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MCDLINC FE025

Lincoln

Por Paulo Júnior

O novo filme de Spielberg é baseado no livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln (Time de Rivais: o Gênio Político de Abraham Lincoln), escrito pela historiadora estadunidense Doris Kearns Goodwin, e destaca os últimos meses da vida de Abraham Lincoln (1809 – 1865), o 16º presidente dos Estados Unidos da América, e aborda detalhadamente a questão da aprovação, por parte do Parlamento, da 13ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, o que representou a extinção da escravatura no país.

No início do longa-metragem, vemos Lincoln com sua comitiva política, dialogando com um grupo de soldados afro-americanos durante a Guerra de Secessão (1861 – 1865). Assim, já vemos a ligação do presidente estadunidense com a população afro-americana, e como essa aproximação vai ser importante no decorrer do filme. Em seguida, observamos um Lincoln chefe de família, com dois filhos (uma criança e um rapaz) e uma mulher nostálgica. Essa relação com a esposa é um caso a ser analisado. A maioria dos biógrafos aborda de que Lincoln mantinha um casamento infeliz com sua esposa – Mary Todd Lincoln – e isso é comprovada através de relatos escritos e comentários de outras pessoas ligadas ao casal, porém, no filme ambos se mostram felizes com o matrimônio, apesar das fortes discussões. Vale ressaltar o diálogo no final do longa-metragem, onde a primeira-dama diz que “tudo que vão se lembrar de mim é que eu era louca e arruinei sua felicidade”, em seguida, o presidente retruca dizendo que “qualquer um que pensar assim não a entende”. No decorrer da conversa, percebemos que ambos, por algum período foram infelizes (muito desse sentimento é decorrente da vida politica de Lincoln, que “abafava” a imagem de sua esposa), contudo, estavam dispostos a serem felizes. Aqui notamos o respeito mútuo, apesar de não se amarem loucamente, se respeitam de uma forma ímpar.

Entretanto, voltaremos para a parte central do filme. A Guerra da Secessão, iniciada no primeiro mandato de Lincoln, está chegando ao fim, com ampla vitória da União – os vinte e três estados federais abolicionistas – contra os onze estados federais que faziam parte da Confederação secessionista, contrárias ao abolicionismo. Em vias da derrota, a Confederação inicia o processo de rendição e aceitam assinar o tratado de paz, fazendo com que os políticos pró-União iniciem os processos para a integração (ou reintegração) da nação estadunidense, dividida entre Norte e Sul, e devastada pelos quase cinco anos de batalhas incessantes.

O presidente, observando o desenvolvimento do conflito, dá início à aprovação de seu projeto de abolir a escravatura nos EUA. Assinando o tratado de paz, a Confereração voltaria a explorar os escravos. Assim, o Parlamento deveria aprovar a 13ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos (ou a Proclamação da Emancipação dos escravos) antes do fim da guerra. Dessa maneira, ao longo do filme a “guerra” política em conseguir a aprovação da emenda é conflituosa, já que para a aprovação seriam preciso os votos de 1/3 dos parlamentares. Porém, como o Partido Republicano estava ao lado do presidente, eram precisos vinte votos para aprovação. Dessa maneira, tem início à “compra” de votos pela oposição democrata, contraria ao abolicionismo. Com a ajuda de uma equipe de assessores e de políticos republicanos, os parlamentares democratas são abordados para aprovarem a ementa, em troca de favores, como nomeações (apesar de Lincoln ser contrário ao suborno direto).

Esse conflito em relação à aprovação da ementa, cheio de altos e baixos (como toda trama), tem seu desfecho perto do término do filme. Com a maioria dos votos, o Parlamento aprova a 13ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, que dá a liberdade aos escravos estadunidenses. Lincoln, satisfeito com o resultado, demostra um sinal de alivio, agora só resta o final efetivo da Guerra Civil. Historicamente, já sabemos o final do filme, porém Spielberg, de uma sutileza impressionante, consegue ser poético ao não apresentar o momento do assassinato do teatro. O longa-metragem termina com o discurso da posse do segundo mandado do presidente mais popular que os Estados Unidos da América já conheceu, que se tornou um herói entre os americanos e que teve sua figura reivindicada diversas vezes ao longo das décadas.

O historiador brasileiro José Murilo de Carvalho, em seu livro A formação das almas: o imaginário da república no Brasil, levanta que o mito do herói tem uma longa tradição na história. Todo governo tem seu panteão cívico e elegem figuras que são modelos para a comunidade. Heróis, na contemporaneidade, são pessoas reais e não figuras mitológicas. Existem situações em que a mesma pessoa representa diferentes imagens de herói para diversos setores sociais, é o caso de Abraham Lincoln nos Estados Unidos, que para a população negra e da costa leste representa o mártir, o salvador do povo, já para o oeste, ele é o desbravador, o líder da fronteira, o conquistador. Assim, por ser parte real e parte construída, a figura de Lincoln é fruto de um processo de elaboração coletiva, em que diz mais sobre a sociedade que o produziu, do que o própria líder político.

Um fato curioso chama a atenção do espectador mais atento, Spielberg é pró-Partido Democrata, então o que o teria levado a fazer um filme de um presidente republicano (apesar de ter lutado contra uma parte expressiva do partido)? Devemos olhar a sociedade estadunidense da época de Lincoln com os olhos de hoje, a situação política dos EUA mudou em relação ao século XIX? Não, o governo ainda continua corrupto e lutando a favor de medidas que interessam algumas elites (Lincoln lutava contra a abolição da escravatura em favor de uma ideologia própria, porém, atualmente existem diversas medidas que beneficiam uma grande parcela da elite). A personagem Thaddeus Stevens, representada pelo consagrado Tommy Lee Jones, ao chegar em casa e dar a notícia a sua concubina (uma escrava liberta) diz que “a maior medida do século XIX, aprovada pela corrupção, ajudada e instigada pelo homem mais puro da América”, talvez aí esteja o significado do filme. Ao mostrar um governo com medidas corruptas (ligando, através do imaginário, que isso seria característico ao Partido Republicano) foi organizada por homem de uma personalidade única e um caráter impressionante. Por que, em pleno século XXI, e com um governo em crise, seria útil utilizar a imagem de Abraham Lincoln? A resposta não é simples, mas vale o exercício de reflexão.

 

Cinermascope---Lincoln-PosterLincoln 

Ano: 2012

Diretor: Steven Spielberg.

Roteiro: Doris Kearns Goodwin, Tony Kushner e Paul Webb.

Elenco Principal: Daniel Day-Lewis, Joseph Gordon-Levitt, Tommy Lee Jones, Sally Field.

Gênero: Drama.

Nacionalidade: EUA/Índia.

 

 

 

Veja o trailer:

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Por Paulo Júnior O novo filme de Spielberg é baseado no livro Team of Rivals: The Political Genius of Abraham Lincoln (Time de Rivais: o Gênio Político de Abraham Lincoln), escrito pela historiadora estadunidense Doris Kearns Goodwin, e destaca os últimos meses da vida de Abraham Lincoln (1809 – 1865), o 16º presidente dos Estados Unidos da América, e aborda detalhadamente a questão da aprovação, por parte do Parlamento, da 13ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos, o que representou a extinção da escravatura no país. No início do longa-metragem, vemos Lincoln com sua comitiva política, dialogando com um grupo…

Avaliação geral

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5

Sobre Paulo Pereira

Natural de Porto Ferreira, interior de São Paulo, é bacharel em História-América Latina pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA) e mestrando em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Cinéfilo assumido, iniciou sua paixão pela sétima arte após assistir aos grandes clássicos do cinema estadunidense. A partir de um olhar crítico, busca analisar a estética, a qualidade técnica, a posição político-ideológica dos autores (roteiristas, produtores e cineastas) e a visão sócio-política existente no mercado cultural cinematográfico.
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