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Um Evento Feliz Louise Pio

Um Evento Feliz

Por Wallacy Silva e Heleni Flessas.

Em Uma Mulher é Uma Mulher (Une Femme est Une Femme, 1961) os personagens Angela (Anna Karina) e Émile (Jean-Claude Brialy) se comunicam em algumas cenas usando apenas livros, jogando com seus títulos. A brincadeira ganha uma emulação divertida no início de Um Evento Feliz. Daniel (Pio Marmaï) trabalha em uma videolocadora. Barbara (Louise Bourgoin) é cliente. Os dois começam a trocar indiretas através dos títulos dos filmes, usando as caixinhas dos DVDs. Coincidência ou não, o maior anseio de Angela, protagonista do filme de Godard, é ter um filho. Não se pode dizer o mesmo de Barbara ou Daniel. Eles começam a namorar e acompanhamos rapidamente algumas cenas marcantes: o primeiro beijo, o primeiro encontro, o primeiro “eu te amo”, momentos da rotina dos dois… até que Daniel confessa querer ter um filho de Barbara. Aparentemente pela paixão e “empolgação” o casal acaba concretizando o desejo do rapaz.

Seguimos então a gestação de Barbara e nos deparamos com uma série de situações cômicas causadas pelos pais de primeira viagem ou pela simples distração de Daniel. É engraçada, por exemplo, a paranoia da futura mamãe ao pesquisar tudo na internet, desde a qualidade dos carrinhos de bebê até os riscos de contratar uma babá. Mas ao mesmo tempo o longa apresenta sinais de que também estaria determinado a abordar questões mais sérias, deixando pra trás o estereótipo de que é tudo maravilhoso ao redor do fato de se ter um filho. E o faz. Na primeira metade do filme, que se refere mais à gestação, já aparecem as primeiras discordâncias (ela não quer saber o sexo do bebê antecipadamente, enquanto ele quer) e são mostradas mudanças causadas na mulher por causa dos hormônios. Barbara é estudante e está escrevendo uma tese, enquanto Daniel parece ser apenas um garoto que gosta de jogar videogame e ler quadrinhos. Mas ele também parece disposto a mudar: decide encontrar outro emprego, que proporcione uma condição de vida melhor, possibilitando, por exemplo, a mudança para um apartamento maior. Surgem aqui os primeiros questionamentos da gestante sobre a capacidade do casal de criar um filho.

Na segunda parte, pós-parto, o filme fica mais denso. Barbara se vê sem autoconfiança em relação ao próprio corpo e a sua posição de mãe. A gestação acaba tendo um impacto negativo em sua vida acadêmica. O casal discute constantemente. Barbara sente que Daniel não a ajuda o bastante a cuidar do bebê. Daniel parece insatisfeito com o trabalho, sempre cansado, e pressionado pela obrigação de sustentar a família. Outros temas vêm à tona como as vantagens e desvantagens da amamentação ou a influência dos avós na criação de um neto. Barbara, aliás, passa a recorrer com frequência a conversas com a mãe, e se deparar cada vez mais com a realidade dela, que é divorciada.

A belíssima fotografia é de Antoine Monod (que trabalhou em outros filmes de Bezançon como O Primeiro Dia Do Resto de Tua Vida) e o figurino de Marie-Laure Lasson chama muito a atenção no que diz respeito ao estado de espírito dos personagens. As roupas coloridas e até floridas que vemos nos “melhores momentos” do início do namoro dão lugar a tons cada vez mais escuros de verde e azul, apontando para o processo de degradação do relacionamento.

Rémi Bezançon demonstra apreço técnico e a habilidade de ganhar o espectador através de um roteiro simples que contém uma série de referências, passando por literatura, e claro, como indiquei no início, cinema. Um Evento Feliz é um excelente trabalho, que abre espaço para uma abordagem realista e pouco usual da maternidade e das suas consequências (que podem ser negativas), tanto na mulher quanto na rotina dos pais. Mais do que um evento feliz, trata-se de um evento complexo e profundamente transformador.

 

Cinemascope---Um-Evento-Feliz-PosterUm Evento Feliz (Un Heureux Événement)

Ano: 2011

Diretor: Rémi Bezançon.

Roteiro: Rémi Bezançon e Vanessa Portal, baseado no romance homônimo de Eliette Abecassis.

Elenco Principal: Louise Bourgoin, Pio Marmaï, Thierry Frémont, Josiane Balasko, Gabrielle Lazure, Anaïs Croze, Daphné Bürki.

Gênero: Drama.

Nacionalidade: França/Belgica

 

 

Veja o trailer:

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Galeria de Fotos:

Por Wallacy Silva e Heleni Flessas. Em Uma Mulher é Uma Mulher (Une Femme est Une Femme, 1961) os personagens Angela (Anna Karina) e Émile (Jean-Claude Brialy) se comunicam em algumas cenas usando apenas livros, jogando com seus títulos. A brincadeira ganha uma emulação divertida no início de Um Evento Feliz. Daniel (Pio Marmaï) trabalha em uma videolocadora. Barbara (Louise Bourgoin) é cliente. Os dois começam a trocar indiretas através dos títulos dos filmes, usando as caixinhas dos DVDs. Coincidência ou não, o maior anseio de Angela, protagonista do filme de Godard, é ter um filho. Não se pode dizer…

Avaliação geral

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5

Sobre Wallacy

Letrista, paulistano, adora música, livros, futebol, redes sociais, idiomas, conversas, novidades, detalhes, interpretações e, obviamente, cinema! @wallacy13
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