Recentemente, a  Netflix disponibilizou em seu catálogo o filme inspirado na vida e obra de Mary Shelley, escritora britânica e autora de um dos romances mais provocadores da modernidade, Frankenstein ou O Prometeu Moderno. O universo artístico que gira entorno do romance de Shelley é vasto e conta com um número significativo de adaptações que permeiam o teatro, rádio, televisão, cinema e quadrinhos. Dessa vez, o foco sai da criatura e foca em sua criadora. Dirigido por Haifaa Al-Mansour a obra não é uma adaptação do romance de Shelley, ao contrário, se debruça principalmente no processo de criação do livro em uma trajetória biográfica onde o centro discursivo é a vida da autora.

Logo no início somos apresentados à atmosfera que circunscreverá toda a narrativa. Mary Shelley (Elle Fanning), uma jovem de 16 anos vive com o seu pai William Godwin, filósofo prestigiado em Londres, e a sua irmã Claire Clairmont. A mãe, também escritora e feminista, Mary Wollstonecraft, surge na narrativa por meio de diálogos e lembranças da protagonista. Os conflitos entre Mary e a sua família é o que a levam a conhecer o seu futuro marido, Percy Shelley, poeta e escritor.

A partir daí convivemos com as diversas aventuras que Mary, Claire e Percy vão experienciar. O filme dá ênfase, mesmo que às vezes sutilmente, às questões sócio-políticas em que os personagens estão inseridos. É percepctível a contestação dos valores político-sociais burgueses da época no modo em que a diretora atualiza uma espécie de amor livre entre Mary Shelley e Percy. Ainda, a carga feminista tanto da protagonista como da própria obra entusiasma o espectador interessado em questões identitárias e enquadra o filme em discussões políticas contemporâneas.

Conforme a narrativa segue, conhecemos alguns dos contornos do romance que é construído em meio a efervescência da vida de Mary Shelley.  Longe de um romance autobiográfico – sabemos que o livro faz críticas contundentes à relação entre ciência e religião, natureza e cultura, bem como referência à mitologia grega e a tecnologia moderna –, o que na verdade a diretora remonta são alguns aspectos da experiência de Shelley que são transformados em linguagem poética e passam a integrar o romance. Desse modo, o filme destaca a relação autor e obra, demonstrando o inevitável imbricamento entre ambas as partes que vão se atualizando conforme o caminhar do romance e da vida de Mary.

O longa tem uma atmosfera melancólica, com tons às vezes neutros ou escuros aproximando a narrativa tanto de seu contexto histórico – revolução industrial – bem como do próprio romance gótico elaborado por Mary Shelley. Por fim, ele conta também histórias de amor. Discorre sobre várias concepções e formas de amar. Acompanhamos o amor emergir, se transformar, se esvair, enlouquecer e retornar de outro modo, sempre atualizado em uma nova forma e com outras camadas de complexidade. Com voz-off extraídas do próprio livro de Shelley, somos apresentados a um romance verbo-audiovisual em que a vida e a arte tornam-se uma coisa só.

Mary Shelley

Mary Shelley

Ano: 2018
Direção: Haifaa al-Mansour
Roteiro: Emma Jensen
Elenco principal: Elle Fanning, Douglas Booth, Bel Powley
Gênero: ​Drama
Nacionalidade: Reino Unido

Avaliação Geral: