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O Estranho que Nós Amamos

Por Vinícius Gonçalves

O estranho que nós amamos é o mais recente filme da diretora estadunidense Sofia Coppola, remake do filme de Don Siegel lançado em 1971 e baseado na literatura de Thomas P.Cullinan.

A obra teve grande repercussão no festival de Cannes e concedeu à cineasta o prêmio de melhor direção. Título importante, uma vez que Coppola é a segunda diretora a faturar o prêmio em 70 anos de festival. O longa-metragem, que tem sua première marcada para o dia 10 de agosto no Brasil, compõe um elenco expressivo com a participação de Nicole Kidman, Kristen Dunst, Elle Fanning e Colin Farrell.

O filme tem como contexto sócio-político a Guerra de Secessão ou Guerra Civil Americana (1861-1864) que se encontra no auge do embate armado. O Norte e o Sul do País estão em conflito e em território Confederado, um soldado nortista ferido – John McBurney (Colin Farrell) – é encontrado por uma jovem que vive em um internato para mulheres. O homem é acolhido e passa a conviver com as moças enquanto se recupera de seus ferimentos. No pensionato, o soldado recebe uma exclusiva atenção das mulheres, que se sublimam com a sua estadia dentro da casa já que nunca estiveram com um homem em suas vidas.

Martha Farmsworth (Nicole Kidman) é a dona e a mulher mais velha do internato, Edwina (Kristen Dunst) é uma mulher adulta e Alicia (Elle Fanning), a jovem adolescente. O conflito se estabelece na medida em que as mulheres se empregam em obter a atenção exclusiva do soldado. Longe de insinuar um enredo estereotipado da relação entre mulheres, a obra versa sobre os jogos de sedução em consonância com uma tensão sexual cismática e a disputa de poder, já que na casa cada mulher tem uma posição delineada constituindo uma hierarquia social. A relação com a religião também fornece subsídios para refletir o comportamento das personagens diante da situação, ou seja, a misericórdia e a compaixão costuram uma ética e moral duvidosa, uma vez que esses conceitos aparecem como uma provável desculpa para manter o homem sob custódia.

O interessante do filme é o entrechoque do universo masculino e o feminino, isto é, John, considerado um soldado “covarde” (que fugiu da guerra) se esforça incansavelmente em fascinar as mulheres, ao passo que, ambas, querem também o seduzir.  O ponto central é que o soldado transparece uma conduta masculina recorrente, ou seja, do homem cativante, envolvente e atraente, tipicamente de um personagem plano.

Diferentemente, as protagonistas constituem personagens redondos, ou seja, são misteriosas, imprevisíveis e desconcertantes. Daí o confronto na relação afetiva posto que o Soldado confia no poder de sedução que exerce sobre as mulheres, configurando uma postura ingênua, visto que as protagonistas operam na lógica inversa. Os planos e enquadramentos, bem como os diálogos, têm lugar privilegiado nas sequências do jantar, quando todos estão comungando. É na mesa, na partilha dos alimentos que se constitui a unidade familiar, e, ao mesmo tempo, a tensão nauseante que circunscreve a atmosfera fílmica. Ainda, a estética da obra dá a sensação de sobriedade, com uma paleta de cor em tons pastel contribuindo para o mistério que envolve o enredo.

Todos esses conflitos são filmados de uma maneira sofisticada, na delicadeza da câmera em pairar sempre sutilmente nos diálogos das personagens ou na própria filmagem do cenário que tem como exclusividade o internato. No desenvolvimento do enredo fica evidente que cada enquadramento foi excepcionalmente arquitetado, construído e manipulado pelas mãos da direção –  não há em nenhum momento do filme uma sequência que não contribua para a reflexão da obra como um todo.  Ainda, a atuação de Nicole Kidman, Kristen Dunst e Elle Fanning entrega a dose certa na interpretação dos papéis, fazendo com que o espectador se revire na sala de cinema tentando procurar evidências que respondam às atitudes das personagens.

Mais uma vez Sofia Coppola retorna aos cinemas com um filme arrebatador, que demonstra o seu talento na direção. Com uma premiação emblemática de melhor direção no festival de Cannes, O Estranho que Nós Amamos entra na esteira da exímia filmografia de Coppola, compondo uma produção excepcional que já contém obras conhecidas como: As Virgens Suicidas (1999) Encontros e Desencontros (2003) Maria Antonieta (2006) e The Bling Ring: A Gangue de Hollywood (2013). A diretora entrega uma obra audiovisual repleta de sentidos que proliferam os mais diversos significados na cabeça de seus interpretantes.

o estranho que amamos posterO Estranho que Nós Amamos (The Beguiled)

Ano: 2017

Direção: Sofia Coppola

Roteiro: Sofia Coppola

Elenco: Nicole Kidman, Kristen Dunst, Elle Fanning e Colin Farrell.

Gênero: Drama

Nacionalidade: EUA

Veja o Trailer:

Por Vinícius Gonçalves O estranho que nós amamos é o mais recente filme da diretora estadunidense Sofia Coppola, remake do filme de Don Siegel lançado em 1971 e baseado na literatura de Thomas P.Cullinan. A obra teve grande repercussão no festival de Cannes e concedeu à cineasta o prêmio de melhor direção. Título importante, uma vez que Coppola é a segunda diretora a faturar o prêmio em 70 anos de festival. O longa-metragem, que tem sua première marcada para o dia 10 de agosto no Brasil, compõe um elenco expressivo com a participação de Nicole Kidman, Kristen Dunst, Elle Fanning…

Avaliação geral

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5

Sobre Vinícius Gonçalves

Bacharel em Comunicação e Multimeios pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Possui interesse em artes plásticas e audiovisuais.
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