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Cinemascope - Flores Raras

Flores Raras

Por Dario PR

A arte de perder não é nenhum mistério.
Tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.

“Flores Raras e Banalíssimas” é um livro inesquecível.  Flores Raras, o filme, também o é. Como em toda boa adaptação, o filme mantém total liberdade criativa em relação ao livro de Carmem Lucia de Oliveira. O roteiro teve seu primeiro esqueleto montado por Carolina Kotscho (2 Filhos de Francisco). Mas, por alguma razão que ainda não consegui esclarecer, foi finalizado por uma dupla de roteiristas hollywoodianos (Matthew Chapman e Julie Sayres). Por incrível que pareça, essa criação multinacional a oito mãos deu certo.

Enquanto o livro priorizava os aspectos biográficos e históricos na vida das personagens, o filme foca no conteúdo lúdico que permeia a obra das protagonistas, seja a obra poética de Elizabeth Bishop, seja a obra arquitetônica de Lota Macedo Soares. Ambas viveram momentos de grande fertilidade criativa durante o período em que se relacionaram. Lota foi fundamental na construção do Parque do Flamengo, e Bishop escreveu ‘North and South’, livro de poemas que ganhou o Premio Pulitzer.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.

Os desenhos de Lota ou os versos de Bishop pontuam ou ilustram praticamente todo o filme. E essa escolha não poderia ter sido mais acertada. Afinal, trata-se de um filme de amor de forte densidade poética, que pretende antes de tudo aprofundar no espectador o tema da perda. Nele, a realidade factual e histórica está a serviço deste “objetivo poético”, nunca o contrario.

Cinematograficamente, nada de novo. O filme mantem o estilo competente e convencional dos filmes da família Barreto. Produção caprichada, fotografia grandiloquente, reconstrução de época primorosa, trilha sonora de primeira, montagem competente e, principalmente, facilidade em se comunicar com o grande público. A direção é bem sucedida no intuito de tornar o filme visualmente poético, como o é a poesia de Bishop, e acerta a mão ao falar de homossexualidade sem levantar bandeiras. De novidade, repara-se a explícita pretensão a alçar voos internacionais, o idioma (95% do filme é falado em inglês), e o elenco multinacional. Será que vai funcionar?

A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

Glória Pires mais uma vez brilha na pele de Lota, um personagem intenso e controverso, tão íntima da intelectualidade quanto amiga do poder, que comemorou o Golpe Militar de 64 e foi capaz de comprar uma criança pobre das mãos da mãe, só para satisfazer o ego de sua (ex)namorada, Mary, com quem pretendia manter se relacionando (e conseguiu) numa bizarra proposta de bigamia. O que talvez Lota não suspeitasse é que a atração que sentia pela nova namorada (Elizabeth) fosse guiá-la por veredas tão trágicas.

Elizabeth Bishop não era uma mulher passível de previsões. Aparentemente tímida e insegura, carregava nas entranhas o cerne da força camuflada e da determinação dissimulada. Isso fica claro ao lermos seus poemas, fortíssimos. Miranda Otto fez uma composição magistral da poetiza e é, de longe, a melhor coisa de “Flores Raras”. Eu não conhecia o trabalho dessa atriz australiana, e confesso que fiquei .. ‘mortificado’. Uma das grandes atuações femininas dos últimos tempos, digna de um Oscar.

A autoconfiante e poderosa Lota, vai ficando ao longo do filme cada vez mais frágil e dependente, pois sempre teve tudo que quis e não sabe lidar com as perdas que a vida lhe põe no caminho. E a insegura, disfuncional e alcoólatra Elizabeth vai ficando cada vez mais forte e capaz de superar-se, justamente por saber, desde criança, a lidar com a ideia da perda.

Mesmo perder você – a voz, o ar etéreo que eu amo –
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreva isso) que pareça muito sério.

Nasce mais uma bela obra que certamente vai enriquecer a história do Cinema Brasileiro. Bravo!

 Confira o poema de Elizabeth Bishop que ilustra essa crítica recitado por Antonio Abujamra.

Crítica postada como parte da cobertura do Festival de Cinema de Gramado 2013.

Cinemascope - Flores Raras - PosterFlores raras

Ano: 2013.

Diretor: Bruno Barreto.

Roteiro: Carolina Kotscho, Matthew Chapman.

Elenco Principal: Glória Pires, Miranda Otto, Tracy Middendorf.

Gênero: Drama.

Nacionalidade: Brasil.

 

 

 

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Por Dario PR A arte de perder não é nenhum mistério. Tantas coisas contém em si o acidente de perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouco a cada dia. Aceite, austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. “Flores Raras e Banalíssimas” é um livro inesquecível.  Flores Raras, o filme, também o é. Como em toda boa adaptação, o filme mantém total liberdade criativa em relação ao livro de Carmem Lucia de Oliveira. O roteiro teve seu primeiro esqueleto montado por Carolina Kotscho (2 Filhos de Francisco). Mas, por alguma razão que ainda não consegui esclarecer, foi…

Avaliação geral

Avaliação geral

5

Sobre Dario

Dario PR é médico e crítico, cinéfilo nas horas vagas, tem uma queda por cinema brasileiro, prefere ver filmes em festivais e mostras, gosta de jazz, samba de raiz, vodka russa e comida mineira, detesta gente que fala cuspindo ou cutucando.
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