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Foto: Mauricio Santana
Foto: Mauricio Santana

Andy Serkis vem ao Brasil e fala sobre motion capture e ‘Planeta dos Macacos: A Guerra’

Por Kátia Kreutz

Desde seu estrondoso sucesso no papel de Gollum em O Senhor dos Anéis, Andy Serkis se tornou a maior referência em Hollywood quando o assunto é motion capture ou performance capture (a técnica de gravar movimentos e expressões de um ator para animação de um personagem digitalmente). Com a estreia de Planeta dos Macacos: A Guerra, sua interpretação como Caesar mostra que a tecnologia e a arte deram um passo além.

“A coisa mais importante que os atores percebem quando começam a trabalhar com motion capture é que se trata apenas disso: uma tecnologia”, explica Andy Serkis, que esteve recentemente no Brasil para divulgar o novo filme. “Não é uma forma de atuação ou um gênero, nem é diferente do que interpretar um personagem em live action.”

Naturalmente, para fazer o papel de um animal, é necessário realizar uma pesquisa abrangente sobre comportamentos e movimentos, mas o ator defende que os macacos do filme não são apenas isso. Afinal, em todas as histórias da franquia, desde o Planeta dos Macacos original, de 1968, passando por Planeta dos Macacos: A Origem e Planeta dos Macacos: O Confronto até o lançamento mais recente, os primatas muitas vezes são mais humanos que os próprios homens.

“A questão acaba sendo: quem é esse personagem? Isso é atuação, é fazer escolhas”, acrescenta Andy Serkis, para quem os aspectos humanos são sempre a parte mais relevante. Afinal, tudo o que o ator leva para a tela tem como ponto de partida suas próprias emoções. “A metáfora que usamos com os macacos serve apenas para refletir a condição humana e poder olhar para nós mesmos através de um prisma diferente”, afirma.

A dualidade entre razão e emoção, existente em todas as pessoas, é outro aspecto muito explorado em Planeta dos Macacos: A Guerra. Ao mesmo tempo em que os animais são humanizados, os seres humanos na história sofrem um processo de retorno ao primitivo. De acordo com Andy Serkis, esses temas se conectam profundamente com a realidade em que vivemos. “São tempos muito perigosos e confusos, ideologicamente. A resposta para isso acaba sendo ir em direção ao irracional. O mundo está sofrendo por conta de lideranças simplistas”, afirma o ator.

Para Andy Serkis, todos os filmes da franquia falam sobre empatia. São uma alegoria à nossa realidade, na qual os seres humanos estão perdendo a habilidade de serem empáticos com relação a outras culturas, outras sociedades, outras espécies. Não somos mais capazes de nos colocarmos no lugar dos outros, de ver as coisas sob uma perspectiva diferente. Em Planeta dos Macacos: A Guerra, o comentário social e o cinema-espetáculo caminham juntos, analisando comportamentos e questionamentos que fazem parte da existência humana.

“A sensação é de estar vendo uma história incrível se desenrolar em frente aos seus olhos. Você não sabe o que vai acontecer e isso é raro nos blockbusters hoje em dia”, continua Andy Serkis. “As pessoas estão cansadas de sequências, porque elas não oferecem nada novo e tendem a aplicar uma fórmula previsível.” Segundo o ator, Matt Reeves (diretor de Planeta dos Macacos: O Confronto e Planeta dos Macacos: A Guerra) soube contar uma história que traz identificação emocional com o público e ao mesmo tempo o educa para encarar as diferenças sem julgar os outros.

Sobre a tecnologia de motion capture, Andy Serkis explica que muita coisa mudou desde O Senhor dos Anéis. Ele conta que no início, as cenas eram filmadas uma vez com os outros atores, apenas como referência, e depois precisavam ser repetidas em estúdio, para a criação do personagem digital. Também não era possível captar as expressões faciais, por isso os animadores copiavam a atuação e tentavam reproduzi-la por computador com a maior fidelidade possível.

Lord Of The Rings Two Towers: the character Gollum who's role is crucial to the journey of Frodo and Sam--Gollum's movements are performed via computer program by actor Andy Serkis. Photo: New Line Cinema

Andy Serkis como Gollum. Foto: New Line Cinema

Quando o diretor Peter Jackson convidou Andy Serkis para o papel de King Kong, em 2005, foi introduzida a técnica de captação das expressões faciais. Ou seja, marcadores eram colocados no rosto do ator e posteriormente digitalizados, dando vida aos músculos na face do gorila. Isso também só podia ser feito em estúdio, naquela época.

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O diretor Peter Jackson com Naomi Watts e Andy Serkis durante as filmagens de King Kong

Já com As Aventuras de Tintim, de Steven Spielberg, em 2011, as novas câmeras desenvolvidas para o filme Avatar passaram a permitir que cenas com motion capture pudessem ser gravadas externamente, nas locações. Foram esses avanços que tornaram possível a captação de toda a performance de Andy Serkis em tempo real, com os outros atores no set, em Planeta dos Macacos: A Origem. “Nós não precisávamos voltar e gravar tudo de novo em estúdio. A relação e a conexão entre os atores acontecia ali mesmo, como se meu personagem fosse real”, conta o ator.

