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Peur(s) Du Noir

Por Rafael Ferreira

O público médio está acostumado com a animação voltada para crianças, eu não o culpo, afinal essas são as animações que chegam aos cinemas comerciais no Brasil, mas o que não chega aos cinemas pode ser mais interessante, uma corrente disso são as animações de horror. Sim, isso existe, com alguns representantes bem conhecidos do grande público,  como A Casa Monstro (2006), Coraline (2009), e Paranorman (2012), Over The Garden Wall (2013) que eu vejo como uma forma de introdução ao mundo do horror para os pequenos, enquanto existem outros mais intensos, e que passam longe dos multiplex, como o coreano Seoul Station (2016), um filme de zumbis em animação, e aquele que se tornou uma referência para todos os profissionais da área, sobre o qual falarei hoje.

Peur(s) Du Noir, ou Medos(s) do Escuro, traduzido para o português, é uma animação francesa lançada em fevereiro de 2008. Trata-se de uma antologia de cinco contos, cada qual por um diretor diferente, carregando uma estética diferente, e todas prendem a atenção do espectador como se fosse uma mulher possuída usar o seu corpo para gerar seus diabinhos.

Sobre os realizadores que tornaram isto possível, todos são grandes nomes das artes gráficas da atualidade, e para quem já conhece ou se interessar pelo seu trabalho, verá o quanto foram bem sucedidos na transição do papel para a tela. Blutch é um quadrinista francês, autor de várias HQs de drama, que infelizmente não chegaram a ser publicadas no Brasil; Charles Burns é um ilustrador e cartunista americano, autor da HQ Black Hole, criou a capa do álbum Brick By Brick (1990) do Iggy Pop, trabalhou numa campanha da Coca-Cola, criando a arte das latinhas e freezers para um produto lançado nos anos 90 nos EUA, a OK Soda (que não existe mais); Marie Caillou é uma artista francesa com uma base de fãs no Japão, mesmo que sua arte não tenha nada de anime, para mim, lembra as capas de alguns livros da editora Zahar, mas não tão minimalista; Romain Slocombe é autor de diversas obras com mulheres fortes, e relevantes no Japão, provocando controvérsia entre a yakuza; Lorenzo Mattotti é um quadrinista italiano, responsável pelas belíssimas ilustrações do João e Maria do Neil Gaiman, que se utilizam do preto e branco, e criam profundidade às cenas, lançado posteriormente a este filme; Richard McGuire é designer gráfico, cartunista, quadrinista, e toy designer, responsável pelas ilustrações no New York Times e Le Monde.

Apenas a título de curiosidade: nesta cena de Planeta dos Macacos: O Confronto, Alexander, o filho do personagem principal, mostra a Graphic Novel Black Hole para o orangotango Maurice.

“Há muita gente que não suporta ouvir grunhir um porco; outros, ao verem um gato, ficam loucos; e outros, ainda, que ao fanhoso canto da cornamusa a urina não retém. É que a impressão, senhora dos instintos, vos faz odiar ou amar, como apetece.” – William Shakespeare em O Mercador De Veneza (1605). Há muito tempo, nos tempos de Shakespeare, o medo era visto como manifestação sobrenatural, hoje sabemos que não tem nada de sobrenatural, que pode ser ativado por algum evento, em outros casos pode ser uma herança da espécie, e com o passar do tempo ele pode diminuir ou agravar.

O primeiro conto (dirigido por Blutch), editado intercaladamente entre as outras histórias, apresenta um aristocrata velho e sinistro levando quatro cães ferozes para passear, e a cada encontro com alguém, um cão é solto da coleira e este faz uma vítima, não poupando ninguém. Numa tentativa de analisar este segmento, diria que o dono dos cães representa o poder que a classe dominante exerce sobre as demais, representadas pela criança indefesa, o trabalhador braçal, e a mulher dançarina. Mesmo ele sendo o mestre dos cães, a cada ataque que ele comanda, ele fica vulnerável, ao passo que na tentativa de colocar seu último cão contra si próprio, este se vira contra seu mestre. Existem inúmeras leituras que podemos fazer a partir da conclusão deste segmento, uma delas é que o opressor estaria oprimindo a si mesmo.

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O medo social é o mais destrutivo, este tipo de handicap faz parte da segunda família do medo, se manifesta naquela angústia que sentimos temendo ser julgado por expressar uma opinião, ou se apresentar diante de um público, e muitas vezes esse medo é acompanhado da vergonha.

A segunda história (dirigida por Charles Burns) é sobre um típico rapaz introvertido que quando jovem captura um estranho inseto/diabinho, que acaba escapando, mas nunca o abandona. Anos mais tarde, ao levar uma garota para o seu quarto, ela passa a desenvolver uma obsessão pelo rapaz, como se possuída por aquele estranho ser. Novamente há diversas leituras que podem ser feitas, o diabinho pode ser uma metáfora para aqueles problemas que silenciamos ao invés de tratar, principalmente problemas sociais, e mais tarde se manifestam nos nossos relacionamentos, e podem ser altamente prejudiciais, levando a um relacionamento abusivo.

