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A Liberdade é Azul

Por Domitila Gonzalez

A Liberdade é Azul é o título em português para o primeiro filme da trilogia das cores, escrito e dirigido por (eu sei, muitas consoantes) Krzystof Kieslowski, em 1993. Muito se diz sobre a trilogia ter sido feita num projeto em homenagem às três cores da bandeira da França e seus significados, em comemoração aos 200 anos da revolução, mas há pouco sobre a questão do indivíduo preso ao mundo em que vive – tema recorrente nos três filmes.

Em Azul, uma Juliette Binoche ainda nova vive uma mulher que perde seu marido e sua filha num acidente de carro e, durante todo o filme, tenta lidar com o luto.

Desde os primeiros momentos, sabemos que estamos em contato com uma obra repleta de sutilezas. Há um cuidado especial no encaixe de cada plano, na aplicação dos filtros azuis, na escolha dos elementos de cada cena, de cada sequência, de cada silêncio e cada música.

Há uma importância grande nos momentos “entre”, mais saborosos até que os acontecimentos em si. Gosto quando o diretor valoriza pequenas coisas dando a elas grande participação no roteiro, como o móbile, o torrão de açúcar no café (uma das sequências mais incríveis do cinema), o crucifixo, o toque de Julie (Binoche) nas partituras que desperta a melodia composta por seu falecido marido.

Os vários tons de azul de fato permeiam o filme todo em diversos detalhes. Mas, acima de tudo, o azul se faz presente no luto. Nenhum sinal do outro que se foi, e, no entanto, tudo sobra: um saco de lixo, um pingente, um bombom, uma foto.

Julie é azul.

A trilogia das cores: A Liberdade é Azul

E não bastam os desejos de se livrar de tudo o que outrora fizera parte de sua vida. Entre silêncios ensurdecedores, a música de Zbigniew Preisner ganha força e ressalta apatias e efemeridades, transformando a fuga da protagonista numa ebulição sinestésica que engole o espectador: ela busca, desesperadamente, sentir alguma coisa. Mas não sente nada, nada lhe interessa – nós sentimos por ela.

Costuma-se dizer que a aparição do elemento água no cinema está relacionada ao fator transformação, mas os mergulhos noturnos de Binoche ressaltam a inação da protagonista, quebrada a partir dos momentos em que ela se depara com personagens-chave: a amante de seu ex-marido, o compositor Olivier, uma prostituta, um mendigo tocador de flauta e o menino que estava presente, no dia do acidente de carro.

Cada um deles se apresenta como fator motivador de uma decisão importante.

Além de ser uma obra cuidadosa no que diz respeito à construção da narrativa cinematográfica, A Liberdade é Azul também contém discussões filosóficas inerentes ao ser humano: a vida, a morte, o luto, a (in)decisão, os sentimentos, o apego, a fé.

A trilogia das cores: A Liberdade é Azul

O final nos traz uma versão da Carta de São Paulo aos Coríntios, cantada por um coro numa melodia rasgada, forte, trágica. Seria o coro da canção não terminada do marido que morreu, composta especialmente para a cerimônia de unificação da Europa.

Após concluir a sinfonia inacabada, revelam-se, então, diversas formas de amor, uma sob a forma de cada personagem-chave.

O roteiro cíclico de Kieslowski não deixa a desejar e a trilha sonora de Preisner fecha com chave de ouro o primeiro filme da trilogia das cores.

Kieslowski morreu cedo, aos 55 anos, logo após finalizar A Fraternidade é Vermelha e desistir do cinema. Mas Preisner continua nos presenteando com sua marcante trilha sonora, desde O Jardim Secreto (Agnieszka Holland, 1993), passando por A Árvore da Vida (Terrence Malik, 2011), até o último vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro: A Grande Beleza (Paolo Sorrentino, 2013).

A Liberdade é Azul traz como protagonista Juliette Binoche, que não brinca em serviço e trouxe para o filme diversos prêmios em várias categorias. Entre eles: melhor atriz, Leão de Ouro de melhor filme e o prêmio de melhor fotografia, no Festival de Veneza; três indicações ao Globo de Ouro (melhor filme estrangeiro, melhor música e melhor atriz – Binoche) e Cèsar de melhor atriz, melhor montagem e melhor som.

 

a-liberdade-e-azulf6A Liberdade é Azul (Trois couleurs: Bleu)

Ano: 1993

Diretor: Krzysztof Kieslowski
Roteiro: Krzysztof Kieslowski, Agnieszka Holland, Edward Zebrowski e Slawomir Idziak.
Elenco Principal: 
Juliette Binoche, Benoît Régent, Florence Pernel, Emmanuelle Riva.

Gênero: Drama/Mistério/Romance/Música
Nacionalidade: França/Polônia/Suíça

Veja o trailer:

Galeria de Fotos:

Sobre Domitila

Domitila Gonzalez é atriz e jornalista e dedica seu tempo livre a seus diretores favoritos. Adora clássicos, é fã incondicional de preto-e-branco, mas não abre mão das cores de Almodóvar.
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