Hoje, o salto em qualidade alcançado com os avanços tecnológicos é impressionante. Andy Serkis elogia a Weta Digital, empresa responsável pelos efeitos em Planeta dos Macacos: A Guerra, pelo nível de fotorrealismo alcançado – desde os pelos dos animais até os flocos de neve. “A tecnologia torna mais fácil para os animadores honrarem a performance dos atores, suas emoções e escolhas. Os efeitos visuais nunca foram tão bons, por isso tudo o que você vê na tela foi criado pelo ator”, declara.

Embora a escala tenha aumentado, de Planeta dos Macacos: O Confronto para Planeta dos Macacos: A Guerra, o ator conta que o foco do diretor Matt Reeves sempre foi na jornada dos personagens. Um dos maiores receios, em filmes de grande orçamento, é de que a parte técnica atropele todo o resto: são muitas pessoas envolvidas, há uma enorme pressão para gravar as cenas rápido e boa parte do material passa por trabalho de pós-produção. Segundo Andy Serkis, o diretor deixou claro que não posicionaria a câmera no set até que os atores estivessem preparados. Afinal, a história é contada sob o ponto de vista de Caesar, o protagonista. Sem ele, simplesmente não haveria filme.

O personagem, aliás, passa por diversas mudanças no decorrer da trilogia. Andy Serkis conta que sempre imaginou Caesar como um ser humano em um corpo de macaco. Também confessa que interpretar o personagem jovem, em Planeta dos Macacos: A Origem, foi um dos papéis mais cansativos de sua vida. Na história, ele ainda age muito mais como primata e se move com facilidade, cheio de energia.

No segundo filme, Planeta dos Macacos: O Confronto, muita coisa muda fisicamente para o personagem, mas ele também evolui mentalmente. Caesar passa a andar mais ereto, articula as primeiras frases. A inspiração de Andy Serkis para esse momento da saga foi em grandes líderes mundiais, pessoas que buscaram unir e libertar grupos diversos. Nelson Mandela foi o homem em quem o ator mais se espelhou, nessa interpretação.

“No último filme, eu realmente queria passar uma sensação de que Caesar tinha o peso do mundo em suas costas”, conta Andy Serkis. Para acertar na linguagem corporal, ele usou pesos nos pulsos e nas pernas. Nesse filme, o personagem já está muito humanizado e praticamente caminha como uma pessoa, apenas curvado pelos anos e pelo cansaço. Essa exaustão física também reflete seu momento emocional: ele está cansado de lutar, de ser acorrentado e tratado como um animal sem valor. “Nesse filme ficou claro para mim que eu precisava buscar inspiração internamente. Como isso me afetaria? Eu queria aproximá-lo de mim mesmo para poder ser os olhos do público na história.”

A jornada de Caesar, nesse sentido, foi bastante intensa para Andy Serkis em Planeta dos Macacos: A Guerra. “Nós gravamos por cinco meses e meio no inverno canadense, o que não é legal se você está usando um traje de motion capture”, recorda. Embora as cenas com Steve Zahn (o ator que interpreta Bad Ape) tenham sido divertidas, Andy lembra que a filmagem, no geral, foi bastante dura. “Eu passei a maior parte do tempo sendo acorrentado ou levando chutes, apanhando, preso em uma cela, indo atrás de um cara que Caesar odiava e queria matar… foi bastante cansativo! Mas tudo ajudou para desenvolver o personagem.”

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Serkis acredita que o resultado é uma mistura entre filme de guerra, western e uma história épica. Todos esses elementos, além do equilíbrio entre filosofia e ação, despertam no espectador uma reação pessoal. No fim das contas, todas as guerras são sobre indivíduos e sobrevivência. O filme tem grandes cenas de batalhas e a violência que se espera delas, é claro, mas trata também de uma jornada mítica, quase bíblica: Caesar quer apenas guiar seu povo até a “terra prometida”.

Com todo o sucesso de público da franquia, ele acredita que já está mais do que na hora de as grandes premiações cinematográficas reconhecerem o trabalho de atores que fazem performance capture. “Existe muito preconceito e ignorância, mas o processo de atuação não é diferente por causa da tecnologia.” Basta assistir ao making of desses filmes para entender que não se trata apenas de vestir uma roupa com marcadores e dar referência para animadores criarem os personagens. “A atuação acontece no set, com os outros atores e com o diretor. Mas existe uma espécie de cegueira. Se eu interpretasse Caesar com maquiagem prostética e um traje peludo de macaco, as pessoas diriam: ah sim, isso é atuar. Mas se estou com uma roupa de motion capture e essa maquiagem é adicionada digitalmente depois… não. Isso é frustrante.”

O talento e o comprometimento de Andy Serkis com suas interpretações é incontestável. Além de Planeta dos Macacos: A Guerra, que já pode ser visto nos cinemas, o ator pretende ingressar também na carreira de diretor. Ele já atuou como second unit director (uma espécie de diretor assistente) de Peter Jackson na trilogia O Hobbit, e em 2018 lançará seu primeiro longa: uma reinterpretação de O Livro da Selva (Jungle Book).

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