dada pelos relatos colhidos por Levine, que trazem causos de mesquinhez e de salve-se-quem-puder, mas ainda podemos entender a heroicidade destes sobreviventes e a grandeza do acontecido. Mesmo assim, não se pode perdoar a derrapada ufanista feita pelo diretor em uma das partes do filme.

Dunkirk realiza um movimento de crítica às habituais representações do ambiente de guerra, de suas consequências para os soldados, mas se une ao senso comum quando abraça o sentimentalismo. Depois de filmes como Nascido para Matar (Stanley Kubrick, 1987), Apocalipse Now (Francis Ford Coppola, 1979) e Soldado Anônimo (Sam Mendes, 2005), temos no meio do caminho Dunkirk: entre a crítica e o espetáculo. Talvez seja o amadurecimento possível dos blockbusters de guerra, para alguém como o cineasta Christopher Nolan.

dunkirk-posterDunkirk
Ano: 2017
Diretor: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Elenco: Fionn Whitehead, Kenneth Branagh, Cillian Murphy, Mark Rylance, Tom Hardy
Gênero: Guerra, Suspense
Nacionalidade: Inglaterra, EUA, França, Holanda

Veja o trailer:

Por Lucas Torigoe Um amadurecimento parcial dos blockbusters de guerra Quem vai ao cinema ver Dunkirk, de Christopher Nolan, esperando ver um filme como O Resgate do Soldado Ryan (Steven Spielberg, 1998) ou Círculo de Fogo (Jean-Jacques Annaud, 2001) deve mudar suas expectativas. No entanto, pode ainda esperar um grande espetáculo: filmado para a tecnologia IMAX e muito bem trabalhado em sua banda sonora é, como muitos têm dito, uma sinfonia de guerra impactante e dificilmente esquecível. O que primeiro se nota é o apuro técnico tanto das filmagens quanto do som. Os largos quadros e a trilha sonora de Hans Zimmer imprimem a Dunkirk um sentimento fílmico similar…

Avaliação geral

Avaliação Geral

3,5

Sobre Lucas Torigoe

É historiador e professor, além de interessado em cinema. Através da experiência como pesquisador/entrevistador do Museu da Pessoa chegou a conhecer a obra de Eduardo Coutinho, sobre a qual está desenvolvendo uma tese de mestrado. A arte e o hábito do diálogo e da conversação - filmados ou não - são seus enigmas prediletos.
Comentários