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A terceira família do medo é a do pior tipo, os que dão a sensação de perder o controle do seu corpo ou do seu espírito. É também o mais complexo, agorafobia ou síndrome do pânico pode ser definida como o medo do medo, é uma angústia intensa, que chega ao seu pico muito rapidamente. Sabe como o It representa o pior medo da pessoa… aqui este medo não tem forma física, ele é apenas o medo de sentir medo, e quando ele chega, você não consegue se controlar. E por falar em controlar, geralmente não podemos controlar nossos sonhos, e eles acabam se tornando pesadelos, o próximo segmento é sobre isto.

Talvez seja o mais bizarro (dirigido por Marie Caillou) porque se passa no Japão (com todo respeito aos japoneses), conta a história de uma garota morando numa área rural, tratando clinicamente dos seus pesadelos, povoados por bullies e um fantasma de um samurai. Este segmento é extremamente impactante, pelo simples fato de ser uma espécie de “jogo mental”. Sumako, a protagonista, tem diversos pesadelos durante o curta, nos quais a realidade e o lúdico se misturam, e quando isso acontece, ela se torna seu próprio medo.

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O medo pode ser visto como um sistema de alarme, que nos diz que algo pode estar errado, algo que pode nos ser fatal. Lembra do Medo em Divertida Mente (2015) que ensina Riley desde bebê a evitar o cabo da tomada? Pois bem, o medo é algo natural, um mecanismo de defesa, que pode evitar a nossa morte, afinal todos nós temos medo da morte.

A quarta história (dirigida por Lorenzo Mattotti) é sobre um garoto cujo tio morreu misteriosamente, um amigo do menino atesta que ele pode ter sido atacado por alguma fera. O amigo desaparece em seguida, e um caçador profissional é contratado para matar a tal fera, que é abatida, e o garoto passa a ser visitado pela sombra do seu amigo. Este curta lida com o medo do desconhecido, uma fera misteriosa habita a região e faz suas vítimas, o protagonista o vê mas não sabe o que é, pode ser a fera, pode ser seu amigo, ou pode ser ambos. Quando abatida, a fera que descobrimos ser um crocodilo gigante, é empalhada e exibida em uma igreja, onde as pessoas farão suas orações pela alma do tio e amigo do protagonista, este último, mesmo depois de morto, permanece vagando pelo mundo, acredito que seja porque ele não tem pai (lê-se Deus), ou porque seu corpo nunca foi encontrado, ou as duas coisas. O curta começa com um funeral, e termina com uma alma vagante, e a partir disso, faz-se a seguinte pergunta: “para onde vamos depois que morremos?”

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Estudos mostram que os medos patológicos são resultado de uma influência de predisposições biológicas inatas, com influências ambientais, adquiridas. Em outras palavras, já carregamos o medo no nosso gene, como a repulsa por vegetais na infância (sim, isso é verdade), e que podem ser agravadas por algum evento, como se engasgar comendo um vegetal fosse provocar fobia de vegetais, o seu cérebro reconheceria o perigo. Mas a nossa mente nem sempre é confiável, o vegetal pode ter gosto ruim, mas é melhor pra saúde. O cérebro de um fóbico funciona como um radar, uma pessoa com medo de aranhas vai escanear um ambiente ao entrar nele, a procura de qualquer sinal ou presença do aracnídeo, seja um fio de cabelo loiro confundido com uma teia de aranha. Toda essa explicação superficial para dizer que quando se trata de medo, nosso cérebro, nossa imaginação, são os principais responsáveis por serem os causadores.

O quinto e último curta (dirigido por Richard McGuire) é no mínimo excelente em criar uma atmosfera sinistra, isso sem precisar dizer uma palavra. Um homem busca abrigo de uma nevasca numa casa abandonada, e quando ele se acomoda, uma paranoia forças sinistras começam a aterrorizá-lo, impulsionado pela foto da possível dona da casa, que aparentemente cometeu um assassinato. Este é um bom exemplo de como o nosso cérebro prega peças em nós mesmos, cria fantasias, e nos prende nessa realidade.

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Infelizmente, Peur(s) Du Noir não chegou ao mercado brasileiro, mas isso não impede que o filme seja conhecido, pelo menos pelos profissionais da área de animação, que sempre o citam como uma referência. O visual é um primor, a animação rabiscada parece tirar o appeal, mas acrescenta para a proposta de ser uma história sinistra; o uso das silhuetas, principalmente no último segmento mostram o quanto isso é um recurso bem utilizado narrativamente; a animação, mesmo quando não é tradicional, é bem realizada, considerando as técnicas. Caso você seja um fã de filmes de terror (terror de verdade, não estou falando desses filminhos que prega sustinhos fáceis), este é um que você não deve deixar de conferir, nem que seja por meios alternativos, ou importando o DVD pelo Amazon.com.

Sobre Rafael

Nascido no interior de Goiás, criado assistindo desenhos animados e filmes de terror. Formado em Publicidade e Propaganda, divide sua paixão por cinema com a música, e a arte da animação.
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