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Cinemascope - Almas desesperadas

Almas Desesperadas

Por Joyce Pais

Muitos não sabem que para além da imagem de dumb blonde normalmente associada a Marilyn Monroe e das muitas comédias pastelão que protagonizou, seu primeiro sucesso e um de seus trabalhos mais notáveis foi um drama chamado Almas Desesperadas (Don´t Bother to Knock, 1952), onde interpreta uma jovem perturbada que acabou de sair de uma instituição mental.

O ano de 1951 foi decisivo para o início de seu sucesso e fama, neste período ela viu sua popularidade crescer sem ao menos ter feito um papel importante no cinema. Com o objetivo de se tornar uma atriz respeitada, ela imergiu em aulas de arte dramática e leituras; além de sua professora Natasha Lyttes, tinha aulas com o russo Mickail Tchekhov, sobrinho de Anton Tchekhov, que lhe ensinou técnicas corporais de dicção e exercício de respiração para potencializar sua atuação. Enquanto isso, na mídia, a comparavam com Lana Turner e Joan Crawford.

Marilyn fez uma curta participação em Joguei Minha Mulher (Let´s Make it Legal; 1951), cujas críticas concordaram que apesar da história desinteressante, “Marilyn era divertida”. Posteriormente, conseguiu um papel em Só a Mulher Peca (Clash by Night; 1952), de Fritz Lang, mais uma vez chamou mais atenção do que o próprio filme.

Desde essa época ela já tinha problema para entrar em cena, seus atrasos e inseguranças só serviram para potencializar o péssimo clima com o diretor quando quis impor sua coach, Paula Strasberg, no set de filmagem. Quando o filme foi lançado, a “jovem atriz desconhecida” chamou mais atenção, logo, a imprensa não poupou elogios nos jornais e revistas, o assédio era crescente.

A FOX que até então havia preterido a atriz, não tinha mais como ignorá-la, a partir daí, ofereceram-lhe um papel em Almas Desesperadas, dirigido por Roy Baker, que a tratava pior do que Lang. Ele costumava manter as primeiras tomadas de cada cena e Marilyn improvisava mais do que o planejado, levando-se em consideração a complexidade do papel dramático que lhe cabia. Quase sem maquiagem e em preto e branco, Marilyn demonstrou uma gama de expressões antagônicas tais como raiva, desespero, tristeza, medo, inveja, crueldade.

Almas Desesperadas conta a história de um casal hospedado em um hotel que aceita a sugestão de um ascensorista e contrata por recomendação dele, sua sobrinha Nell (Marilyn Monroe). O casal vai participar de um evento no próprio hotel e precisam de uma babá para tomar conta da filha à noite. No quarto ao lado, o hóspede Jed Towers (Richard Windmark), um piloto da aviação civil, está desapontado porque brigou com sua namorada, a cantora do bar do hotel.

Acontece que a aparente boa moça revela não só ter um passado misterioso, com também algumas atitudes estranhas. Quando ela fica sozinha com a menina, ela a manda dormir. Depois começa a mexer nas coisas da mãe dela: coloca brincos e veste um vestido de festa. Jed a vê pela janela e resolve flertar com Nell, ligando para seu quarto. Os dois acabam se encontrando, mas Jed não sabe que Nell sofre de distúrbios mentais e começa a ter delírios paranóicos, confundindo-o com o ex-marido, um piloto morto na guerra. Para piorar, a babá culpa a garotinha quando Jed a deixa sozinha. O filme que tem uma estrutura bastante clássica, não se passa em um único local, o hotel em Nova York, à toa. Tal escolha só aumentou a sensação de claustrofobia.

Windmark, ator que contracenou com Marilyn certa vez deu uma declaração que nos anos seguinte viria a se repetiria muitas vezes nas palavras de outras pessoas: “Era um sacrifício fazê-la deixar o camarin e dirigir-se ao set. No início todos achavam que aquilo não ia dar certo e murmuravam: ‘ É impossível, não podemos filmar isso!’ Mas passava-se alguma coisa entre a lente e a bobina e quando íamos ver os copiões ela brilhava tanto na tela que a gente não existia mais ao lado dela”.

Veja o trailer:

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Sobre Joyce

Fundadora e editora do Cinemascope, jornalista, paulistana, fotógrafa, apaixonada por David Lynch, Pedro Almodóvar, Marilyn Monroe e café.
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